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quinta-feira, março 01, 2012

O SONHO DE UMA VIDA BOÊMIA[i]







ada, para quem aposta em que as coisas hão de ficar ainda piores, melhor do que um dia após o outro, mal conseguindo, quem assim pensa, conter a ansiedade, não apenas para que esse tal dia – pior – logo venha, mas para que, sendo essa passagem uma consequência, que o dia de hoje, esse momento atual em que as coisas não parecem ir nada bem, a ponto de se prognosticar, como se um alívio, a piora, fazendo do ruim do agora uma saudade amanhã, passe, o mais rapidamente que puder.

Um dia, o dólar, ainda quando furado, foi capaz de brilhar, mesmo sujo – sem qualquer especulação moral –, diante dos olhos que nele enxergavam uma possibilidade inteira de uma vida melhor, calculando, sem jamais ter aprendido conversão de moedas, baseado apenas no câmbio de suas legítimas expectativas, o que poderia fazer com um dólar: e se for mais!...

Mais, quanto? Um punhado de dólares? Isso é quase uma fantasia que não cabe nos olhos, embora os bolsos, sempre mais generosos, quando se trata de, bocarra aberta, alimentar-se, esses engolidores de papel (sem abrir mão do vil metal), não caibam em si, diante de visão tão promissora. Por um punhado de dólares já se matou – e, a bem da verdade, já se matou por menos, ainda se matará por mais, tenha a moeda o nome que tiver, valorizada no mercado (do) futuro ou já uma reminiscência de algum passado que perdeu seu fulgor. Por um punhado de dólares, nesses nossos dias voláteis, a depender do tamanho da mão, já não se mata tanto, preferindo-se, se se tem mesmo de morrer, uma morte menos “dispendiosa”, mesmo que, morto, não se tenha mais que pôr nem uma mão no bolso.

Olhando-se, retrospectivamente, os filmes de outrora – e outrora, aqui, já dá evidentes sinais do quanto estamos voltando no tempo, cinema que é a mais eficiente máquina para isso –, deparamos-nos com verdadeiras ousadias em dólares investidos, fazendo, nos dedos das mãos, a conta, sempre imprecisa, de quantos punhados foram necessários para se levantar aquela fantasia: e no cálculo do quanto, sempre em dólares, possa ter rendido, é melhor não nos aventurarmos, por se tratar de algo que não cabe nessas nossas cogitações meramente verbais. Sem olharmos adiante, bastando-nos um olhar sobre o orçamento dos filmes atuais, percebe-se, sem que as mãos tenham aumentado, significativamente, de tamanho e, portanto, os punhados representem uma quantidade proporcionalmente maior de moeda, pelo tanto de dólares, o quanto isso se desvalorizou: e nem falo do padrão monetário, mas da capacidade de se fazer, tocando-se em assunto tão sonante, os olhos brilharem.

Para matar (o tempo), pagando-se o preço que a máquina de o passar (o tempo) cobra, alguns dólares furados, mesmo que, convertidos, ainda tenham a pompa de salvadores da pátria. Para morrer de tédio, algum filme, produzido como ousadia formal, mas que não passa de um senhor conservador, por apostar (os dólares) em que os espectadores, cansados de tanto conservadorismo, estão ávidos por alguma ousadia – preferencialmente, nada que os deixe intrigados, sendo suficiente que se convençam de que acabam de testemunhar um momento raro dessa máquina de passar o tempo, de ganhar dinheiro, ganhando os que o ganham, ganhando os que o passam.

E não há qualquer engodo. Um punhado de dólares sempre valerá, valorizada ou não essa moeda que troca realidades opacas por instantes de brilho fugaz, a lembrança de um tempo... Que tempo? Somente de um tempo. E este nem precisa ter mesmo existido, podendo ser apenas mais uma das nossas fantasias, compradas no escuro, pelas quais pagamos em dólares, mesmo que estes devidamente convertidos, sem mudarem sua fé em Deus.




[1] O nome dollar deriva de Thaler, abreviado de Joachimsthaler, uma moeda de prata cunhada pela primeira vez em 1518 em Joachimsthal, na Boêmia

sábado, janeiro 01, 2011

ASSÉPTICA ARTE DE UM CINEMA PULGUENTO



ue a vida – a nossa, claro, porque ela, em sua generalidade, está acima (custo de vida!) das possibilidades do mais poderoso dos empresários do ramo – dá um filme, isso é sabido, desde que o mundo é mundo: e, sabemos, o mundo, embora criado oficialmente há bem mais, numa espécie de devaneio estético-filosófico de um Deus recém-incriado, apesar da atemporalidade que o reveste com uma roupa desnecessária a Quem, por natureza, é tão “absconditus”, só passou mesmo, este nosso mundinho, com as figuras que lhe são peculiares, a existir a partir do cinema.


E não adianta querer fazer uma acurada genealogia do cinema, como se a buscar em sua ascendência um traço que negue minha afirmação, como, por exemplo, a de que o cinema só existe por causa de outras artes, atribuindo-lhe (e a mim, por extensão, ainda que sempre tenha sido um menino conservador, sem ousadias fora da fantasia, o que, por ironia, pode ter-me feito experimentar o ousado em seu paroxismo) certos artifícios para figurar, hoje, à revelia de quem o alimentou em outros dias, como a verdadeira origem do mundo.


A depender de quem a faz – a vida –, faz-se um cinema diferente. Uns, jovens ao natural ou apenas usando o disfarce, quase alegórico de tão pouco naturalista, que usam os velhos cineastas, a vida se apresenta como um mundo de provocações estéticas, de arrebatamentos formais, de inconformismo artístico, de desconfiança filosófica (a dúvida metódica cartesiana se metendo a artista de cinema). Ou então o mundo que temos é uma daquelas histórias que, escravas de uma cronologia “sem tempo” para divagações, segue seu rumo, sempre passo a passo, sem pulos, sem tropeços, copiando, à exaustão de um realismo cansativo, nossos próprios caminhos, ainda que o nosso conheça lá seus tropeços, sem direito a refazermos a cena e sem a possibilidade de, na montagem, essa (quase) queda, por encanto (da fantasia que é o cinema), simplesmente, desaparecer: e esse tique-taque monótono, apesar de reclamações eventuais, querendo mais ação, nos dá a sensação de conforto, chegando mesmo, eventualmente, a nos fazer cochilar.


Neófitos dizem, quase a oferecê-la de graça, que a própria vida daria um filme, sem cogitarem, pouco afeitos ao mecanismo do cinema para além da ilusão de movimento, do potencial de mercado de sua história, como um fanático que empenha todos os seus bens (talvez, penhorando-os) para financiar o “filme da minha vida”, contentando-se em vê-la, agora, filmada, mesmo que seja seu único espectador, até, numa arrogância a que chamará de senso crítico, desdenhando do público em geral, atribuindo-lhe pouca sensibilidade, nenhuma inteligência para se desapegar de outras histórias (para este, sem interesse maior), permitindo-se, assim, assistir a um filme de verdade, ainda que toda vida contada no cinema, por mais bem documentada, seja sempre uma expressão de mentira.


“Fita” todos nós, de um ou outro jeito, fazemos, mesmo os que acham, ainda tão recém-iniciados neste mundo, que fazer fita é coisa de operário da indústria têxtil, com larguras variadas, podendo ser uma fita curta ou (de) longa metragem. Histórias todos nós contamos: alguns, nos dedos. Já cinema se tornou coisa para profissional: e há um mundo deles.


Viver é para poucos; mas, felizmente, são poucos os que sabem disso, e, ignorando o fato, como se assistissem a um lançamento (quando o filme vem sendo exibido desde que o mundo é mundo), vão vivendo...




quarta-feira, dezembro 01, 2010

SOLIDÃO DOGmática


achorro sem dono – porque cão não é uma palavra tão viralata – é uma dessas expressões que evocam uma imagem com tal força que, popular como é, dificilmente encontra comparação num linguajar mais erudito, e mesmo na mais alegórica das poesias.

Cachorro assim é relativamente fácil de ser identificado, embora essa facilidade toda não se traduza num retângulo de metal, sustentado por uma corrente-coleira, trazendo gravado seu nome, ou, talvez, o do dono – o que só aparentemente revela a importância do cão, dada, como se poderá pensar à primeira vista, a preocupação do dono em ser encontrado, no caso de perdido esse seu cachorro: só aparência, pois muito provavelmente é o dono quem quer ser encontrado, independentemente de qualquer cão.

