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terça-feira, dezembro 01, 2009

CHICO, THE KID















uando eu era garoto – e minha infância não daria um filme, já que suas brincadeiras, então minhas, eram das mais banais, e até meus dramas, de uma vulgaridade sem qualquer toque original –, mendigos tinham lá, nessa utopia chamada de passado, sua posição social, se se puder falar assim de um subdegrau, espécie de vão, um socavão, improvisado em um, aparentemente, inútil espaço da escada. De fato, eram conhecidos, um por um, e mesmo eram reconhecidos, como se um ou outro, mesmo que desejasse isso para si, não tivesse o legítimo direito e usurpar o lugar já conquistado pelos mendigos estabelecidos. E vagabundos também, embora, fora do seu próprio ambiente familiar, poucos – e mesmo assim, a distância deles – se atrevessem a fazer soar, próxima a seus ouvidos, essa vagabundagem de que todos sabiam: e como um mendigo, sempre em busca do que comer, e os vagabundos, diga-se, não o são, necessariamente, também gozava, nesse espaço muito bem demarcado, de um lugar ao sol, ainda que, como convém a sua natureza vagabunda, preferencialmente, à sombra de uma árvore generosa e, ainda melhor, perto de um rio, tão próximo, que baste apenas esticar, sem tanto esforço, o braço, para alcançar a água fresca.

Vagabundos já foram heróis, e não porque fizessem de uma incompatibilidade pessoal, ou estrutural, da própria sociedade, para com o trabalho – esse argumento, em nome da dignidade individual, para o enriquecimento de poucos – sua bandeira, anárquica, sedutora, mas tão-somente por encarnarem uma personagem lírica, livre das convenções, a ponto de poder adentrar elegantes salões com os mesmos trajes, em frangalhos, com que buscava, dia a dia, seu sustento em migalhas esparsas. Não que víssemos poesia em ser pobre, em depender da generosidade, nem sempre sincera, dos outros, às vezes, apenas uma maneira de se livrar do incômodo de mão estendida, mas, em algum lugar, nessa utopia que somos todos nós, mesmo que tenhamos endereço fixo (o que não impede a vagabundagem doméstica), alimentávamos a fantasia de só precisarmos de um único traje, simples e elegante, mutável, a depender da ocasião; de só precisarmos de alimento na hora em que a fisiologia desse seu nada discreto alarme; de não nutrirmos paixão pelo passado, nem adorar, como a um ídolo divino, um futuro sempre incerto; enfim, a fantasia de, como um pássaro qualquer, vivermos, em totalidade, a vida, seja isso muitos dias, seja coisa de dia para a noite.

Hoje, vagabundos primam por um guarda-roupa eclético, recusam o nome que lhes é tão próprio, chamando a isso de incorreção política, preferindo ser tratado por um eufemismo, e até mesmo por, simplesmente, “eufemismo”, que pouca diferença faz, já que não são tantos, mesmo entre os não-vagabundos, que sabem o que isso é, havendo os que acham pura vagabundagem isso de buscar nomes diferentes para uma coisa já tão conhecida. Heróis, propriamente, não são, mas perseguem a idolatria para, depois, fugirem, na dela, mas da perseguição dos que passaram a idolatrá-lo, numa insincera corrida, só para potencializar a perseguição, desejando, ardentemente, que, no meio do caminho, a multidão aumente, pouco importando que esse exército, assim formado, seja composto de vagabundos em geral.

Cartolas caíram de moda (e no seu rastro, quase também rosas que não falam, mundos que são moinhos), bengalas se tornaram anacrônicas, salvo quando o corpo, cansado de vagabundear, ou por não o ter feito no tempo certo, agora, requer essa ajuda sobressalente. Aparecer sempre com o mesmo fato, é como não ter outras histórias para contar, como, por exemplo, alimentar suas história com a quantidade de fatos que abriga em seu guarda-roupa. Andares podem ser aprendidos, dissimulando-se um jogo de pernas engraçado, espaçado, recurvo, por um caminhar reto, coluna ereta, olhos sempre para adiante, e um aspecto de que nada ao seu redor lhe diz respeito.

Mesmo assim, pode haver alguma poesia, algo concreta (por mais anacrônica que essa poesia possa ter ficado) nessa nova maneira de ser vagabundo. Mas, aos meus olhos, sempre mais encantados com a mudez do que com o cinema tagarelado, vida feliz é sair por aí, garoto, quebrando vidraças (coisa que nunca fiz), não tanto por um prazer sonoro nesse estilhaçamento, e mais para alimentar um negócio que vem no rastro: um vagabundo que, em dia de trabalho, oferece, prestimoso e pontual, seu serviço de vidraceiro.

