domingo, março 01, 2009

TUDO DE FACHADA




omo falsas realidades são capazes de criar sentimentos verdadeiros! E isso não é (apenas) coisa de um cinema em que se lançou, com todo o aparato estrondoso de uma estréia planejada para atingir diretamente o alvo escolhido, por mais universal e genérico que este seja, bombas de gás lacrimogêneo, tendo-se antes o cuidado de não se permitir a entrada dos espectadores portando “corriqueiras e usuais” máscaras antigas, além daquelas que já se carregam sempre, elas mesmas carregando-nos, carregados nós já com os disfarces indispensáveis para não sermos, inclusive, reconhecidos nessa sala lacrimejante, estas também carregadas com um potencial de sentimentos sinceros e só à espera de que uma realidade, até falsa, puxe o pino, destrave o mecanismo que mantém concentrada toda a energia de uma granada de mão, dispersando, assim, seus efeitos pelos ares, levando aos quatro ventos não só sentimentos, que, por natureza, são um tanto instáveis, mas a própria sala de cinema, às escuras então, clareando-se pelas conseqüências da detonação.


Não há contradição, em se falando de sentimentos, ao se fazer intervir aí – aqui – um pouco de razão, até porque, se há sentimentos, há também realidades, falsas que sejam. É com (a) razão que se há-de fazer uma objeção, ou duas: como, sendo falsa, uma realidade poderia gerar algo de verdade? e se assim o faz, essa verdade do fato, não sendo uma verdade como se disse, sustentada por uma base real mas falsa, não será verdadeiramente uma aparência, uma aparição fugaz que logo, por conta de um tiquetaque real, vai-se revelar o que “realmente” é, o que é de verdade, ou seja, um sentimento falso, apesar de se o sentir com toda a comoção experimentada com sentimentos, de fato, verdadeiros? E ainda, se o sentimento em questão é verdadeiro, mesmo que então seja o efeito, e tenha assim de vir necessariamente depois, como pode ter partido de uma falsa realidade?


Não! não chamaremos o cinema para nos auxiliar, com seu exemplo, nem sempre dos melhores, de sala à penumbra, dizendo o quanto podemos nos emocionar, verdadeiramente – seja por efeito de gás lacrimogêneo, seja pelo efeito especialmente hilariante de um outro gás –, assistindo a realidades fabricadas (e há fábricas bem sucedidas de “falsidades” em série): e dizer, ainda em busca de ajuda, que a fábrica de sentimentos é inspirada em sentimentos artesanais, manualmente elaborados, feitos um a um, sem que haja dois exatamente iguais, mesmo que se fabrique muitos parecidos uns com os outros!


Talvez devêssemos ficar mais atentos à (nossa?) realidade, e não para contrapô-la aos lançamentos aparatosos do cinema, mas para melhor observarmos que pouca diferença faz, se se sente isso verdadeiramente, que a realidade seja falsa; realidades daquelas que cedem facilmente a uma investigação mais rigorosa: e quem sabe alguma coisa de cinema sabe também o quanto ele é capaz de fabricar chãos, removíveis após as filmagens, bem mais firmes do que aqueles em que realmente pisamos – a falsidade de um terreno não se mensura pela sua falta de firmeza, porque há terrenos sólidos e também os há bastante movediços, sem que isso os faça mais ou menos verdadeiros.


De todo jeito, o cinema será sempre, enquanto puder (nos) emocionar, uma boa fábrica de máscaras em série, desde que, ávida por bilheteria monumental, não queira, ambiciosa demais, lançar uma máscara à prova de lágrimas (ou de risos... lacrimejantes). Assim, querendo ganhar tudo de uma vez, perder-se-á, cinema que é, para sempre.




domingo, fevereiro 01, 2009

O HOMEM ESTÁ NU



s derrotados, mais cedo ou mais tarde, acabam por dar um jeito de transformar, nem que seja somente aos seus próprios olhos, aquilo que melhor sabem fazer - perder - numa grande vitória, mesmo sabendo que, no mais tardar, o mais cedo possível, essa autoimagem vitoriosa restrita, portanto, ao seu próprio ponto de vista, esfacelar-se-á, a menos que supere esse seu olhar pessoal, e atinja o que sempre fora, desde o início, seu alvo primordial: o olhar alheio, como um legitimador de sua vitória, ou de suas derrotas, o que já o faz (a seu próprio olhar) um vitorioso.