Sem dono, esse cachorro, valendo-se e alguém que lhe passa por perto, mesmo sem lhe dar atenção, até se desviando dele, como se fosse um incômodo, um obstáculo ao seu livre caminhar, e, condicionado a isso por sua solidão, começa a segui-lo. Esse que passa, em geral, não percebe, de imediato, a perseguição, se pudermos chamar assim a um terno acompanhar, crendo que, ao léu, na ausência de um dono que lhe tome as rédeas (seu burro: é coleira!), o cachorro, só por coincidência, está indo na mesma direção, podendo estar (seguindo) indo em outro, que isso não lhe faz a menor diferença.

Mas, alguns trechos vencidos, cão no calcanhar ainda, sem, no entanto, ameaça de mordidas, sabendo-se não ser seu dono, percebendo que o cão não é “de raça”, o que poderia fazê-lo pensar duas vezes, tenta-se, com palavras, livrar-se dele: e raramente são palavras gentis que lhe pedem, por favor, que siga seu próprio caminho.

Insistente o cão, instintivo o cachorro, quem sabe se já vergado sob o peso de outros desprezos, faz de conta que não entende aquelas exortações que lhe são lançadas no focinho, ou até as entende como se fossem um incentivo, como se aquele que então diz tais palavras, por trás delas, não desejando dar essa impressão assim de cara, quisesse mesmo sua fiel companhia. E esse incomodado, quase já a perder a paciência com o cachorro, olhando em torno, achando-se já o centro de uma anedota, como se o cão, ao seu lado, sublinhasse uma característica cômica que, sem ele por ali, passaria despercebida, chegando ao ponto de, mirando um desconhecido, tomando-o por um daqueles que estão prontos para estourar numa sonora gargalhada, apressa-se em lhe dizer, como se lhe apresentasse um prova cabal: esse cão não é meu.

Notar um de nós “sem dono” já não é tão fácil assim, ainda que haja os que, desacostumados a pertencerem-se a si mesmos ou achando mais confortável (para si mesmos) pertencer a outro, não sai de casa sem uma correntinha com um penduricalho com seu próprio nome (ser chamado pelo nome já lhe dá a sensação de pertencer a alguém) ou então com a identificação do (seu) dono, ainda que este, há muito, tenha deixado de o contabilizar como propriedade sua, não se lembrando sequer mais dele, nem de, um dia, ter-lhe posto aquela medalha do pescoço, tanto que nem fez questão de pedi-la de volta.

Será que os cães, como o faro que têm, também sabem observar qual de nós, em nossas andanças que simulam destino certo para camuflarem caminhos ignorados, é sem dono? O que será que sentem(?), quando, sem dono, sem rumo, mesmo sem nos darmos conta disso, aproximamo-nos deles, insistindo, se eles, sem palavras, mas com suas onomatopeias eloquentes, parecem nos dizer “não”, que eles têm já seu dono; “não”, ainda que, mentindo então, sejam mesmo cachorros sem dono?

Só a beleza de uma poesia incomparável, somada à força do riso amargo, mais uma imagem que fala, simultaneamente, ao erudito e ao popular é capaz de juntar cachorro sem dono a um homem sem dono, arrancando-nos gargalhadas que, nos mais atentos, ferem a garganta, provavelmente, por tocar numa corda tensa que preferiríamos manter completamente muda.




sexta-feira, outubro 01, 2010

MINIE SAIA E MICKEY MOUSE









antasia não é só um filme de Walt Disney que encantou crianças de outro tempo, encantando, naquele mesmo tempo, quem criança já não era, exercendo sobre estes, cada vez mais, menos crianças (ou mais, justamente, pelo afastamento desse tempo), ainda hoje, um fascínio que só é visto nas crianças, e não nas de outrora, não mais num Mickey, um ratinho esperto, mas num “mouse” que até cria, virtualmente, suas fantasias: coisas do (nosso?) tempo!

Seja qual for ela, sem saber ainda o quanto é fantástico, não se restringindo isso a um fim de noite de um domingo que se repete, semana a semana, ter fantasias, ainda que, quando então se as tem, em idade propícia a tê-las, elas são a (própria) realidade, tempo haverá para se encantar com ratinhos, para os temer, para os esquecer e, enfim, para os lembrar, como a marca de outro tempo: e quando esses dias chegarem, talvez o mouse de hoje já seja, perto da nova tecnologia, a própria fantasia.

Esse universo, no entanto, não se restringe ao rato, por mais esperto que ele seja para dominar a história. Há um pato – quá, quá, quá! – e há um pateta: mas, um pato-pateta, e que, ainda por cima, quebrou a caneca, mesmo pertencendo a esse mundo de fantasia, é uma outra história; o instrumento que toca é outro.

Aparentemente, para quem, já sem tantas fantasias, temia pelo futuro, passar do desenho, cheio de vida, mas nada “animado”, das tiras, dos gibis, para uma (quase psicodélica) animação, entre rugas com Stravinsky, hipopótamos que leveza invejável, flores em corpo-de-baile, objetos que abandonam sua função primordial e, algo kitsche, aparecem num show de talentos, seria como subtrair à fantasia algo de precioso: a própria vida, aquela que, na imaginação, se emprestava, de si, aos inanimados personagens.

Qual nada! Quá, quá, quá! Era como se tudo aquilo, uma vez, no papel, dele saísse, como que por encanto (e não foi por outra coisa, senão por isso que se deu tal Fantasia), avançando, numa multidão de desenhos, para a realidade, sem perda de sua fantasia original, tingindo a nossa, às vezes, tão carente de vida própria, com uma sequência de alucinações: mais seguras (nem tanto assim!) e mais baratas (certamente, sim) do que experiências psicodélicas. Enquanto, por mais anacrônicas que, hoje, possam parecer aquelas cores entorpecentes, aqueles sons estupefacientes, aquelas estupidezes geniais, viagens químicas, sintéticas, sem passar por análises criteriosas (talvez se recorra a elas para, justamente, descansar de tanta análise, de tantos critérios), podem ser sem volta, podia-se, volta e meia, retornar ao cinema, à Fantasia: agora, sequer é preciso sair de casa, embora fantasia assim, permitida, sem ao menos um escuro coletivo para se extravasar os segredos individuais (ainda que isso não seja coisa para criança), não tenha lá a mesma graça.

Há ratos e ratinhos: estes são quase uns mimos, presente infantil, cobaia para as primeiras atenções e para as inicias crueldades; já daqueles (esses ratos!), saídos, como parecem todos, ao esgoto, deve-se manter distância, ainda que, para isso, acabe-se aproximando de um outro, um rato em metáfora, alguém que fantasia (com) crianças e, num clique no mouse... E isso não é desenho animado!




domingo, agosto 01, 2010

REDISTRIBUIÇÃO DE RENDA










e a ladroagem corre solta, e tantos, com a razão andando em sentido contrário (à própria razão) correm, ou dizem fazer isso, atrás do prejuízo, sabe-se lá para quê, que lucro se pode tirar daí, caso, nessa corrida, chegue-se a alcançá-lo, prejuízo que nem tem (razão) por que fugir, nós, aqui, parados, fazemos o quê?

Correr atrás dos ladrões, tomando-os, com algum acerto, pelo menos, de um ponto de vista pessoal, apesar de tão transferível, pelo prejuízo (que nos dão), mesmo que, apelando para São Silvestre, o santo padroeiro não dos ladrões, mas de todos aqueles que correm, incluindo os ladrões, quando correm, consigamos lhes pôr as mãos, pode significar uma perda de tempo, o que, em outras palavras – e usar outras para dizer o mesmo é perder ainda mais –, só aumenta o prejuízo, embora, no que diz respeito às palavras, sejamos tão pródigos.


