
essa corrida de obstáculos, obstáculos mesmo são os trechos em que não há esse tais empecilhos, em que a corrida, sendo de obstáculos como é, parece fluir, sem tropeços, com uma mansidão que pode até ser o desejo dos caminhantes, mas que é a derrota de quem se dispõe a correr assim, sendo sua vitória o ultrapassar os obstáculos, numa correria só, e não os havendo, a suavidade lhes é como uma afronta, pois, que valor há em chegar, desse modo, em primeiro lugar, mesmo que tenha sido o único a completar a corrida de não-obstáculos, já que os outros, acostumados aos obstáculos, não os encontrando pelo caminho, como é de praxe em corridas tais, sem saberem como agir, pois seu treinamento não contemplou trajetória sem empecilhos, foram ficando para trás, a ponto de, não enxergando mais nenhuma possibilidade de alcançarem a vitória, desistiram pelo caminho, ficando à margem, cansados dessa estrada que não lhes impõe qualquer obstáculo?
Pensam que, assim, o que, sabe-se lá como, não desistiu, tendo chegado ao fim da corrida, sozinho, mesmo que tenha completado o percurso num tempo infinitamente maior do que aquele que gastaria para o vencer, caso a corrida de obstáculos fosse mesmo cheia desses empecilhos de lei, sente-se vencedor, bradando, cheio de orgulho, sua vitória? Nada! Surpreendido por ter chegado, impulsionado por uma força sobre-humana (é mais fácil para os homens suportarem os obstáculos, esses que eles usam para valorizar suas pequenas vitórias, do que, do que a ausência deles, não havendo, portando, desculpa para que não sejam uns vencedores), esse sobrevivente de uma corrida sem obstáculos vive envergonhado, tendo mesmo retirado de sua lista de vitórias (todas em corridas de obstáculos) esta de agora, por ela carecer daquilo que mais lhe dá orgulho: não, simplesmente, a vitória, mas vencer os obstáculos, mesmo que isso signifique apenas um ou outro buraco no meio do caminho.
Curiosamente, os tidos, normalmente, como derrotados, os que ficaram pelo caminho, e mais ainda os que tomaram a decisão de desistir, firmando posição contra a falta de empecilhos nessa prova, são os que desfilam, agora, seu orgulho, chegando mesmo (coisas da competição entre os homens!) a esfregar na cara do vitorioso-em-tese, derrotado-na-prática, sua derrota, fazendo isso como se ela fosse uma real vitória, sentindo o acerto disso ao perceberem a vergonha daquele que sente sua vitória como um real fracasso.
É da natureza humana reclamar. Ouvem-se, por aí, com justificativas de cidadania, reclamações contra os buracos no meio do (nosso) caminho, tornando-os, pequenos que eventualmente sejam, verdadeiros obstáculos, um empecilho para que, tendo de percorrer essa estrada, como uma prova diária, sagrem-se vencedores, imputando (com um “filho-da-puta” dirigido a uma autoridade genérica ou a um subalterno específico) a tais buracos – e há os verdadeiramente enormes – toda essa sua derrota. Os que, por fazerem, cumprindo tal provação, esse caminho, diariamente, acabaram por saber contornar os obstáculos, não havendo, assim, empecilho para que cheguem no ponto em que devem chegar, se chegam, enfim, ao ponto, e isso lhes granjeia uma vitória, diante dos outros, retardatário com a desculpa dos buracos ou ausentes com a desculpa do tamanho dos mesmos, envergonham-se, a ponto de rejeitarem a vitória, unindo-se aos outros em suas reclamações, ainda que, para isso, no outro dia, mesmo que os buracos tenham aumentado, da noite para o dia, contornando o que aprendeu a contornar, atrase (ou desista, no meio do caminho), só para, em coro, reclamar, sentindo-se, afinal, um vencedor.
Acabei de pôr, aqui, obstáculos que, para mim, postos no meu caminho, ser-me-iam intransponíveis. Se alguém conseguiu vencer tantos empecilhos, pode-se sentir um vencedor; um vencedor de verdade, sem ter do que se envergonhar, mesmo que não se possa negar um prêmio à coragem dos que, abatidos, no meio do caminho, por tantos buracos retóricos, estejam ainda pela metade (o que é uma contradição, caso tenha chegado até aqui) ou tenham, de vez, desistido: se não há nisso a mesma perseverança daquele vencedor, há, pelo menos, inquestionável inteligência.
ara evitar perda de tempo (que, como cabelos, é definitiva, a não ser que se tomem providências...a tempo – porém, se este já estiver perdido, não haverá mais remédio, isso que se diz que (já) há para a perda de cabelos), aviso, desde já, que de pouco ou de nada adianta especular, mandar que eu me olhe no espelho (até com os olhos fechados, eu sei bem o que veria). Não adianta, com uma lupa potente, no auge do seu vigor, lente aumentativa quase ao exagero, ali ir pesquisar, porque eu próprio digo, sem maneiras de fingido desdém, ou de um sincero orgulho, talvez ocultando, sob o disfarce de um não-é-comigo, toda a devastação capilar que faz daquela região, entregue às moscas com brevê, a própria imagem de uma clareira, depois de apagada o fogo juvenil das queimadas ateadas por desejos que usam os mais diversos combustíveis, nessa prática secular: tudo o que tenho nessa minha cabeça não passa de resíduos de Shampoo.
