quarta-feira, julho 01, 2009

A PEQUENEZ DOS FILMES DE HOJE





“I am big. It's the pictures that got small.”
Gloria Swanson quote


Especialmente para JOÃO CARLOS SAMPAIO

ão é uma norma, mas, em geral, as escadas são a imagem (e toda escada, arquitetonicamente, tem seus “espelhos”) da ascensão, dessa tão sonhada subida na vida, embora isso dependa do ponto de vista de quem observa a cena, interferindo, aí, sobremaneira, sua subjetividade, já que os degraus (espelho é a altura entre um e outro degrau) que conduzem ao alto, a esse fantástico mundo em que, chegando-se lá, não se tem motivo para preocupações – a não ser, talvez, a de não rolar, escada abaixo –, são os mesmos, sem tirar nem pôr, que conduzem, ou trazem de volta ao chão, a esse patamar – e o termo, aqui, não é preciso, já que patamar é um “descanso” entre um e outro lance da escada, quando os degraus (a subir ou a descer) são muitos – de onde se partiu, acreditando-se já que nunca mais se o veria de novo.

É, sim, uma Norma – e a maiúscula se justifica. É Norma Desmond. É uma velha mansão, dos tempos em que se subiu na vida; hoje, porém, imagem clássica do abandono, da descida, e tão rápida esta que se poderia dizer que se deu não degrau a degrau, mas, ainda pela escada, deslizando-se, sem empecilho no meio do caminho, pelo corrimão. A glória de um dia só resta, confundindo-se realidade e ficção, no nome: Glória...Swanson.

Esperteza a nossa em querer nos abrigar num monoteísmo em que o deus, o único, portanto, tendo sempre existido, jamais morre. Com mais deuses, apesar de um mundo mais animado, com intrigas que, olimpicamente, divertem nossa humanidade de leitores de folhetins, há o risco de um crepúsculo – também este uma imagem que não deve ser vista, por mais belos que sejam os pores-do-sol, como tal, mas como um rolar escada abaixo, ficando no chão só no caso de não haver nada de mais rasteiro.

Ensandecida, Norma, encastelada em si (o mais invulnerável dos castelos, ainda que igualmente o mais precário de todos), cede aos sedutores apelos de uma escada, não resistindo em surgir no alto, no mais elevado dos degraus, quando observada de baixo, pronta para descer, num ato, curiosamente, que representa (representar é toda sua arte, é toda sua vida) um retorno, uma espécie de subida, porque só os tolos ardem de desejo de subir as escadas, como se estivessem indo rumo ao paraíso, pois os mais sagazes, depois de terem chegado lá, ardem de desejo de aparecer, repentinamente, desde que com plateia garantida, no auge desse pódio, para, a seguir, com lentidão estudada, descer, marcando, assim, o ápice de sua ascensão.

E eu aqui, assistindo a tudo isso, no conforto de uma poltrona, como se aquilo não passasse de uma entre tantas ficções que animam de diversões nossos dias, na falta de uma co(o)rte de deuses vingativos, lutando entre si, mal percebendo o que vai a minha volta, na minha mansão de metáfora, no meu castelo de eus, com minhas escadas sem corrimão, mas nem por isso sem possibilidade de uma queda subida, essa silenciosa ascensão, mais rápida do que o rolar, degrau a degrau. Também eu me deixo seduzir, mas não por (a)parecer um deus, no alto, descendo, como se, magnânimo, concedesse, aos mortais ao rés do chão, uma chance de me terem por perto.

Quando surjo, e desço, alimento a fantasia de que, tendo estado tão no alto, lá embaixo, ao menos, vou conhecer os mais reles prazeres, lambuzando-me, sem medo de cair na sarjeta (que já está ali mesmo, no chão), sem temor de assim experimentar um crepúsculo, senão ao meio-dia de minha vida, ainda que às quatro e meia da tarde. Mas, vencidos, ao contrário, os degraus, encontrando-me no mais baixo dos patamares, descubro que se não bastou subir para ter acesso, imediatamente, aos subidos gozos, não é suficiente rolar pela escada para fruir do que a humanidade tem de melhor (ou de pior, a depender do ponto de vista).