Até porque a ladroagem, que só corre (solta) na (nossa) força de expressão, numa retórica gasta, ou não se dá ao luxo de dar no pé, confiante em que não será perseguida, ou se houver alguém em seu calcanhar, pela falta de prática em corridas, uma hora, há de cansar, ou está tão ao nosso lado, que nem desconfiamos de que, à mão, seja, desse modo, possível alcançar o ladrão com tamanha facilidade, engendrando, com razão, o que não elimina a possibilidade de a covardia se sobrepor ao ímpeto inicial (Hamlet parece, para todo o sempre, ter razão: “a consciência (o pensar demais no que fazer) faz de nós uns covardes), toda uma teoria que sustenta a decisão de não se fazer nada: ou quem está ao nosso lado não é ladrão, não é “o” ladrão atrás do qual deveríamos ir, ou é ele mesmo, mas se está assim, tão ao nosso lado, sem nenhuma solidariedade genuína para com nossos prejuízos diários, agir, em tal caso, pode nos fazer perder ainda mais. Então...

Corra, que a polícia vem aí. E nunca se sabe se ela vem atrás da ladroagem e, cansada de tanto correr, sem lucro, ou já acumulando prejuízos demais, preferindo usar o tempo para atividades mais lucrativas, vendo-nos pela frente, para dar o serviço por findo, pegar-nos-á, como se, enfim, tivesse posto as mãos num ladrão. E vai – corra, que a polícia vem! – que, justamente nesse instante, estamos com as mãos cheias de parcos lucros, fruto de uma vida cansada, ou mesmo com elas cheias de frutos, que isso já chega a ser um lucro, quando o prejuízo dá, com assustadora generosidade, em árvore, com galhos baixos de tão carregados, quase com os prejuízos-frutos se oferecendo, de mão-beijada. Ou então...

É chamar o ladrão, contado com sua razão, e fazermos um acordo, uma distribuição dos lucros, ainda que ele fique com a parte do leão: ao menos – a que ponto chegamos! –, não ficaremos sem nada, de mãos vazias. Nisso, porém, há um risco iminente, que nem é o de ficarmos sem nada, já que, ficando ou correndo, o bicho é insaciável, e que é o que, dispondo-nos a tão submissão, virmos a alimentar a vingança. Como se sabe, este é um prato que só se come quando, depois de sopros e mais sopros, ele se revela frio, e, passado tanto tempo, com a vingança já no ponto ideal para ser degustada, até o prato tenha-nos sido levado, para regalo do ladrão que, não tendo estômago tão sutil (embora haja os mais refinados, que dizem até que só roubam para deleite de seu apetite – sabe-se lá qual), comem qualquer coisa: e se deleitam.







sábado, maio 01, 2010

LAMENTO: BETE DAVIS’ AIS











em gente que, dizem os mais observadores, os que parecem dar mais atenção à fome dos outros do que à própria, salvo ao seu apetite por observar os hábitos alheios, come com os olhos: é o que dizem.


Caindo eu em minha própria armadilha, língua que, descontrolada, facilmente, nos trai, armadilha feita, aqui, com estas linhas, frágeis, em sua virtualidade, só à primeira vista, mas, embora longe de serem fortes como (um bom) escrito, suficientemente capazes de capturarem a presa, eu diria que, mostrando já como observo a vida de terceiros (e observar a vida de terceiros no quarto é, segundo alguns, desculpa de primeira para não se sair do cinema), por mais que isso esteja já na cara, à vista de quem quiser ver, há mesmo uma gente, universalmente espalhada, sem que isso signifique uma equilibrada distribuição demográfica, que fala com os olhos, sendo isso um excesso de expressividade, segundo as primeiras impressões, podendo ser também carência das grandes.

Porém, sem querer fechar os (meus) olhos a quem prefere, à própria língua, usar os olhos, há uma gente com bem mais eloquente expressividade ao falar, muito mais do que eu, com estas linhas que escapam dos meus dedos: são os que falam pelos cotovelos – como, não há como disfarçar, também eu faço, aqui.

Não sei com os olhos dizer o que quero, aparentemente, preferindo um método mais digital e, por ironia das palavras, dos mais antigos métodos de se dizer, ainda que não tenha sido o primeiro: e talvez essa minha preferência seja mais uma desculpa, porque, com as mãos, eu possa me manter a distância, enquanto que a linguagem dos olhos requer a viva presença de quem, assim, o diz, mesmo que faça cara de peixe-morto, com olhos vidrados, sendo isso até um recurso a mais em seu arsenal de expressividade(s).

Por não saber, admiro quem sabe fazer dos próprios olhos seu jeito de dizer: e se não quer dizer, basta fechá-los; e se quem ouve não deseja mais (os) escutar, basta fechá-los: digo, os próprios olhos, os que, então, estão na escuta, e não os olhos que são próprios de quem com eles, ora, fala, porque isso seria fazer do peixe-morto, subtraindo-lhe a vida que lhe dá esse hífen, um peixe, simplesmente, morto.

Há quem possa argumentar que falar com os olhos é um caminho aberto para a dissimulação – como se “dizer” com as mãos, como se falar pelos cotovelos estivesse imune aos enganos propositais! Em geral, coisa para poucos, falar tão bem assim com os olhos é uma arte, desenvolvida, desde os tempos do cinema mudo, quando os olhos pareciam mesmo maiores do que a cara que os continha, mal contendo-se eles em não saírem pela tela, por atores e atrizes (especialmente, por estas).

Já agora, no entanto, com tanto para ver, não podendo nos dar ao luxo sequer de uma piscadinha, que isso pode significar perder uma sequência inteira, olhos que falam são um incômodo, uma marca de quem não sabe dizer (a que veio), sendo mais rentável que se diga logo, de cara, sem deixar dúvidas, por desse jeito todos entendem, sejam os que falam pelos cotovelos, sejam os que, indo ao cinema para olhar a vida alheia, já acostumados a esse figurado buraco de fechadura, acham que fixar seu próprios olhos nos olhos de quem poderia dizer com a boca é pura perda de tempo, porque, afinal, há tantos filmes, tanta vida, lá fora, para...se ver.




quinta-feira, abril 01, 2010

SIM: IN THE RAIN








assar uma chuvinha é uma forma quase cariciosa, como é, em certos momentos, a sensação de uma chuvinha a cair, com uma delicadeza que parece querer dizer que não nos quer despertar, desejando mesmo, ao contrário, servir de trilha sonora, canção de ninar para nosso sono, encharcando os sonhos com doces e cálidas fantasias (ainda que, despertos, tudo seja uma secura só), de se expressar o pouco tempo que se pretende passar em determinado lugar, sugerindo que uma chuva, só porque no diminutivo, só porque não cai na forma de um devastador temporal, há de logo passar, havendo, contudo, e isso nossa experiência nos mostra, pelo menos àqueles que já pararam para observar as chuvas, chuvinhas que são quase infindáveis, mesmo que nunca ultrapassam determinado limite, jamais ameaçando, só de se a olhar, um dilúvio, embora, se continuar, indefinidamente, não importa se é chuvinha, há de (nos) inundar.

Para quem não vê chuva com regularidade, com aquela frequência que (nos) permite, caindo ela, pararmos para assistir ao seu mecanismo de queda e não aproveitar esse tempo, irregular, para dela tirar o maior proveito que se puder, pois, afinal, ela só cai de tempos em tempos, caindo diminutiva, o que exige paciência para se encher os cântaros, enchendo mais rapidamente a paciência de quem não está acostumado a sua irregularidade, para esses faz pouco sentido dizer “passar uma chuvinha”, porque seria gastar, em vão, com meras palavras (que não matam a sede de ninguém), um sentido que lhes é bem mais caro.

Para quem tem chuva, senão com uma frequência de calendário imutável, com a certeza de que, mais dia, menos dia, ela cairá, mesmo que mais-dia se alongue e menos-dia seja quase já uma miragem, pode-se dar ao luxo de se abrigar da chuvinha, não querendo se molhar, certo de que, a qualquer momento em que deseje se encharcar, haverá água disponível, já não em cântaros anacrônicos, mas caindo através de um mecanismo que imita uma chuva – e, luxo dos luxos, uma chuva que se pode regular: se se quer uma chuvinha, ei-la, caindo com ternura de pingos esparsos; se se quer um temporal, isso pode ser, imediatamente, uma ducha...de água fria (se se esperava uma chuvarada em temperatura elevada).