E, agora, já tendo revelado o nome do filme, antes que um golpe de surpresa me faça ver estrelas, sou obrigado a revelar também que, embora já ali não tenha lugar cativo, ainda penso em Warren Beaty. Mas, ao lembrá-lo, vem-me (à cabeça, claro!) que isso é história por demais antiga, mesmo que colorida, algo cor-de-rosa, rosa falso(a) talvez, tão velha, como uma das vidas passadas – não uma das minhas, que não leio esses livros exaustivos, mas uma das vidas pretéritas de Shirley MacLane, um dia, irmã linda de um (ainda) eterno bonitão – aquele “Shampoo” devia ter algum mistério!
Não que o cinema me tenha feito uma lavagem cerebral, com divertidas idas a um salão, com perigosas entradas, pelo gosto de passar por aquela porta de vaivém, num saloon, ou com saídas, à francesa, de um elegante salão, tropeçando, porém, no tapete, quando já estava praticamente saindo da fila, atraindo, assim, a atenção, que tanto quis despistar. Ao contrário até! O que esses filmes fizeram foi encher minha cabeça, ocupando o espaço deixado vago, progressivamente, pelos cabelos que me custaram, um dia, xampus caros e condicionadores baratos, tão baratos, que assistir à sessão inteira era um exercício de sobrevivência, pelo calor, numa selva tropical na estação mais quente do ano.
Ah! é tudo de que preciso. Mas, nada tão ao ar livre, com essa dispersão da luz na tela e sua concentração ao lado, onde deveria estar escuro: um ar que fique, hoje, preso, esperando a hora de, num alívio supremo, expiar(-se), desde que não seja por uma ação atabalhoada de carros em disparada ou de astros descabelados dependurados, pendurados por um fio (de cabelo?) num precipício de boca aberta.
Não! preciso de um ar engolido em seco, ao ver, diante de mim, a já não sei mais a quantos quadros por segundo, pois o tempo corre, uma cena de silenciosa eloquência, longa sequência sem cortes, sem feridas expostas (permitidas as in-postas), com um vento falso que entra, não se sabe bem por onde, tornando voláteis as echarpes já leves, e mais pesado o clima, sem, contudo, desfazer os penteados: ilusão de que cabelos são para sempre.
Hoje, no entanto, o realismo de mentira não se contenta com um imenso ventilador oculto e quer vendavais mais do que de verdade, a ponto de varrerem os penteados do mapa. Mas, apesar da intempestiva entrada em cena desse ar exagerado, espécie de ator à antiga, ainda fazendo aladas as echarpes, como se estas, independentemente do tempo (e do vento) que faça, não voassem sempre com espontânea docilidade, num gesto clássico, ainda passo a mão pela cabeça, não na esperança de reencontrar ali fios caídos, tempos perdidos, mas por um sossego que, em meio ao tumulto copiado aos mais banais filmes de ação, as lembranças me dão, mesmo que sejam memórias alheias, coisa de cinema, e não minhas próprias recordações.

uero te tirar para uma dança, mesmo contra toda a prudência que recomenda que eu permaneça quietinho, no meu canto, cantarolando, baixinho, e só para mim mesmo, a canção que gostaria de contigo dançar, evitando, assim, o vexame de expor, publicamente, o endurecimento (natural, aliás, considerando-se o “tempo”) das minhas juntas, junto com o, contraditoriamente, excesso de flexibilidade que me faz cair de joelhos, sem traumas aparentes, diante do deus Desejo, sem que eu tenha manifestado qualquer vontade consciente disso, implorando, nesse caso, ser aceito como teu par.
Foi só um instante, chego a pensar num simples quase-nada, mas, sacudido num ponto indiscernível do meu espírito de bombom recheado, cedo à fantasia, talvez um tanto tardiamente, e decido-me, enfim, por uma valsa. Logo, porém, acerta-me, em cheio, como se houvesse calculado esse alvo, a face, como se o braço mal colocado de um par que valsa ao lado, a noção, clara, do espaço: já não há lugar, neste mundo, já se valsar, sequer sozinho, por menos que isso possa ter alguma graça.