Os vitoriosos, quase que assim por natureza, terminam, mais dia menos dia, nessa sucessão de vitórias em que se transformou sua vida, verdadeiro cotidiano nem surpresas, caindo em armadilha semelhante àquela em que caem os perdedores (quase que por natureza) - o que, diga-se, não lhes é nenhuma surpresa, considerando-se que nisso, com o tempo e as repetidas vitórias, em que eles se saem melhor, ainda que, vitoriosos como são (sempre), não haja, à vista, possibilidade de não se saírem bem, ou, para se sagrarem em primeiro lugar, como convém ao que são, saindo-se melhor (ainda).

Vitoriosos, vistos assim não apenas por si mesmos, coisa que até aos perdedores é dado, mas também como ganhadores contumazes aos olhos dos outros - o que é o desejo maior de um perdedor que faz dessa sua "sucessão" (se se pode dizer assim) de derrotas uma vitória -, um dia, dirão, com ar de derrotado, que não há vitória em ganhar sempre, espalhando, em volta, humildade-em-pó, que até pode ser sincera, porém, ocultando de si mesmos a verdade por trás do que dizem: se se ganha, toda vez que se entra no jogo, isso dilui o valor da vitória, na medida em que esta, essência, juntamente com a derrota que lhe é reversa, de toda competição que se preze, torna-se certa: e adeus surpresa.

Mas, acene-se a um perdedor, mesmo que não um que já se vai acostumando a sempre perder, e sim a um que, se não está perdendo pela primeira vez, já deu de cara com vitórias pessoais, sempre esquecidas, quando se encara uma (nova) derrota, com uma vitória, reconhecida por todos os olhos (menos os dos perdedores invejosos), e anunciada, portanto, sem surpresa para ninguém, nem para si próprio, e veja-se se esse perdedor da hora há-de se negar a agarrá-la, só porque já tinha a certeza de que ganharia, de antemão.

Talvez, e não estou plenamente certo disso (sequer me arrisco a palpitar, já tendo experimentado, em casos assim, derrotas sem conta), um vitorioso que não conheceu, em sua vida de ganhos, uma derrota, ou se a conheceu, isso se deu há muito tempo, o suficiente para já ter ficado encoberto pelo esquecimento, ou foi soterrada por uma avalanche de vitórias, fique tentado, diante de oferta semelhante, mas não igual, a largar de mão: e não porque se lhe ofereceu, mais uma vez, uma vitória, além do mais, sem surpresa, como está acostumado, mas porque o que mais almeja é algo que o surpreenda, mesmo que uma derrota, quem sabe se porque está convicto que isso faz parte do jogo, e que, depois dessa, outras vitórias, como sempre, hão-de lhe vir.

Se sou um perdedor que sempre perde, sucessivamente, já não me surpreendendo com isso ou se sou um desses vitoriosos que, exaustos de tantas vitórias, de tanta falta de surpresa, abre um sorriso quando, em fantasia, imagina-se perdendo? Quem me conhece, lendo-me desde o inicio, percebendo, sem surpresa, o que estava por vir, já deve ter adivinhado.




quinta-feira, janeiro 01, 2009

TÔ TÃO CANSADO!...


ecurso fácil, quando não se deseja despender muito esforço (o que, muitas vezes, é difícil, seja porque se rejeita, preconceituosamente, o recurso fácil, acreditando-se que daí não poderá vir, sem o esforço muito, nada que preste, seja porque o esforço tanto é a legitimação de um tempo de sobra que não se quer mostrar assim - um recurso, admitamos, complexo), é associar uma página (ainda) em branco ao começo de tudo: o começo do mundo, o começo da vida, o começo, propriamente, de toda história, partindo-se sempre do princípio de que tudo começa assim, do nada, como se fosse mesmo possível se construir alguma coisa a partir desse material tão instável.