E só para nos darmos conta, se isso ainda for necessário, porque está tão a nossa cara, mas, sabemos, nem sempre vemos o que está demasiado a um palmo dos nossos olhos, especialmente, os que já passaram por algumas chuvas e, com o tempo, tem mais dificuldade para enxergar de perto, precisando mesmo afastar o objeto para dele tirar alguma visão mais nítida, do quanto este mundo é irregular, enquanto uns ainda cantam, apelando para crenças em que não levam fé, mas só para passar o tempo, enquanto aguardam a vontade dos deuses, para a chuva cair, uma chuvinha que seja, outros, no chuveiro, sob um temporal do qual não reclamam, até gozando a sensação de um dilúvio que se pode terminar, a qualquer instante, cantam – e como um deus, após observar sua obra recém-criada, acham que o fazem bem.

Em meus dias – e dizer isso já mostra por quantas chuvaradas eu já passei –, evitando especificações mais pontuais, jamais me tendo aventurado a experiências sonoras, ainda que beneficiado pela acústica de um banheiro ou pelo som do chuveiro a equalizar melhor meus próprios sons, emprestando-lhe uma maviosidade que não me é natural, deixei-me banhar, sem intenção de purificação física, num claro desejo de me elevar, mesmo que só uns poucos milímetros das minhas horas sempre tão chãs, por chuvas várias, procurando mesmo os pontos em que ela parecia cair diluvianamente, sempre protegido por uma arca próxima, à qual poderia recorrer, logo que me cansasse de me molhar, logo que uma voz, quase divina (por sua autoridade suprema), uma voz sem maviosidade, mas que podia também ser terna, ordenasse o fim da minha cantoria sem palavras, desse meu filme mudo, nesse meu domínio quase absoluto da cena, interrompida pelo pragmatismo de um organismo são, sob a ameaça de um monstro-resfriado que, até então musical, não fazia parte desse filme.





segunda-feira, fevereiro 01, 2010

MONSIEUR HULOT NA ATLÂNTIDA






izer, simplesmente, que qualquer bagunça é uma chanchada é voltar no tempo, nessa fantástica máquina, à disposição de quantos a queriam usar, e que mistura memória (máquina, às vezes, falha – se não me falha, agora, a própria memória) e imaginação – e esta, por vezes, quanto mais “quebrada” a máquina (da memória), melhor funciona, até só funcionando, em alguns, assim. Mas, voltar assim no tempo é dar de cara com uma (e foram tantas) chanchada que, bagunça produzida, era produzida, seguindo-se uma ordem, não livre de eventuais bagunças, sem que se pudesse então destas se dizer que era uma chanchada, embora, aparentemente, dizer isso seja o mesmo que desdizer (d)aquilo, porém, como ninguém se lembra mais do que eu acabei de dizer, menos ainda do que já havia dito antes, antes de dizer o que, dito há pouco, não é mais lembrado, pouca diferença faz...

Porque minha máquina, a que deve funcionar bem para bem funcionar, já vai ficando para trás: e ainda que isso seja pertinente a ela, à memória, o que quero dizer é que, um dia, tão azeitada que mal fazia ruídos, a cada lembrança, hoje, faz barulho, a cada esquecimento: que zoeira! Compensando, o que para muitos há de parecer só um prejuízo a mais, a outra peça dessa mesma máquina, a fantasia que lhe empresta aparência (de) fantástica, mais e mais, vem-se mostrando, sem pudor de aparecer, com suas armas: ora exibindo suas garras (que qualquer monstro fantástico, ou mesmo um fantástico objeto de nossos desejos, não deve prescindir de garra(s)), ora surgindo sem garras, sem dedos, sem mãos, sem braços e, para encurtar essa amputação progressiva, sem nada, sendo isso o que a faz, especialmente, tão fantástica.

Baguncei o coreto?! Talvez tenha feito uma chanchada, sem, no entanto, ter a graça desta, sem a musicalidade daquele, por mais bagunçado que pareça esse pequeno coro, antigo centro das atenções em uma pública praça, agora, nostalgia que só quem dela (dele) sente saudade é quem, assobiando, ao acaso, uma canção, relembra de um passado carnaval nas cenas de uma chanchada.

Contar piada eu não sei. Paródias eu já faço, de mim mesmo. Dar cambalhotas, hoje em dia, é-me muito arriscado: e quando não deveria ser, não me arrisquei a dá-las. O que (me) falta é originalidade para dar nome a esse filme, mesmo chamando, em meu auxílio, o teatro, o musical, que alimentou tantas chanchadas em revistas.

A sutileza morreu – e como era sutil, ninguém percebeu, a ponto de ainda dela se falar, sem sutilezas, como se viva estivesse. Sobrevive a bagunça, mesmo que já não seja adequado, para não dar muito na cara o tempo que passou, mesmo que a (minha) fantástica máquina tenha chegado, retroativamente, até aqueles dias, chamar a tudo isso de...chanchada. É bagunça – e ponto final: hoje, tudo tão sem graça!...





domingo, novembro 01, 2009

A FÁBULA DO (REI) LEONE
















ra uma vez...uma fábula. E não vou, aqui, contar nenhuma fábula, porque sei que ninguém mais dá ouvidos para isso. Houve, porém, um tempo – e o tempo, especialmente, o que já foi, é matéria-prima das boas fábulas, mesmo que, um dia, esse tempo, tomado, hoje, como passado, tenha sido tão presente – em fábulas eram favas contadas, podendo, por certas semelhanças, ao menos, a olhos mais ligeiros, mais interessados na “estória” do que, propriamente, em seus aspectos mais formais, ser tomadas por contos de fadas. Não que nesses dias não houvesse o peso, que sempre existiu, da realidade; do seu império, algo arbitrário, sobre o sonho. O que, então, sobrevivia era a admissão da fábula, como um aspecto da própria realidade, por mais que – realidades, cada qual a sua maneira – entrassem em conflito. Passados esses heroicos tempos, quem ainda se dispõe a ouvir um Era uma vez..., já se mostrando entediado ao escutar as três palavras, exasperando-se, sobremodo, com as reticências a segui-las, enxergando nisso uma história sem fim, diante de suas premências, sejam estas urgências reais ou não passem de uma fantasia escamoteada: porque não nos deixemos, assim, tão facilmente, nos ludibriar, por vezes, a fantasia é, no que tem de mais saboroso, mas sem um sabor que possa ser aprisionado e repetido, segundo critérios mais concretos, mais dura de se suportar do que a mais insípida das realidades sem graça.

Fábulas, em geral, não necessitam, como um requisito básico para sua existência (real?), de um lugar bem definido, interessando mais à fantasia que esse detalhe permaneça em branco, oferecendo assim essa lacuna como um espaço a mais para se fantasiar. Isso de precisão geográfica é coisa de quem faz História, que se vê enredado por documentos, e até documentos que provem a veracidade de outros (documentos), criando, desse jeito, uma teia de registros que mira o incontestável, como um alimento, reconhecidamente, saudável, mas que carece de cheiro, de gosto, de uma textura que desperta olhos, língua, tato, potencializando, para além da sua ingestão, o prazer de comer.

A América – esse remédio genérico para similares mais pobres –, como se saída de uma fábula, já foi vista, e ainda há muitos olhos abertos para isso, como um lugar de riquezas fabulosas: uma gruta repleta de sonhos, mas que exige, idealmente, com muito trabalho, que se conquiste a palavra mágica. E mesmo que o tempo tenha cuidado, como um predador que não cuida de preservar alguma coisa para garantir seu futuro, atendo, tão-somente, a suas próprias necessidades do momento, de desfazer algumas fantasias, outros sonhos sobrevieram, realimentando fábulas, agora, sem paciência pela duração, que não se sabe bem de quanto é, de algum Era uma vez...

Riquezas se renovam: um dia, terra; outro, a conquista do céu – até mesmo, com um tino invejável para os negócios, fazendo da necessidade, nem sempre admitida, de fantasias, uma fonte de riqueza que se alimenta justamente de fábulas: e ainda o são, mesmo quando se mostram com uma dura cara de realidade. No entanto, ávido pelo banquete de agora, acreditando que outros virão, naturalmente, ou crendo, simplesmente, que (nos) basta cuidar do dia de hoje, porque ninguém sabe o (dia) de amanhã, deixou-se de regar as fábulas, as fantasias, os sonhos, tornando-os, até em palavras, uma interferência indevida, e que por isso deve ser afastada, para a renovação das riquezas, sem se dar conta de que, assim, faminto pela coxa da galinha, empenham-se mesmo os ovos de ouro que sequer saíram, sem palavra mágica, senão, talvez, uma onomatopéia dolorida, da gruta da ave.