Alguns homens fazem sua glória ao quebrar uma norma, mesmo que esta já se ache fissurada, bastando pouco mais do que um sopro para que se estilhace por completo – como se descessem escada abaixo, sob o ponto de vista dos legalistas; outros fazem a sua ao se apegarem, com uma literalidade empobrecida, às normas, não se permitindo engolir, mesmo que por descuido, uma letra (da norma) sequer – como se ascendessem, a cada obediência, um degrau. Eu permaneço no meio do caminho: tendo subido um lance, havendo outro ainda, descanso, já há quase uma eternidade, num patamar, sem saber, ao certo, qual o gênero da minha glória, se é que ela virá.




segunda-feira, junho 01, 2009

GRANDE OTELO E OS PEQUENOS IAGOS







eu nome não é feio: frailty é seu nome. E, como se sabe, sabe todo aquele que conhece (bem) o sempre insondável príncipe Hamlet, “thy name is woman”.

Não digamos, logo, de cara, que isso não é mesmo coisa para se dizer assim, na cara, o que isso significa, mesmo que, com domínio longe da minha debilidade, já se saiba que o que se quis dizer é que essa fragilidade, atávica, tem nome: mulher; que, invertendo a ordem original, seu nome é – coisa feia! – essa fraqueza, predicado indissociável, pelo jeito com que te olham, mulher, os homens: como Shakespeare, Hamlet – e sabemos o quanto eles não estão sozinhos.

Ah! – provavelmente dirá um homem; porque a mulher, se deu importância a algo que se disse aqui, não será condescendente – isso é coisa de antes, de um antigamente que, de tão lá atrás, mesmo que ponhamos a mão, como para proteger nossos olhos de um sol que não há, já não se alcança mais. Hoje, dirão os homens, assumindo um papel de condescendente, sem jamais admitirem que, numa troca, estão ficando, cada vez mais, mulher(es), que não se poderia dizer isso, já que as mulheres – essa (nossa) neocondescendência masculina! – são a própria força: e, a partir daí, enumera-se, numa lista que parece não querer mais acabar, tudo aquilo que parece provar quão fortes são as mulheres, começando, o que prova a falta de originalidade dos machos, com o parto, com suas dores monumentais, tudo em nome da perpetuação dessa nossa humanidade, ainda que as mulheres, por vontade, não sentiriam esse doer, pondo um fim, o que já não é sem tempo, à maldição divina, porque, em que pese alguns encontrarem aí uma contradição ontológica (como Deus pode maldizer?), talvez porque “feito” à imagem e semelhança dos homens, sabemos de onde partiu essa história de (o homem) ganhar o pão de cada dia com seu próprio suor, enquanto a mulher...

Tenho de concordar: é de antigamente! E isso se percebe, de imediato, pelo “thy” elisabetano – da primeira Bete, não da de agora, se é que se pode chamá-la assim, tão século passado como é, ainda que não chegue a recuar tanto, chegando ao dezesseis, dezessete. Thy é seu: e, de resto, nada mudou – mulher, woman, se quiser, frailty é seu some.

Quanto as incontáveis fortalezas construídas pelos homens – se houver, em construções assim, alguma mulher metida nessa história, ou é um “caso” perdido, ou é tão exceção que merece um capítulo à parte, o que, a meu ver, não lhe acrescenta força, mostra apenas uma debilidade construída, e tão bem, que as próprias mulheres, vendo essa obra já de pé, compram-na –, isso, apesar da evidente constatação da força que foi necessária para se “arquiteturar” uma humanidade assim, não exclui dos homens suas próprias fraquezas. Estas, porém, vivem, comumente, tão escondidas, que é de se pensar que, desabada a obra sólida que se crê que todo homem é, ele ainda se mantém de pé, mal se sustentando, valendo-se só da crença e fantasia alheias (especialmente, das mulheres) de que são fortes todos os homens, sua fragilidade ficou soterrada.