Há, embora tenha de reconhecer que meu Sonho de Valsa requer um vasto salão iluminado, com velas que se multiplicam ao se deixarem capturar por espelhos, cuidadosamente posicionados, como se armadilhas eficazes para chamas mais hesitantes. Além disso, há de ser uma dança à antiga, com a dama (porque é tão à antiga, que requer dama e cavalheiro) varrendo, num giro, todos os cantos do mundo com seu longo vestido rodado – apesar de rodada essa roupa, novinha em folha, quase estalando de tanta novidade no salão –, e com par, um verdadeiro cavalheiro (à moda antiga, claro!) envergando, sem sentir nenhuma vergonha por conta disso, bem pelo contrário, mesmo que ao custo de forçar, hoje, uma postura ereta demais para nossa modernidade pouco ergométrica, reforçado tal esforço por sua idade já inclinada ao descanso fácil, um fato de gala, escuro, com cauda viril (só a experiência, que vem com o tempo, com o preço que este cobra, é capaz de emprestar virilidade a uma cauda), com botoeira preenchida com tanta naturalidade, que o botão ali posto ainda carrega consigo, recendendo a frescor matutino, um orvalho pendente, vindo de uma madrugada há pouco plantada no solo fértil de um relógio de bolso, dourado, devidamente acorrentado (os trajes de gala não dão muita liberdade de escolha), numa prisão, contudo, que se dá por cadeia de ouro (o que não a faz menos prisão, embora a torne relevante cadeia), permitindo que se veja as horas, no instante em que isso se desejar. Isso tudo sem se esquecer, porque é de praxe, nesse figurino recém-cortado por estas minhas inábeis mãos para trabalhos com tesoura, dos sapatos envernizados, a ponto de deixarem, mais elevados do que os pés que os calçam, encimados, enciumados os espelhos, com o brilho reflexo no couro bem polido.
Como se vê, é mesmo um sonho essa valsa que, só de a olhar, mesmo que assim, na fantasia só, derrete um coração – até os mais duros, imagina então o que faz com um coração de chocolate, envolto, num traje de gosto duvidoso, em papel dourado ou prateado, da cabeça aos pés; um coração que, em dias mais quentes, derretido, faz uma lambança, mas que dura, se conservado em ambiente “fresco” (talvez seja por isso que ele vive intimamente envolvido em roupa prateada ou dourada, dos pés à cabeça).
Coração à mostra, aliás, é um perigo constante, é alvo fácil até para flechas sem destino certo e que, por um direcionamento atávico a essa sua natureza de seta a cruzar os ares, dão-se por satisfeitas, se se deparam com um peito assim, como se, interpondo-se entre elas e o vazio, viesse justamente em sua direção, quando essa viagem é função das setas e não dos peitos, ainda que o coração esteja batendo só porque o tronco que então o porta, suando como se orvalhando, a qualquer hora do dia, corre ao encontro de uma flecha que lhe foi pré-determinada. Melhor, para garantir alguma segurança a esse bombom acomodado a sua caixa (torácica), é protegê-lo: para isso, uma capa.
A que está mais à mão não passa de papel celofane, com aquele indefectível forro prateado (às vezes, dourado, o que não melhora muito), roupa nada discreta nesse vermelho chamativo (de dar água na boca, por mais que queiramos esconder certos desejos), sendo ainda mais indiscreto no som que faz ao desenrolar sua cantilena, principalmente, quando, no cinema, o filme requer o máximo de silêncio. Vendo-o assim, sem abandonar a fantasia da dança, sem abrir mão do Sonho de Valsa, deixo o coração se (re)virar no peito, cuidar de seu próprio destino (e que é cair, mais cedo ou mais tarde, numa língua, em qualquer idioma), e dedico estas linhas somente à capinha desse chocolate, ao papel que torna doce, ainda que, por vezes, a outros, irritante, o amassá-lo.
Com ele, seduzido por sua cor ilusória, faço novos óculos, só para enxergar, em cor-de-rosa, os muitos tons de um mesmo Jobim. Mas, ilusão de ótica, o mundo que eu queria ver em paz me surge sangrento de um vermelho sutil, como se quisesse emprestar belezas às guerras. Dos olhos, nos quais ainda resistem velhas sequências de valsas longas, não importando os erros de continuidade que atam, num mesmo fio, o Danúbio Azul às valsas (mais) brasileiras, chego, enfim, à boca – e não há bombom à vista, ainda que a língua vasculhe, cuidadosamente, e com a intimidade que lhe é própria, a cúpula do (seu próprio) céu.