O sul que somos, fabuloso em ouro, um dia, é quase, hoje, só uma dourada alegoria carnavalesca. O norte, por exaustão, dá sinais de cansaço. O leste – essa fonte de tantas fábulas –, num pragmatismo capitaneado pelo tiranismo da Realidade, derruba suas grutas de sonhos para, no lugar, erguer, em nome da riqueza – essa palavrinha mágica –, grutas, com outros nomes. E o oeste – ah! o oeste de tantos sonhos, tanto para quem, historicamente, lá semeou suas fantasias de ouro, quanto para quem, assistindo a tudo, de cadeira, sem correr o risco de ser ferido por uma das (tantas) balas perdidas, nesse faroeste emocionante, entretinha sua realidade com pepitas faltas, mas convincentes –, por mais que se tente renová-lo, parece, como filão, favas contadas, salvo de alguma fada, extraviada de um conto sem pátria, desejando reviver seus dias de glória, mesmo que nunca fossem as protagonistas, servindo de escada para cinderelas descalças, resolve, com sua varinha, interferir nessa realidade.





quinta-feira, outubro 01, 2009

O MECANISMO EM GOMOS DE UMA FRUTA CÍTRICA















violência sempre esteve debaixo dos nossos olhos. E ainda que isso esteja debaixo do nosso nariz – que é outra maneira, mais olfativa, não, necessariamente, mais, agradavelmente, perfumada, para se dizer o mesmo –, a violência, desconfio (e quanta violência não nasceu “justamente” da desconfiança?! longe de mim, porém, atribuir a uma falta de fé toda a responsabilidade do mundo), está mesmo um passo adiante.

Falando assim, não quero tirar o (meu) corpo fora – apesar de haver os defensores, com, às vezes, argumentos indefensáveis, de que há, verdadeiramente, violências contra o espírito, até muito dolorosas, elas são sentidas, sobretudo, na carne, para além da flor-da-pele –, ao, aparentemente, responsabilizar, por tanta violência, algum atavismo que nos acompanha, recebido por herança (paterna ou Paterna? materna ou de uma má mãe pouco terna?) e sobre a qual temos quase nenhum império, aquele que é indispensável para se a subjugar: e a depender do método de subjugação, isso seria, para pôr-lhe fim, gerar mais violência.

O que afirmo, aqui, precavidamente, sem mão demasiado firme, seja porque me falta autoridade na matéria, seja por me faltar aquela força manual que empresta aos gestos sua impressão decidida, é que essa violência brinca, não estando a ludicidade pedagógica isenta de uma violência didática, na soleira, à porta dos nossos olhos, mesmo que os mais poéticos insistam em deles, dos olhos, falar como se fossem a janela (e não a porta) da alma. Estando ali, está, simultaneamente, com um pé para fora, objetivamente, no mundo externo a nós, e com o outro, subjetivamente, já dentro de nós próprios.

Pode, à primeira vista, parecer divertido, tanto quanto o jogo do ovo-e-da-galinha, disputando ambos, ovo e galinha, pela primazia, discutir-se se somos nós, com nossa violência interna, que geramos a violência do mundo, ou se este (como se no mundo tudo se restringisse, matematicamente, a apenas dois lados da questão), com toda sua violência, é que, entrando-nos pelos olhos, contamina-nos, mesmo quando nos “apreciamos” como tão pacíficos.

De um lado, dispõem-se os defensores de uma violência que é da própria condição do homem, contratualistas hobbesianos, tendo-se, assim, o mundo se ordenado com o objetivo de conter essa (nossa) maldade, expressa, sem muita originalidade, em violências banais, independentemente do seu potencial de magoar, não percebendo, ou não achando ser suficientemente importante para lhes tirar desse caminho, o quando a “ordem mundial” (do mundo, para conter um pouco o ímpeto de minha língua mundana), querendo pôr freios, solta as amarras. Do outro, não raro, caminhando ombro a ombro, os que tomam o homem pela paz em pessoa, uma bandeira branca, aqui e ali, já maculada pelo mundo, mas, primordialmente, bom – o que, em outras palavras, talvez num resumo de que tanto digo, aqui, gastando-as, desnecessariamente, queira dizer que, a qualquer momento, as manchas venham a ser extintas, seja lá qual for a cor que tenham, com o sabão em pó certo (e que só eles, estes que se põem desse lado da questão, possuem – para vender ou para, em nome da fé, dá-lo, de “graça”, o que pode significar um preço alto demais).

Com gosto especial por expressões clássicas, dizem uns que o mundo, com toda sua violência, é uma bomba-relógio, mirando-a (preferencialmente, longe do seu alcance explosivo) mais como bomba, cujo objetivo é mesmo causar um estrago, e menos como relógio, que pode, se não for uma “bomba” (de relógio), indefinidamente, passar o tempo, em rotinas diárias, sendo as maiores explosões um destempero doméstico fugaz.

Com gosto por um silêncio ritual, há os que, admitindo sua própria violência, contando consigo próprio, quase que exclusivamente, por mais que tenha companhia, agem para que, a partir de si mesmos, contendo-se, experimentando na própria carne uma contenção (a outros olhares, uma grande autoviolência), o mundo se liberte da violência.

E é bem possível que um deles, vindo de um dos lados (da questão) e outro, vindo de outro, passem lado a lado e, casualmente, toquem-se, num esbarrão: um, destemperado, age, desproporcionalmente ao leve roçar, com violência, talvez por não estar acostumado a essas eventualidades do mundo, fechado em si como vive; o outro, já acostumado a esses toques, até com mais violência do que esse que, na comparação, foi quase imperceptível, não altera seu caminho, e ou ri de uma violência exagerada para motivo vão, ou, já adaptado, na vida diária, às violências, mesmo desejando conter-se, responde de um modo que chama de “à altura”.

Assim caminha a humanidade – mas, a bem da verdade, aqui, o filme é outro.






terça-feira, setembro 01, 2009

YOU MUST REMEMBER THIS






m dos requisitos mais comuns, e assim, possivelmente, por comprovada eficácia, para a preservação da matéria (orgânica) é que se a mantenha em lugar seco, longe, portanto, da umidade. Então, como explicar que sobrevivam, apesar de já ultrapassados pela inexorabilidade da precária condição humana, eternamente umedecidos, os olhos de Ingrid Bergman?

Esse sujeito, hão de dizer os amantes de um escurinho, referindo-se a mim, tomando-me por espectador, sem, no entanto, a devida longa metragem, comprou passagem para o Marrocos, só de ida, e lá ficou, perdido numa mítica Casablanca, anacronicamente, seduzido por intrigas internacionais (e isso é coisa de Hitchcock), porque, afinal, a senhora Bergman foi muitas outras (senhoras): e – em nome de Maria – é por ela que os sinos dobram.

Digam o que disserem, são úmidos seus olhos – e de qualquer ponto de vista, sempre serão. Não importa a secura que transmitam, nesse fingimento de profissão, lá estará, pendendo, perigosamente, num equilíbrio de mestre, que nos deixa com o coração na mão, uma lágrima, despertando em nós o desejo, para nos livrar desse incomodo cai-não-cai, que ela, de uma vez, desabe, mesmo que isso abra caminho para um rio de lágrimas, sendo que nossa capacidade de espectadores para dramas alheios é muito limitada, gozando-a, com prazer, até certo ponto, pois, passados da medida, tudo o que se quer é já uma boa gargalhada. Porém, numa demonstração de que somos mais do que um falso antagonismo entre sorriso e lágrima, desejamos, com igual ardor, que ela, ali, nos olhos, como que uma bêbada na corda bamba, apesar da iminência, segure-se, como puder, e não caia, pois, afinal, caindo, cai por terra a continuidade do espetáculo, mesmo que isso inaugure uma nova cena.

Atribui-se aos suecos, costumeiramente, pouco sabidos como somos a respeito da geografia alheia, menos ainda da alma estrangeira (e a nossa também pode ser assim, para nós próprios, numa dissociação silenciosa e imperceptível, aos nossos olhos), uma frieza de gelar as carnes mais tropicais. Talvez por isso imaginemos que uma lágrima, em olhos nórdicos, cristalize-se, antes mesmo de dar as caras. E então surge Ingrid, como se nos aparecesse em plena estação do degelo, prometendo, com águas renovadas, em que pese sua salinidade, fertilizar os solos, os sonhos – e todo sonho, ainda que se sonhe com ou em multidão, é um espetáculo solo em que experimentamos, amadores, ser protagonistas; antagonistas, extras, e, o que é mais surpreendente, tudo isso, ao mesmo tempo: eis a beleza do cinema copiada por nossos devaneios!

