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quinta-feira, agosto 01, 2013

ALICIAMENTO REAL PARA A FÁBRICA DE FANTASIA





Só se sabe que uma terra é das maravilhas, quando se veio da realidade: só esta é capaz de emprestar àquela a fantasia que nos enche, quase a nos esquecer de que, uma hora, a fantasia acaba (e o tempo é uma realidade que, enganosamente, apresenta-se como fantasia).

Viver sempre, e simplesmente, com todas as complexidades que lhe são inerentes, na vida real, além de ser um atraso de vida, tendo de contar os minutos para escapar de uma impontualidade, é desconhecer o outro lado, talvez com receio de, indo lá, de lá não mais se retorne, percebendo, intuitivamente – porque, no íntimo, acreditamos que a fantasia é mais saborosa que uma realidade, por mais saborosa que esta, circunstancialmente, como é do caráter de todo real, apresente-se – que o fantástico é um país ao qual se pode ir, depois de uma longa temporada na pátria (do) real, mas cujo (real?) valor só é possível de ser mensurado, se não se fica lá, eternamente, pois, assim, o que era fantasia, contrastando com o real, tornou-se, agora, nossa própria realidade, e, por ironia, passaremos a querer voltar à (nossa) antiga realidade, que tomamos ora como ansiada fantasia, já não suportando o peso de viver na própria fantasia, transformada em cotidiano, com todo o peso de uma rotina real.

Em tudo isso há um grande mistério: saber quanto tempo se pode permanecer na realidade, e quando se deve deixá-la, indo, como se este fosse mesmo nosso destino, mais cedo ou mais tarde, rumo à fantasia mais desregrada; saber quanto tempo se deve ficar na fantasia (embora tanto o tempo quanto o “dever” não façam, na nossa fantasia, parte de um mundo que não seja a nossa realidade), e quando se deve dar adeus a toda essa ilusão, retornando a casa, uma casa que, sendo real, tem cara de casa, e não, como acontece na fantasia, pode ter cara de tudo, até mesmo de casa, desde que essa seja uma “casa de fantasia”.

Se eu conhecesse esse segredo, não creio que pudesse ficar rico, mesmo que isso seja uma fantasia que nos “assalte”, corriqueiramente, em meio aos tropeços de nossa realidade esburacada: e não poderia porque fantasia não é algo que se compre, ainda que haja que se disponha a vendê-la, já que, ao se a comprar, estar-se-á introduzindo o real na fantasia, e isso seria como comprar gato por lebre – personagens, aliás, de uma boa fantasia.

Caso eu conhecesse a solução para tal enigma, daria, a quem quisesse receber, gratuitamente, porque esse doar, de graça, também faz parte, envolvidos num toma-lá-dá-cá diário e cruel, das nossas fantasia, especialmente aquela de, tendo ido desta realidade, possamos ir para uma melhor.

Enquanto só podemos ir á fantasia de quando em vez, vamos lá! Não nos apeguemos demasiado à realidade, da mesma forma que, seduzidos por um gato fantasiado de lebre, evitemos, pondo os pés nessa terra irreal, afundarmos também a cabeça, ainda que muitos crêem, e também eu, que não vale a pena entrar numa fantasia se não for por inteiro – e este pode ser mais outro mistério da nossa vida real.



segunda-feira, julho 01, 2013

A LIVRE UNIÃO DE PAPILLON COM ALCATRAZ





Uma prisão sem paredes parece ser, especialmente, aos olhos que só a veem de fora, a fantasia de todo preso, sendo muito mais a própria fantasia dos que observam tudo isso com liberdade do que, propriamente, a do preso, fantasia, daqueles, do que seja um preso, de como ele, preso, se sente, e do que, sentindo-se assim, preso como está (ou como é), ele fantasia, aos olhos do mundo – preso também, a sua maneira, mas, tecnicamente, livre –, o quanto deste mundo que pode ser observado de dentro da prisão, de se sentir na mais completa liberdade, não levando em conta os olhos-espectadores, que, sem paredes, e, portanto, sem grades, porque, então, não haveria base para sua sustentação, ou não é uma prisão – se é, não passa de uma fantasia – ou é, sim, prisão, e sendo isso que é, que diz ser, não pode abrir mão das paredes e, em consequência, das grades.


Assim é que o preso fantasia, enquanto, de cá, os olhos fantasiam não só o preso, mas ainda suas próprias fantasias, podendo ser que a fantasia do preso seja acerca de quem, fora das grades, observa-o, fantasiando-se, na sequência, a fantasia que se tem das fantasias do preso, num jogo, de semelhança especular, como um espelho frente a outro, em que não há possível vencedor, porque, afinal, tudo aí não passa mesmo de fantasia, e o vencedor, determinando, com sua vitória, o fim do jogo, poria terno à (própria) fantasia.