Com o começo do ano, de cada um deles, não importando o quão velha já vai essa história, quantas folhas, um dia, novas, em branco, um nada, aparentemente, tão promissor, hoje, não passam (só os mais nostálgicos ainda passam essas páginas) de um amontoado de folhas passadas, algumas, curiosamente, em branco, o que não significa que estejam novas, apesar do passar do tempo, sendo mesmo, ao contrário, uma espécie de coisa velha ao quadrado, por retangular que seja a folha, na medida em que, tendo-se a ela recorrido, com sua brancura otimista, na esperança de que, ao longo do ano, se a fosse preenchendo, contando, desse modo, umas história, percebe-se, nesse retrospecto, que tudo não passou de um recurso fácil, na tentativa de se autoconvencer de que é assim mesmo que o mundo gira, que os homens crescem, que as histórias prosperam, que o nada se plenifica, reiterando o preconceito contra o menor esforço, o que leva - recurso fácil! - a que se queira, a partir de agora, a começar deste ano, recorrer sempre ao maior esforço, negando-se, por mais que a força do hábito empurre em sentido contrário, a se deixar encantar pelos recursos fáceis, certos, então, de que, mais à frente, quando se olhar para a folha de agora (mas isso não é um recurso fácil, um dos que se jurou não se usar?!), há-de se a ver escrita uma história contada, ou, ao menos, o começo dela. Há-de se ver...se isso vai mesmo acontecer.

O recurso, aqui, pode ser fácil ou não, a depender do quão se recorra a ele, freqüentemente: em tudo o que se escreve, mesmo nas folhas em branco (porque nelas há, inaparentes, muitas linhas), há-de si ver, de ver a si mesmo, seja no tanto que se escreveu, nas histórias que se viveu, seja no pouco que se conseguiu contar, sem que isso se queira dizer que se despendeu quase nada de esforço, fazendo com que os mais apressados, dados aos recursos mais fáceis, concluam que esse é o resultado de se deixar seduzir pelas facilidades, como se ao dizerem isso não estivessem usando de recurso semelhante.

Abandonar as folhas, a idéia de que é preciso a primeira palavra para que a história, lá adiante, se mostre uma sucessão de sucessos, com uma ou outra pedra no meio do caminho, tudo pensado para, com tal empecilho, acentuar os sucessos, que podem não passar de uma inexorabilidade do tempo, já que, afinal, nessa seqüência, tudo é sucesso, tudo é uma sucessão, com o instante a vir tomando já o lugar deste de agora - que, a essa altura, já se foi -, parece-me um recurso demasiado fácil, apesar do esforço que, aqui, despendi. Sendo assim, pelo sim, pelo não, eis a folha, a primeira de uma seqüência a vir, a derradeira da seqüência que se encerra, cheias de sucessos.

Quanto à pedra, fica, como uma carta (uma folha dobrada), na manga, para a necessidade de se ter de aumentar, transformando num sucesso estrondoso, o que era só o passar do tempo.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

SEM SEGREDOS








á dizia um personagem de um memorável filme (trago-o de memória, mas não o digo, nomeando-o, porque se este negócio aqui já começa com citação, há-de continuar um arremedo de enciclopédia de bolso formada por fascículos avulsos de periodicidade semanal) que, quando a lenda é mais forte que o fato, deve-se, sem maiores conflitos éticos, imprimir a lenda: e quem o diz é um editor de jornal, explicada assim essa sua “impressão”.

Como fato, de verdade, aqui, não há, não havendo como provar que há, ficando sua credibilidade (e, no seu rastro, a minha também) empenhada à fé, vamos logo, de uma vez, à lenda, sem nos importarmos com o fato(?) de ela ser forte ou fraca. A lenda é hebraica e fala de um anjo-sentinela colocado diante da porta do céu – uma boa colocação, até mesmo para anjos que, salvo o(s) mais caidinho(s), estão, por natureza, sempre “por cima” –, ali postados para ouvir as preces, os rogos, as orações humanas, conduzindo-as a Deus.

De fato, o que há de encantador nessa narrativa, e que a torna digna das melhores impressões, é que, ao saírem da boca dos homens, ou, simplesmente, quando caladas fundo, do seu coração, tais pedidos, esperança de salvação, seja para o inexorável da vida, seja para aqueles acidentes cotidianos, plenamente reversíveis em suas conseqüências, apesar da aparência imediata de serem fatais, exigindo, diante da fraqueza humana, pressa na cessação da dor, e cujo remédio custa apenas(?) um pouco de paciência, de algum estoicismo para suportar um dor a que já não nos acostumamos, à custa de tantos remédios disponíveis, até para males inexistentes (ainda), sendo, talvez, suficiente, para tal alívio, uma noite bem-dormida, chegam – os tais pedidos, orações, rogos, preces –, afinal, aos ouvidos do Senhor, ali entram e se transformam em...flores.