Pode ser que tudo isso seja só impressão. Que tais olhos, sempre molhados, só existam em meus próprios olhos, e que os mesmos, os dela, a outros, sejam só olhos; até mesmo, olhos secos demais, principalmente, para uma sueca. Mas, se o cinema é uma maneira, paga e dissimulada, de fecharmos os olhos para o que se passa a nosso lado, fecho os meus às impressões alheias, e permaneço intrigado, sem interferências internacionais, numa casa qualquer caiada de branco, com a sobrevivência de olhos assim, imersos em tão longeva umidade.




sábado, agosto 01, 2009

ARROZ (branco) E FEIJÃO (preto): ADIVINHEM QUEM VEM PARA JANTAR!





alar em aristocracia soa tão anacrônico e, para os que gostam de se perfumar com o tão pirateado (e, por isso, já enjoativo) aroma de uma democracia que, um dia, já foi um cheiro mais original, igualmente imperdoável quanto abrir a boca e dela deixar escapar um “castelo”, chegando-se mesmo a se confundir os aristocratas – apenas na ponta da “língua” os melhores – com uma nobreza perdida no tempo ou com endinheirados contemporâneos saudosos de um tempo pré-Liberté, Égalité, Fraternité, ainda que, necessariamente, o pós-isso não tenha alterado, irremediavelmente, toda aquela pré...história.

A democracia, talvez por uma irresponsável “democratização” do nome, permitindo, como justificativa plausível, que se encobrissem suas versões em cópias mal-feitas com o argumento filosófico, vazado em certa teologia (ou o contrário), de que os homens nascem iguais e livres – livres, inclusive, alardeiam os democratas sem noção do que são, para desejarem ser iguais aos...melhores, evitando, porém, por mais que a língua coce para assim dizer, pronunciar a mal-afamada “aristocracia”, a democracia, enfim, se espalhou pelo mundo.

Já a arte foi-se tornando um domínio distante do que é popular, mesmo aquela que, em sua origem, foi concebida como tal, quando tomada por olhos que sempre enxergam algo “por trás”, desconsiderando uma obra, se ela parece dizer tudo, ou pelo menos o que há de mais relevante, logo de cara, tomando-se o poder de comunicação mais imediata de uma obra como defeito congênito.

E uma das formas, segundo princípio tão democratizado, ainda que bem pouco popular, de se reconhecer uma verdadeira obra de arte (as imitações vão-se tornando um empecilho cada vez maior para os olhos apurados), além de sua universalidade, é seu caráter atemporal. Concebida pelo homem, a partir de si mesmo (dos seus discursos externamente democráticos e de suas íntimas aspirações aristocráticas, porque a contradição parece ser um traço comum nessa série de criatura fabricadas na linha de produção de uma divindade (mais popular) ou de uma evolução (mais elitistas, já que sobrevivem os que, mais fortes, são, de alguma forma, os melhores), por universal entende-se uma obra que alcance, apesar de todas as idiossincrasias do artista, todos os seres, ou assim potencialmente. Por atemporal, quer-se entender a arte como capaz de “falar”, com seu jeito próprio de dizer, a qualquer momento, mesmo que entre um momento e outro se tenha passado tempo suficiente para que democracias se virassem em aristocracia envergonhadas; para que revoluções tenham dado um passo atrás; para que aristocratas tenham confundido o povo com a roupa que usam num baile à fantasia, esquecendo-se de tirar a máscara após a festa.

“Aberto” sempre é mais democrático. “Fechado” é mais aristocrático. E quantos populares não anseiam migrar da aberta para a fechada, já tendo feito isso se a assinatura do serviço não fosse tão cara, sonhando com uma taxa mais “democrática”, ainda que tudo isso seja só de fachada, uma em que a TV assume o papel de cartão de visitas!

Surpreendentemente, na madrugada (será elitismo?) da aberta, uma obra, uma are que fala a qualquer um que queira escutar e que despreza o tempo, tomado este como uma pesada cadeia que nos ata a um momento, mal permitindo que nos arrastemos pelo presente: “Adivinhe quem vem para jantar”!

Alguns podem considerar uma contradição – o que prova que sou, apesar dos meus devaneios eventuais de “ser melhor”, que saí da mesma linha de produção que qualquer popular –, que se se lembre, de um filme, sucessão movimentada de imagens, mesmo que não se trate de um filme de ação, justamente...palavras. Dr. John (Sidney Poitier) falando ao pai, num momento de especial tensão entre ambos: “o senhor pensa em si como um negro, eu penso em mim como um homem”.

Demagogia (que é uma forma degenerada de ser democrata) ou lucidez (que pode ser o paroxismo da loucura)?

Hoje, discutem-se as cotas (para os mais elitistas, sempre citando um latim de almanaque: quotas), sentimo-nos inclinados a reconhecer que a diferenciação é a maneira mais justa de uma exigida reparação. Mas, como não ver aí, entremeada, a noção de que não somos homens simplesmente, e sim que continuamos, em que pesem todas as revoluções, a nos enxergar a partir da (sapiência?) de uma caixa de lápis de cor?

A solução? Daqui, ficam as questões, porque não vou tirar qualquer conclusão.




quarta-feira, julho 01, 2009

AO MESTRE COM CArrINHO



Ao mestre ANDRÉ, carinho


ão! Não falo de modo arrevesado, forçando um sotaque ao dobrar um erre (o que seria um erro) onde só há um rê.

Divididos por natureza, fizemo-nos, apesar da mesma espécie, em dois gêneros: aquele que brinca com carrinhos, espécie de carinho genérico que se lhe dá, apostando num conservadorismo que julga que, salvo alguns “desvios”, se o gênero em questão é “este”, então, carrinhos, e não há então como errar; e aquele “outro” gênero, afastados dos carrinhos, a não ser os de bebê, já que o carinho que se supõe mais apropriado são os bebês em miniatura, bonecas de plástico que retificam a divisão, ao tempo em que a prolongam no tempo, favorecendo uma imutabilidade de papéis, a não ser quando as condições mais objetivas de vida impõem uma mistura, até mesmo uma troca de papéis, com “aquele”, talvez perdido seu próprio carrinho num desses desvios da vida, agora tendo de cuidar do bebê.

De bonecas, não falo: deixo isso para Baby Jane (o que teria acontecido com ela talvez nem Robert Aldrich saiba) a tarefa de se fazer representar em plástico, como se miniaturas de si mesma, fabricadas em série, garantissem-lhe uma eternidade – mas sabemos do que o tempo é capaz. E para aqueles que duvidam disso, é só dar uma olhada no que ele fez com Bette Davis, imortal apesar de tudo.

Quanto aos carrinhos, também não falo deles: deixo isso, de bom-grado, nas mãos rebeldes de James Dean, sem lamentar seu fim, porque é assim, queiramos ou não, que caminha a humanidade, por vezes ultrapassando nossos desejos pela direita, sem nos dar a chance de, percebendo a tempo essa manobra arriscada, desviando-nos, ao menos adiarmos o choque que é, repletos de cinema, dar de cara, quem sabe se pela derradeira vez, num The End imprevisível, com a realidade – e a ironia é que isso pode render (e como!) mais um filme.

Falo, no entanto, de carinho, sem que tenha, aqui, havido um erro, uma omissão, a falta de uma letrinha.

Mestres em carinho pode haver muitos, ainda que pese sobre eles a série suspeita quanto à pedagogia que os tornou assim, e justamente numa matéria em que se deve ser eternamente aprendiz, como todo bom mestre que se preza, e que, sem abrir mão, em favor de uma modéstia feita num Paraguai caricato, não se rende ao que já sabe, inclusive em matéria de carinhos, e está sempre querendo aprender, mesmo quando, a olhos vistos, é considerado um mestre no assunto.