Só que o que está por baixo não teve, necessariamente, decretada sua morte oficial: de pé, ainda o homem; debaixo do que dele ruiu, sua fragilidade (ainda) não morreu; ao contrário mesmo: é justamente por está aí, sob os escombros de uma perfeita obra, como se crê que seja o homem, que essa sua debilidade insuspeita vive, e prospera, a ponto de alguns homens – corajosos, admitamos – fazerem justamente dessa (sua) fraqueza a maior obra de sua vida, chegando mesmo a, com os lucros, construírem uma verdadeira fortaleza, se é que a podemos, sabendo como ela nasceu, chamá-la de verdadeira.

Eu, aqui, como Iago – com suas fraquezas bem-disfarçadas –, digo? From this time forth, I never will speak a Word. E para quem, sabedor de outras línguas, em sua modernidade, alerta-me para o never que nunca, em construção do “falar”, deve se antepor ao (seu) auxiliar, respondo, não tão antigo como ela, com uma “realidade” sob suspeita, ao contrário dela, estou sendo apenas elizabetano – de primeira.



sábado, maio 09, 2009

A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS



ito por mim, parece que alguém me soprou, ainda que, com isso, não se subentenda que, antes do sopro, sendo então este uma consequência, fui devidamente mordido. O fato é que há palavras que o vento se encarrega de levar, sem que se o tenha encarregado disso, como se pondo tal fardo (de palavras – o que, por si só, não pesa menos) em suas costas, partindo dele próprio, portanto, a decisão de levar isso adiante.

Se o vento leva até filmes inesquecíveis, até épicos (e destes já quase não se tem lembrança), até histórias de amor (tanto as que se julgavam inesquecíveis quanto as que nem lembrança deixaram), por que não haveria, as palavras, de as levar? Leva-as. E se o filme – e todos eles, como se não pudessem disso escapar, por mais que tentem uma originalidade, acabam por uma história de amor contar – for, justamente, “Palavras ao vento”, nem é preciso tanto o (próprio) vento se esforçar, bastando, assim, um mero sopro para se levar.

O tempo, com sua linha que atravessa histórias – épicas ou de amor –, quando se junta com o vento... O tempo (é veríssimo), e o vento (sem que haja comprovação acerca da veracidade de sua participação) levaram consigo os aventais: hoje, ninguém mais cozinha – faz experimentações; ninguém mais experimenta, na palma da mão, na ponta da língua – degusta com o espírito; ninguém mais encosta o umbigo no fogão – é-se, com o título de professor, mestre em assim se autoproclamar, chèf.

Não se pode dizer, a bem da verdade, que o tempo (e, eventualmente, o vento) tenha levado embora os ovos, talvez porque se saiba que, etimologicamente, eles são a origem de tudo. Mas levou as mães, lavando as mãos – e não há como negar, por mais mudanças de ar, que o tempo não tenha aí sua responsabilidade, levado como ele só.

As mães, aquelas de avental, com ele sujo, dizendo, com alguma poesia musicada, que a sujeira era de ovo (como se assim limpasse a própria barra), mesmo que seja só, aquela sujeira, o acúmulo do tempo, estas foram levadas. E para se as rever, só mesmo se recorrendo a algum filme, um que o tempo quase tenha levado, desde que não seja aquele do Vento, que nesse não há mães assim, havendo, em seu lugar, as negras, que podem ser mães, para os assados, para encostar o umbigo no calor do fogão, sequer reclamando seu direito a uma poesia que as alce de escravas de alguma mãe a mãe...de alguma escrava – mas, enfim, mãe.

Não sei contar quantas histórias o vento, ou o tempo, ou quem mais se encarregue disso, levou como palavras que tenham sido riscadas. MÃE resiste: e é nisso que se fiam os que sentem saudades de aventais, de ovos, de chinelos na mão. Resistindo, resistentes, as mães, estão garantidas outras tantas histórias, com seus amores(-)próprios, substituindo as que foram levadas.