Um pente, que, aqui, aparece, ao acaso, eu o embalo no papel do sonho e, improvisada gaita, arrisco-me numa valsa, soprando-lhe esquecidos acordes de uma época que não sei como entrou na minha cabeça, que é sempre um samba-do-crioulo-doido. O som, agudo demais, quebra todos os lustres de cristal desse salão cinematográfico que, assim, apagados, dão chances, afinal, para que as velas possam brilhar, cumprindo seu papel. Com temor de me ferir nesses fragmentos de valsa, levo a mão ao peito, própria a mão, peito todo próprio, para me certificar de que, no seu (próprio) lado, no esquerdo, o bolso ainda guarda um bombom quase derretido.
Ainda, a essa altura, quero te tirar para dançar. Porém, considero ser mais prudente procurar um sonho menos difícil, porque só assim, e talvez, eu consiga te convencer a comigo – coisa de sonho! – bailar.


essa nossa língua que não se contenta em ficar parada, nem que seja por um instante, talvez assim para disfarçar a fome, embora o artifício possa, como um tiro que nem de longe acerta o alvo, sequer passando raspando por ele (raspas, como sobras, para quem tem fome, e, portanto, não demonstra, o que não quer dizer que não o tenha, pejo contra farelos, já é um alívio), não só não obter o resultado desejado, mas aumentar o desconforto do estômago vazio, chegando a efeitos contrários a suas expectativas, Bonequinha de Luxo é como (e essa palavra só faz aumentar meu apetite) sublimarmos essa necessidade, já que não podemos tomar nosso breakfast diante das vitrinas da Tiffany’s, mesmo que esse desjejum, pela carência, esteja se aproximando, num perigo iminente, de um jejum simplesmente, esse passar-fome ritual: que cena!
Enquanto se degusta uma comidinha rápida, rapidamente, efêmera como ela é, os olhos devoram, sem meias-palavras, até porque é da boca a culpa de se falar e comer ao mesmo tempo, joias, diamantes diversos que, como se sabe, e não é de hoje, são eternos, ou, pelo menos, duram tanto que, durando bem mais do que nossos desejos, podem ser chamados de eternos, esses mesmos diamantes que, dizem, e as garotas, especialmente as loiras, sabem, são os melhores amigos das mulheres, em geral, e das Marilyns, em particular – mas, aqui entre nós, particularmente, isso já é outra história, é como pôr dois filmes no mesmo rolo, misturando a cinturinha-de-vespa de Audrey com o perfil, algo tropical, de Miss Monroe: e isso, sim, é que seria uma boa Doutrina, pagã e pecaminosa, para todos nós (por mais embaraçoso que seja, para mim, dizer isso), permitindo-nos saborear, gulosos (mesmo que dizer isso possa parecer somente “fazer fita”) e egoístas, a América para (nós), os americanos, desde que os de norte não se creiam, numa particularização de uma geografia bem mais ampla, acima de todos os outros, sem que se lhes possa negar que têm lá seus direitos, ao menos, autorais.
Moon River! Se há rios na lua, nem quero saber; nunca me interessei mesmo por uma lua que enche os olhos com uma objetividade insípida, preferindo-a, coisa típica de um sujeito como eu, com a cabeça sempre no mundo-da-lua, uma mais devassa, vista a olho nu (claro!), uma lua com que se pode sonhar. No entanto, não me sai da cabeça, da única que tenho (e já se sabe em que mundo ela vive, levando-me junto consigo), um rastro lunar sobre as águas, feitas, estas, um espelho mais polido do que o vidro mais disposto a tais reflexões. E tudo isso com uma canção ao fundo, não no fundo do rio, submersa, talvez naufragada, mas pairando no ar, sem estar, porém, acima da própria lua, apenas vagando por ali, sem que se saiba bem de onde escapa esse som, conduzindo-nos, nostalgicamente, por veredas pelas quais nunca, antes, andamos; por vales, inclusive os de lágrimas (que isso faz parte da vida, como bem mostram os filmes), em que não nos lembramos de já ter estado; por mares nunca dantes navegados.
Não há dúvida: é mesmo um luxo poder, com lembranças que não são, rigorosamente, nossas, que são de outras vidas, vidas de outras personagens, mais experimentadas nesta, a única com que, indubitavelmente, contamos, ressalvada a fé de alguns em outros mundos, em outras vidas, desde que estes, em nome de uma esperança, não se privem de viver quantas vidas puderem, pela vida dos outros, confortavelmente instalados, aparentemente, só como espectadores, mas – e disso sabe apenas quem nos conhece por dentro (quem?) –, no fundo, vivendo tudo aquilo, intensamente, até porque (viver) de outro jeito não tem graça, não vale o ingresso que pagamos para estar nesta vida, e que é, sabemos, alto demais.