Lembranças são uma espécie (não sei de que gênero) de bonecas, com a curiosidade de que são brinquedos não de crianças, mas dos já crescidos, não importando se a lembrança em questão já carece de um braço, se a pintura dos seus olhinhos já está descascada, se os fios de seu cabelo (loiro) sintético já ameçam uma calvície. Lembranças são também carrinhos que vivem a rodar em nossa cabeça, ora chocando-se com outras lembranças, ora desviando-se das lembranças de choques, ainda que das suas quatro rodinhas originais só sobrem agora poucas, mesmo uma apenas; mesmo que o volante seja agora somente uma reminiscência do tempo em que, ingenuamente, acreditávamos ter nossa própria vida nas mãos, naqueles dias de juventude – transviada, como, aliás, deveria ser toda juventude.

Lembranças são, enfim, carinhos: e se não são para quem é lembrando, certamente, é para quem, quando um branco inesperado (ainda que previsível, com o tempo) se estabelece na nossa memória, encontra, como elo com a recordação perdida, um filme qualquer, como aquele com Sidney Poitier: como é mesmo que ele se chama?!...




A PEQUENEZ DOS FILMES DE HOJE





“I am big. It's the pictures that got small.”
Gloria Swanson quote


Especialmente para JOÃO CARLOS SAMPAIO

ão é uma norma, mas, em geral, as escadas são a imagem (e toda escada, arquitetonicamente, tem seus “espelhos”) da ascensão, dessa tão sonhada subida na vida, embora isso dependa do ponto de vista de quem observa a cena, interferindo, aí, sobremaneira, sua subjetividade, já que os degraus (espelho é a altura entre um e outro degrau) que conduzem ao alto, a esse fantástico mundo em que, chegando-se lá, não se tem motivo para preocupações – a não ser, talvez, a de não rolar, escada abaixo –, são os mesmos, sem tirar nem pôr, que conduzem, ou trazem de volta ao chão, a esse patamar – e o termo, aqui, não é preciso, já que patamar é um “descanso” entre um e outro lance da escada, quando os degraus (a subir ou a descer) são muitos – de onde se partiu, acreditando-se já que nunca mais se o veria de novo.

É, sim, uma Norma – e a maiúscula se justifica. É Norma Desmond. É uma velha mansão, dos tempos em que se subiu na vida; hoje, porém, imagem clássica do abandono, da descida, e tão rápida esta que se poderia dizer que se deu não degrau a degrau, mas, ainda pela escada, deslizando-se, sem empecilho no meio do caminho, pelo corrimão. A glória de um dia só resta, confundindo-se realidade e ficção, no nome: Glória...Swanson.

Esperteza a nossa em querer nos abrigar num monoteísmo em que o deus, o único, portanto, tendo sempre existido, jamais morre. Com mais deuses, apesar de um mundo mais animado, com intrigas que, olimpicamente, divertem nossa humanidade de leitores de folhetins, há o risco de um crepúsculo – também este uma imagem que não deve ser vista, por mais belos que sejam os pores-do-sol, como tal, mas como um rolar escada abaixo, ficando no chão só no caso de não haver nada de mais rasteiro.

Ensandecida, Norma, encastelada em si (o mais invulnerável dos castelos, ainda que igualmente o mais precário de todos), cede aos sedutores apelos de uma escada, não resistindo em surgir no alto, no mais elevado dos degraus, quando observada de baixo, pronta para descer, num ato, curiosamente, que representa (representar é toda sua arte, é toda sua vida) um retorno, uma espécie de subida, porque só os tolos ardem de desejo de subir as escadas, como se estivessem indo rumo ao paraíso, pois os mais sagazes, depois de terem chegado lá, ardem de desejo de aparecer, repentinamente, desde que com plateia garantida, no auge desse pódio, para, a seguir, com lentidão estudada, descer, marcando, assim, o ápice de sua ascensão.

E eu aqui, assistindo a tudo isso, no conforto de uma poltrona, como se aquilo não passasse de uma entre tantas ficções que animam de diversões nossos dias, na falta de uma co(o)rte de deuses vingativos, lutando entre si, mal percebendo o que vai a minha volta, na minha mansão de metáfora, no meu castelo de eus, com minhas escadas sem corrimão, mas nem por isso sem possibilidade de uma queda subida, essa silenciosa ascensão, mais rápida do que o rolar, degrau a degrau. Também eu me deixo seduzir, mas não por (a)parecer um deus, no alto, descendo, como se, magnânimo, concedesse, aos mortais ao rés do chão, uma chance de me terem por perto.

Quando surjo, e desço, alimento a fantasia de que, tendo estado tão no alto, lá embaixo, ao menos, vou conhecer os mais reles prazeres, lambuzando-me, sem medo de cair na sarjeta (que já está ali mesmo, no chão), sem temor de assim experimentar um crepúsculo, senão ao meio-dia de minha vida, ainda que às quatro e meia da tarde. Mas, vencidos, ao contrário, os degraus, encontrando-me no mais baixo dos patamares, descubro que se não bastou subir para ter acesso, imediatamente, aos subidos gozos, não é suficiente rolar pela escada para fruir do que a humanidade tem de melhor (ou de pior, a depender do ponto de vista).

Alguns homens fazem sua glória ao quebrar uma norma, mesmo que esta já se ache fissurada, bastando pouco mais do que um sopro para que se estilhace por completo – como se descessem escada abaixo, sob o ponto de vista dos legalistas; outros fazem a sua ao se apegarem, com uma literalidade empobrecida, às normas, não se permitindo engolir, mesmo que por descuido, uma letra (da norma) sequer – como se ascendessem, a cada obediência, um degrau. Eu permaneço no meio do caminho: tendo subido um lance, havendo outro ainda, descanso, já há quase uma eternidade, num patamar, sem saber, ao certo, qual o gênero da minha glória, se é que ela virá.




segunda-feira, junho 01, 2009

GRANDE OTELO E OS PEQUENOS IAGOS







eu nome não é feio: frailty é seu nome. E, como se sabe, sabe todo aquele que conhece (bem) o sempre insondável príncipe Hamlet, “thy name is woman”.

Não digamos, logo, de cara, que isso não é mesmo coisa para se dizer assim, na cara, o que isso significa, mesmo que, com domínio longe da minha debilidade, já se saiba que o que se quis dizer é que essa fragilidade, atávica, tem nome: mulher; que, invertendo a ordem original, seu nome é – coisa feia! – essa fraqueza, predicado indissociável, pelo jeito com que te olham, mulher, os homens: como Shakespeare, Hamlet – e sabemos o quanto eles não estão sozinhos.

Ah! – provavelmente dirá um homem; porque a mulher, se deu importância a algo que se disse aqui, não será condescendente – isso é coisa de antes, de um antigamente que, de tão lá atrás, mesmo que ponhamos a mão, como para proteger nossos olhos de um sol que não há, já não se alcança mais. Hoje, dirão os homens, assumindo um papel de condescendente, sem jamais admitirem que, numa troca, estão ficando, cada vez mais, mulher(es), que não se poderia dizer isso, já que as mulheres – essa (nossa) neocondescendência masculina! – são a própria força: e, a partir daí, enumera-se, numa lista que parece não querer mais acabar, tudo aquilo que parece provar quão fortes são as mulheres, começando, o que prova a falta de originalidade dos machos, com o parto, com suas dores monumentais, tudo em nome da perpetuação dessa nossa humanidade, ainda que as mulheres, por vontade, não sentiriam esse doer, pondo um fim, o que já não é sem tempo, à maldição divina, porque, em que pese alguns encontrarem aí uma contradição ontológica (como Deus pode maldizer?), talvez porque “feito” à imagem e semelhança dos homens, sabemos de onde partiu essa história de (o homem) ganhar o pão de cada dia com seu próprio suor, enquanto a mulher...

Tenho de concordar: é de antigamente! E isso se percebe, de imediato, pelo “thy” elisabetano – da primeira Bete, não da de agora, se é que se pode chamá-la assim, tão século passado como é, ainda que não chegue a recuar tanto, chegando ao dezesseis, dezessete. Thy é seu: e, de resto, nada mudou – mulher, woman, se quiser, frailty é seu some.