Mãe – não sei, mas é provável que isso me tenha sido soprado – é como ovo: origem de tudo. E mesmo não sendo nenhuma novidade, pode estar aí a continuidade dos filmes ou, ao menos, a continuação de uma antiga história de amor.


sexta-feira, maio 01, 2009

UM RASGO DE LUCIDEZ NESSA MINHA LOUCURA AOS FARRAPOS



roto riu do esfarrapado só porque este, esfarrapado como é, é justamente aquele que vive, aos farrapos, repetitivo, sem alterar sua moda, não atentando aos ciclos que se alternam, prendendo-se a um único círculo, girando sempre em torno dele, repetindo, quando vê dois quaisquer, quaisquer que sejam esses dois, em situação semelhante, sem que um possa, aparentemente, falar do outro, estando um roto e o outro, a seu ver, esfarrapado, digladiando-se para ver quem estar melhor(?) – se é que cabe uma palavra tão boa, aqui.


Com base em tal raciocínio – ainda que, a essa altura, muitos, sempre atuais na moda do pensar (embora não passem de uns repetitivos), estejam a duvidar de que haja, realmente, aqui, um raio de razão –, nessa lucidez que sustenta os argumentos do roto para rir do esfarrapado, também este, por mais que seus farrapos não nos inspirem (a depender do estado dos farrapos, não é nada agradável se os “inspirar”) lá muita confiança, poderá lançar sobre o rosto do roto, originalmente ou só dando o troco, uma sonora gargalhada, mesmo que se possa considerar que há, sim, diferença entre esse roto – coisa até do acaso, nem sempre se percebendo um rasgo na nossa vida cotidiana – e o tal esfarrapado, pois este, se honra o nome que tem, é uma coleção de rasgos, sem que se possa atribuir tantos rasgões a um mero acaso, não se crendo que não tenha se dado conta dessa sucessão de fendas que se abriram em seu traje.


A questão, talvez, seja demasiado sutil. Um roto pode se sentir, mesmo que só carregue consigo um rasgo, completamente esfarrapado, se considerar que isso é um furo em sua moda integral, enquanto que o esfarrapado pode sustentar que é assim por pura filosofia – moda antiquada! – ou porque, ao contrário do que se pensa dele, vive sempre atualizado, conhecendo todos os ciclos da moda, sendo que o da vez não é outro, senão os farrapos em pessoa: e, nesse caso, quem há-de lhe negar elegância?


Costuma-se, com argumentos de justiça, sustentar que uma disputa equilibrada só se dá quando os contendores possuem força semelhante, armas iguais, e nenhum deles conte com uma prévia graça divina que, há muito, independentemente de sua força (ou de sua fraqueza), de suas armas (ou do seu covarde pacifismo), já está destinado a vencer. Assim, nada mais justo do que um roto a falar de um esfarrapado, ainda que os mais puristas, os que levam a (tal) justiça ao extremo – passo seguro para a crueldade –, prefiram que a batalha se dê entre dois rotos, com os mesmos rasgos, ou entre dois esfarrapados, contando estes com farrapos em igual número, se houver alguém disposto a contá-los.


Se alguém, agora, estiver a falar de mim, tomando-me como roto, que olhe para si, e veja se não é roto como eu, ou até, diferentemente de mim, que só sou roto, um esfarrapado – e, ainda por cima, fora de moda. Caso me tome por esfarrapado, ainda que dentro da moda, que se olhe no espelho para constatar se não é, como eu, esfarrapado também, mesmo que com um ou dois farrapos a menos, ou que, se concluir, em relação ao esfarrapado que eu sou, que é um roto, um que traz somente um solitário rasgão, se este não tiver sido percebido, e se estiver num ponto em que deixe mais à mostra, único, do que todos os meus atribuídos farrapos, é esfarrapado sim, apesar de toda a discrição de sua moda de um só rasgão.