E quem dera um Carlitos para t(r)ocar meu telhado de vidro!



domingo, agosto 10, 2008

MEU CORPO QUE É DADO POR VÓS






ode ter sido qualquer outra ave, que ainda há muitas pelo ar, qualquer uma, mas prefiro pensar que tenha sido mesmo uma garça para, sobrecarregada essa minha imaginação dada a viagens aéreas, a vôos numa imersão crepuscular, emergindo só com a aurora, sem que eu consiga o que fiz nesse intervalo explicar, planando assim num céu de fantasia (há mais de um, ou isso não passa de “mais uma” fantasia?), a ela – garça, não esqueçamos – arrancar a pena, até agora não mencionada, embora, iterativo em meus arroubos pelos ares, não seja lá muito difícil de se (ora!) “imaginar”, provando que não só eu que dou asas à imaginação, e descobrindo, nesse vôo, que, mesmo sem nos depararmos em cruzamentos, fazemos roteiros semelhantes.

Pensei, sim, num pelicano, pela lenda que o envolve, atribuindo-lhe uma paternidade capaz de levá-lo a uma automutilação para alimentar os filhotes, quando só se fala dos sacrifícios maternos, numa nutrição que, apesar de uma sucção eventualmente mais dolorosa, não é comum que tire pedaços. Preferi, contudo, deixá-lo de lado, até porque já me lancei mesmo sobre eles tantas vezes, com tamanha voracidade, para lhes subtrair penas, aumentando-as talvez, que até poderiam me confundir com um filhote-da-puta, cruel, egoísta, incapaz de buscar o peito paterno para anestesiá-lo, sei lá com que tipo de ungüento tópico, minorando seu sofrimento, se não pela retirada de algumas de suas “penas” (porque, por humana contradição, essa “arrancada” dói), que todos, pais ou não, as temos, uns mais “à mão” do que outros.

As garças, que, aparentemente, em nada se parecem com (os) pais, embora haja, no feminino desse substantivo, sobrecomum no gênero, pais que o são, umas garças, sem desdouro nem para a virilidade deles, nem para o design graciosos “delas”, são aves peraltas, mais ariscas, pareciam-me, então, uma alternativa mais segura, até onde uma aventura dessas pode ser, na tentativa de adquirir minha própria pena: e que não se pense, dando muita asa, demasiada mesmo, à própria imaginação, que faço esse trajeto terra-ar-terra, com todos o riscos inerente a vôos espaciais, apenas para ir ao encontro de um auto-sacrifício, mutilando meu peito só para ter, tão figuradamente, as sensações características de uma paternidade que sequer sobrevoa minha cabeça, sem nenhuma garantia de vir a ser, com o tempo, uma honorável citação, um verdadeiro exemplo de pai.

Mas, não temais, ó corações apiedados deste meu fardo (de penas, e talvez ainda mais pesado quando de penas carentes: só a mão sabe o que é isso!), deste meu fado de escrever (demais – daí a necessidade de tantas penas), quase já a ponto de me tomardes, apiedados corações (oh!), por pelicano rodeado de famintos, tendo de alimentar, com meus dedos, toda essa família de pelicânidas. Não temais! Sei carregar meu fardo, meu fado (e uma letra a menos no fado não altera o peso da carga). O que talvez eu não saiba fazer é (me) dizer sem penas, preferindo, em visual comprometedor, aparecer todo emplumado, mesmo que o preço de tantas plumas acabe por me depenar, tão distante já o tempo em que, mais pelas asas (dada à imaginação) do que, propriamente pelas penas, achava-me um anjo, cheio de uma graça que faria inveja a mais garbosa das garças, longilínea em suas pernas altas, erroneamente confundida, às vezes, com uns gambitos quaisquer.

Hoje, pesa-me a pena de ter de recorrer a uma garça, essa espécie de ave-trocadilho. Pesa-me ainda mais, como se pelicano no auge do banquete que oferece, em si, a outras bocas, sentisse em meu peito calvo as bicadas do fado, sorte que, por mais antiga, é sempre filhote, que as palavras que escrevo sejam, mal dissimuladas, a tentativa de experimentar, por tê-las gerado, com gozo real, ainda que solitário, uma paternidade de metáfora.

Fico a imaginar, com o resto de asas que (ainda) me sobra(m), que, se sou flagrado em pleno ar, perdido num entardecer, a um passo de navegar em delírios, hão-de pensar: esse nunca foi pai!...o mesmo que, possivelmente dizem de um pelicano recém-saído de um festim, peito aberto, filhotes fartos, atribuindo, contudo, ao mesmo, sem poderem, a essa “altura”, dizer, com certeza anatômica, “dele” ou “dela”, que ali vai uma verdadeira mãe, que há-de ter acabado de dar o peito, coberto de penas, à ânsia natural da filharada.