Quanto as incontáveis fortalezas construídas pelos homens – se houver, em construções assim, alguma mulher metida nessa história, ou é um “caso” perdido, ou é tão exceção que merece um capítulo à parte, o que, a meu ver, não lhe acrescenta força, mostra apenas uma debilidade construída, e tão bem, que as próprias mulheres, vendo essa obra já de pé, compram-na –, isso, apesar da evidente constatação da força que foi necessária para se “arquiteturar” uma humanidade assim, não exclui dos homens suas próprias fraquezas. Estas, porém, vivem, comumente, tão escondidas, que é de se pensar que, desabada a obra sólida que se crê que todo homem é, ele ainda se mantém de pé, mal se sustentando, valendo-se só da crença e fantasia alheias (especialmente, das mulheres) de que são fortes todos os homens, sua fragilidade ficou soterrada.

Só que o que está por baixo não teve, necessariamente, decretada sua morte oficial: de pé, ainda o homem; debaixo do que dele ruiu, sua fragilidade (ainda) não morreu; ao contrário mesmo: é justamente por está aí, sob os escombros de uma perfeita obra, como se crê que seja o homem, que essa sua debilidade insuspeita vive, e prospera, a ponto de alguns homens – corajosos, admitamos – fazerem justamente dessa (sua) fraqueza a maior obra de sua vida, chegando mesmo a, com os lucros, construírem uma verdadeira fortaleza, se é que a podemos, sabendo como ela nasceu, chamá-la de verdadeira.

Eu, aqui, como Iago – com suas fraquezas bem-disfarçadas –, digo? From this time forth, I never will speak a Word. E para quem, sabedor de outras línguas, em sua modernidade, alerta-me para o never que nunca, em construção do “falar”, deve se antepor ao (seu) auxiliar, respondo, não tão antigo como ela, com uma “realidade” sob suspeita, ao contrário dela, estou sendo apenas elizabetano – de primeira.



sábado, maio 09, 2009

A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS



ito por mim, parece que alguém me soprou, ainda que, com isso, não se subentenda que, antes do sopro, sendo então este uma consequência, fui devidamente mordido. O fato é que há palavras que o vento se encarrega de levar, sem que se o tenha encarregado disso, como se pondo tal fardo (de palavras – o que, por si só, não pesa menos) em suas costas, partindo dele próprio, portanto, a decisão de levar isso adiante.

Se o vento leva até filmes inesquecíveis, até épicos (e destes já quase não se tem lembrança), até histórias de amor (tanto as que se julgavam inesquecíveis quanto as que nem lembrança deixaram), por que não haveria, as palavras, de as levar? Leva-as. E se o filme – e todos eles, como se não pudessem disso escapar, por mais que tentem uma originalidade, acabam por uma história de amor contar – for, justamente, “Palavras ao vento”, nem é preciso tanto o (próprio) vento se esforçar, bastando, assim, um mero sopro para se levar.

O tempo, com sua linha que atravessa histórias – épicas ou de amor –, quando se junta com o vento... O tempo (é veríssimo), e o vento (sem que haja comprovação acerca da veracidade de sua participação) levaram consigo os aventais: hoje, ninguém mais cozinha – faz experimentações; ninguém mais experimenta, na palma da mão, na ponta da língua – degusta com o espírito; ninguém mais encosta o umbigo no fogão – é-se, com o título de professor, mestre em assim se autoproclamar, chèf.

Não se pode dizer, a bem da verdade, que o tempo (e, eventualmente, o vento) tenha levado embora os ovos, talvez porque se saiba que, etimologicamente, eles são a origem de tudo. Mas levou as mães, lavando as mãos – e não há como negar, por mais mudanças de ar, que o tempo não tenha aí sua responsabilidade, levado como ele só.

As mães, aquelas de avental, com ele sujo, dizendo, com alguma poesia musicada, que a sujeira era de ovo (como se assim limpasse a própria barra), mesmo que seja só, aquela sujeira, o acúmulo do tempo, estas foram levadas. E para se as rever, só mesmo se recorrendo a algum filme, um que o tempo quase tenha levado, desde que não seja aquele do Vento, que nesse não há mães assim, havendo, em seu lugar, as negras, que podem ser mães, para os assados, para encostar o umbigo no calor do fogão, sequer reclamando seu direito a uma poesia que as alce de escravas de alguma mãe a mãe...de alguma escrava – mas, enfim, mãe.

Não sei contar quantas histórias o vento, ou o tempo, ou quem mais se encarregue disso, levou como palavras que tenham sido riscadas. MÃE resiste: e é nisso que se fiam os que sentem saudades de aventais, de ovos, de chinelos na mão. Resistindo, resistentes, as mães, estão garantidas outras tantas histórias, com seus amores(-)próprios, substituindo as que foram levadas.

Mãe – não sei, mas é provável que isso me tenha sido soprado – é como ovo: origem de tudo. E mesmo não sendo nenhuma novidade, pode estar aí a continuidade dos filmes ou, ao menos, a continuação de uma antiga história de amor.


sexta-feira, maio 01, 2009

UM RASGO DE LUCIDEZ NESSA MINHA LOUCURA AOS FARRAPOS



roto riu do esfarrapado só porque este, esfarrapado como é, é justamente aquele que vive, aos farrapos, repetitivo, sem alterar sua moda, não atentando aos ciclos que se alternam, prendendo-se a um único círculo, girando sempre em torno dele, repetindo, quando vê dois quaisquer, quaisquer que sejam esses dois, em situação semelhante, sem que um possa, aparentemente, falar do outro, estando um roto e o outro, a seu ver, esfarrapado, digladiando-se para ver quem estar melhor(?) – se é que cabe uma palavra tão boa, aqui.


Com base em tal raciocínio – ainda que, a essa altura, muitos, sempre atuais na moda do pensar (embora não passem de uns repetitivos), estejam a duvidar de que haja, realmente, aqui, um raio de razão –, nessa lucidez que sustenta os argumentos do roto para rir do esfarrapado, também este, por mais que seus farrapos não nos inspirem (a depender do estado dos farrapos, não é nada agradável se os “inspirar”) lá muita confiança, poderá lançar sobre o rosto do roto, originalmente ou só dando o troco, uma sonora gargalhada, mesmo que se possa considerar que há, sim, diferença entre esse roto – coisa até do acaso, nem sempre se percebendo um rasgo na nossa vida cotidiana – e o tal esfarrapado, pois este, se honra o nome que tem, é uma coleção de rasgos, sem que se possa atribuir tantos rasgões a um mero acaso, não se crendo que não tenha se dado conta dessa sucessão de fendas que se abriram em seu traje.


A questão, talvez, seja demasiado sutil. Um roto pode se sentir, mesmo que só carregue consigo um rasgo, completamente esfarrapado, se considerar que isso é um furo em sua moda integral, enquanto que o esfarrapado pode sustentar que é assim por pura filosofia – moda antiquada! – ou porque, ao contrário do que se pensa dele, vive sempre atualizado, conhecendo todos os ciclos da moda, sendo que o da vez não é outro, senão os farrapos em pessoa: e, nesse caso, quem há-de lhe negar elegância?


Costuma-se, com argumentos de justiça, sustentar que uma disputa equilibrada só se dá quando os contendores possuem força semelhante, armas iguais, e nenhum deles conte com uma prévia graça divina que, há muito, independentemente de sua força (ou de sua fraqueza), de suas armas (ou do seu covarde pacifismo), já está destinado a vencer. Assim, nada mais justo do que um roto a falar de um esfarrapado, ainda que os mais puristas, os que levam a (tal) justiça ao extremo – passo seguro para a crueldade –, prefiram que a batalha se dê entre dois rotos, com os mesmos rasgos, ou entre dois esfarrapados, contando estes com farrapos em igual número, se houver alguém disposto a contá-los.


Se alguém, agora, estiver a falar de mim, tomando-me como roto, que olhe para si, e veja se não é roto como eu, ou até, diferentemente de mim, que só sou roto, um esfarrapado – e, ainda por cima, fora de moda. Caso me tome por esfarrapado, ainda que dentro da moda, que se olhe no espelho para constatar se não é, como eu, esfarrapado também, mesmo que com um ou dois farrapos a menos, ou que, se concluir, em relação ao esfarrapado que eu sou, que é um roto, um que traz somente um solitário rasgão, se este não tiver sido percebido, e se estiver num ponto em que deixe mais à mostra, único, do que todos os meus atribuídos farrapos, é esfarrapado sim, apesar de toda a discrição de sua moda de um só rasgão.