Só mesmo uma boa lenda é capaz de fazer um ramalhete oloroso, multicolorido das nossas súplicas chorosas, às vezes, insípidas, de tão repetitivas que são; inodoras, por tanto que aguardamos, sem muita paciência, a graça, sempre de nariz em pé, com a desculpa de estarmos com olhos para Ele voltados, calcando, assim, a humildade sob os próprios pés, como se não fôssemos nós os suplicantes (seja Ele uma lenda ou um fato sobre-humano), mas justamente (como Ele não pode deixar de ser) Deus o que (nos) roga, transformado, assim, em nosso dependente, não podendo “viver”, apesar de uma eternidade que Lhe é atávica.

Oh! anjo, guardai os meus rogos para que, ao chegarem ao seu divino destino, entrando-Lhe pelos ouvidos adentro, caminhando pelos labirintos do Senhor, caiam ali, suavemente, como um doce vendaval de pétalas que sacrificam a integridade da flor (tomara que isso não signifique cortes em meus pedidos, por se considerar que minhas orações ficaram sem sentido) em nome dessa metáfora, porque não se conhece, de fato, um vendaval de flores dispersas, sabendo-se, no máximo, a depender da força do vento, de um espetáculo de pétalas indo pelos ares.

Ouvi bem, ó anjo, o que vos digo, o que peço, anotando meu pedido com a atenção de um florista cuidadoso ao registrar uma encomenda e, sendo, ao mesmo tempo, o próprio mensageiro, o entregador do ramalhete, fazei com que esse buquê de súplicas caia em mãos certas, e ainda cuidai para que não fiquem, tantos rogos, por aí, mas que entrem pelos ouvidos de Deus: sei que, daí por diante, já é com Ele, tendo vós, ó anjo, de voltar para aquela porta, à soleira da qual não cessam os pedidos, acumulando-se em montes de necessidades humanas, mesmo que algumas travestidas de expectativas ascéticas, e, curiosamente, pedidos, preferencialmente, “sem conta”, sem tempo, vós, apesar de vossa eternidade, para “pegardes” um cineminha, para assistir a um filme cheio de estrelas – o que, para vós, não deve ser nenhuma novidade, conhecendo-as, pela proximidade, todas elas, até chamando-as pelo nome, coisa que nós, humanos, não sabemos fazer, nomeando, quando muito, as estrelas mais famosas, como a Estrela d’Alva e as do Cruzeiro do Sul, com a eterna cruz que carregam, exceto, claro, os homens que, principalmente, no escuro, dedicam-se, abdicando do cineminha, ao estudo do que se passa no céu, jamais, porém, seus olhos tão científicos alcançando-vos, por mais potentes que sejam suas lentes de aproximação, ó sentinela celestial, guardião da entrada do paraíso, ouvinte atento (mais do que no ouvinte, minha esperança reside em vossa atenção) das nossas orações.

As minhas, apesar de abundarem aqui, são muito caladas, assim, em meu peito, o que, não raro, faz com que sejam confundidas com uma distância voluntária, e exigem, talvez por serem tão tácitas, muita atenção para que, como um perdoável fofoqueiro, possais, ó anjo-só-ouvidos, cochichá-las ao pé-do-ouvido de Deus, semeando, desse modo, uma futura flor, ainda que essa súplica se resuma ao desejo de ostentar uma coroa ou de ter, de tiaras que portamos à nossa própria revelia, subtraído, ao menos, um espinho.

E para o caso, fato bastante possível, mais do que provável até, de esta lenda, por não ser repetida, já andar um tanto surda, descerro meus lábios, ainda que continue confiando no valor do (meu) silêncio, e, com o auxílio de uma língua que mais me domina do que eu a ela, tentando riscar, uma a uma, a lista inteira de dúvidas, a ponto de não restar um só sequer, e...quase te desejo (e, agora, já não me refiro ao anjo em segunda pessoa do plural, mas a ti mesmo, meu paciente leitor – que até podes ser um...anjo), a meu bel-prazer, o que julgo que é o teu desejo.

Como, assim, de uma só vez, planto, genericamente, uma só flor no ouvido de Deus, deixo que parta de ti o envio, a Ele, de tuas súplicas, dos teus pedidos, dos teus rogos, em orações curtas ou tão alongadas quanto as minhas, pois, em lugar de uma, por mais sincera flor que seja, aqueles subidos ouvidos tornar-se-ão um jardim. Mas que, em meio a tantas, possas sempre identificar a flor que é particularmente tua.

Amém!