Certamente, haverá quem interponha a tudo isso – se não com certeza do que faz, apenas para realizar uma fantasia, a de contestar –, a esse (meu) desfile de fantasia(s), de luxo duvidoso, de originalidade suspeita, a experiência pessoal (nem sempre sentida na própria pele, podendo saber disso através de alguém “muito próximo”, ou até por si mesmo, porém, com a pele, onde se deveria sentir a tal experiência, coberta por uma fantasia que, em que pese a leveza de um tecido fino, esconde-a, de verdade) de que existe (um) preso, ainda que todas as portas estejam abertas (e portas pressupõem, em nome da boa arquitetura dos lares, que haja paredes), confundindo a ausência de impedimentos visíveis com a liberdade total, ou a presença de uma parede, por menos “notável” que seja, com ou sem grades (e a segurança pessoal, hoje, exige-as, cada vez mais), com o cerceamento de um legítimo direito, o de ir e vir. E, penando assim, esses devem, entre todos, ser os mais fantasiosos.

Fantasia recorrente, quando fantasia era um traje obrigatório, era a de preso, com fantasiosas roupas listradas, quase um pijama (de) aposentado, por vezes, exagerando na fantasia (se é possível estabelecer limites para ela), arrastando, com esforço fingido que, no meio da fantasia toda, acaba-se esquecendo, uma bola de ferro atada ao pé: eis a liberdade de se fantasiar do que se quiser. E quando ao fato de a realidade ser bem outra, de presos (já) não andarem, quando têm permissão para fazer isso, com uniformes listrados, limpos, unidos a grilhões, se ela fosse assim, então, a fantasia, para ser o que é, deveria ser outra: quem sabe a fantasia preferia não viesse a ser a de um livre total.

Mas, como seria tal fantasia? Sendo um livre total, em si, uma fantasia, como se a expressaria, por fora, essa ausência de grades, inclusive por dentro?

Como tal homem (ou mulher), livre assim, não há, cada qual com suas próprias correntes – comumente, no pescoço, embora haja os que a trazem justamente no tornozelo, lugar preferido dos grilhões –, pode-se fantasiar do jeito que for, até mesmo com uma camisa-de-força, desde que se afirme que isso é que é liberdade, não dando, no entanto, a mesma aos olhos que, vendo aquilo, sentenciam: que prisão!




sexta-feira, outubro 01, 2010

MINIE SAIA E MICKEY MOUSE









antasia não é só um filme de Walt Disney que encantou crianças de outro tempo, encantando, naquele mesmo tempo, quem criança já não era, exercendo sobre estes, cada vez mais, menos crianças (ou mais, justamente, pelo afastamento desse tempo), ainda hoje, um fascínio que só é visto nas crianças, e não nas de outrora, não mais num Mickey, um ratinho esperto, mas num “mouse” que até cria, virtualmente, suas fantasias: coisas do (nosso?) tempo!

Seja qual for ela, sem saber ainda o quanto é fantástico, não se restringindo isso a um fim de noite de um domingo que se repete, semana a semana, ter fantasias, ainda que, quando então se as tem, em idade propícia a tê-las, elas são a (própria) realidade, tempo haverá para se encantar com ratinhos, para os temer, para os esquecer e, enfim, para os lembrar, como a marca de outro tempo: e quando esses dias chegarem, talvez o mouse de hoje já seja, perto da nova tecnologia, a própria fantasia.

Esse universo, no entanto, não se restringe ao rato, por mais esperto que ele seja para dominar a história. Há um pato – quá, quá, quá! – e há um pateta: mas, um pato-pateta, e que, ainda por cima, quebrou a caneca, mesmo pertencendo a esse mundo de fantasia, é uma outra história; o instrumento que toca é outro.

Aparentemente, para quem, já sem tantas fantasias, temia pelo futuro, passar do desenho, cheio de vida, mas nada “animado”, das tiras, dos gibis, para uma (quase psicodélica) animação, entre rugas com Stravinsky, hipopótamos que leveza invejável, flores em corpo-de-baile, objetos que abandonam sua função primordial e, algo kitsche, aparecem num show de talentos, seria como subtrair à fantasia algo de precioso: a própria vida, aquela que, na imaginação, se emprestava, de si, aos inanimados personagens.

Qual nada! Quá, quá, quá! Era como se tudo aquilo, uma vez, no papel, dele saísse, como que por encanto (e não foi por outra coisa, senão por isso que se deu tal Fantasia), avançando, numa multidão de desenhos, para a realidade, sem perda de sua fantasia original, tingindo a nossa, às vezes, tão carente de vida própria, com uma sequência de alucinações: mais seguras (nem tanto assim!) e mais baratas (certamente, sim) do que experiências psicodélicas. Enquanto, por mais anacrônicas que, hoje, possam parecer aquelas cores entorpecentes, aqueles sons estupefacientes, aquelas estupidezes geniais, viagens químicas, sintéticas, sem passar por análises criteriosas (talvez se recorra a elas para, justamente, descansar de tanta análise, de tantos critérios), podem ser sem volta, podia-se, volta e meia, retornar ao cinema, à Fantasia: agora, sequer é preciso sair de casa, embora fantasia assim, permitida, sem ao menos um escuro coletivo para se extravasar os segredos individuais (ainda que isso não seja coisa para criança), não tenha lá a mesma graça.

Há ratos e ratinhos: estes são quase uns mimos, presente infantil, cobaia para as primeiras atenções e para as inicias crueldades; já daqueles (esses ratos!), saídos, como parecem todos, ao esgoto, deve-se manter distância, ainda que, para isso, acabe-se aproximando de um outro, um rato em metáfora, alguém que fantasia (com) crianças e, num clique no mouse... E isso não é desenho animado!