Intumesço, de repente, como um bonachão vovô mafioso, com suas bochechas com algodão, doce como ele só, mas capaz – e nisso, considerando-se que é tudo mesmo doce, talvez, não haja real contradição – de mandar bala, seja ele próprio a puxar o gatilho, pois, afinal, apesar de tão poderoso, se preciso for, não manda, e sim obedece, a si próprio (foi assim que se tornou poderoso), não sendo nenhum maria-mole, além do que, puxar um gatilho assim, disparando um ato, a seu ver, necessário, não exige lá tanta força, nem mesmo de um velho avô, como aquela que nos é cobrada, quando queremos, em qualquer idade, num estica-e-puxa, fazer uma bala...de coco, às vezes, exigindo, pelo esforço que requer, o empenho de toda a “famiglia”; no entanto, se não for, rigorosamente, indispensável que seja ele mesmo a protagonizar esse mandar-bala, em pessoa, delega, sem, preferencialmente, delegados por perto (a não ser os que já estejam bem pagos, ou os que, de tão maria-mole, nem precisam receber qualquer pagamento), essa responsabilidade a outros, ficando, assim, o sujeito com a arma do crime: e quão incriminadora pode ser uma mão com vestígios de bala...de coco.
Se inchei assim, não foi, esclareço, por excesso de doce (ando tão amargo!), nem de algodão-doce (ando tão pesado!), nem de balas de coco (não ando com força para isso!), nem foi por excesso de marias – moles ou (de) uma dureza só: é que fiquei cheio...de mim mesmo.
E se isso, por um lado, abre espaço – talvez a brecha que muitos estejam esperando – para que se pense que, antes, antes de me encher (de mim mesmo), eu era um grande vazio (ao menos, era grande), por outro, é-se, seguindo-se ainda a mesma lógica de doçaria de esquina, obrigado a se concluir que esse eu, o que me enche tanto (será que já estou tão cheio de mim assim?), a ponto de me deixar com ares de poderoso, posando de chefão, quando não passo de um subordinado (a mim mesmo até), é porque aquele tão vazio era enorme, quase maior do que eu.
Cheio a não poder mais (quero mais poder!), saio por aí assoviando um velho tema de cinema, esquecido dos meus crimes, alguns, cometidos com uma doçura exemplar, outros, dado o amargor, deixando a impressão de que foi doce em excesso, provocando, assim, um travo na língua.
Quem me vê passar, passando por mim, não reconhece a canção, não me reconhece, e, apesar de subordinado a tantos chefes, mandando bala quando um deles assim o manda fazer, sem ligar para os vestígios que ficarão em suas mãos, ao se sentirem tomados por um grande vazio (sem que isso os faça experimentarem a sensação de estarem cheios de si), olham para o alto, não em busca de uma salvadora promoção, que os faça também poderosos, mas, obedientes a uma hierarquia hierática, à espera das (boas) novas do Chefão.
Já eu, esgotada a partitura original, cabisbaixo por não conhecer outra trilha...musical, sigo, olhando o chão, tomado por um vazio que me enche, sem que, agora, sinta-se inchado. Porém, orgulhoso, para que não percebam, mesmo os que, costumeiramente, já não me notam, meus vãos, esse meu empacotamento a vácuo, insuflado por velhas imagens, distendo, ao seu limite, minhas bochechas: só que em vez de parecer poderoso, viro alvo de gozação.
quarta-feira, junho 01, 2011
VÔ NÃO VOU
domingo, maio 01, 2011
NÃO TIRE OS PÉS DO CHÃO
reparar uma armadilha requer conhecimento, e profundo, mesmo que a tal armadilha, antes de ser um poço cavado e camuflado, à superfície, para disfarçar o perigo iminente, seja mesmo um risco à flor da terra, talvez, nesse caso, contando com a autoconfiança de quem por esses caminhos anda, não considerando a possibilidade de que alguém, querendo lhe preparar uma armadilha, venha a fazê-lo assim, tão (aparentemente) à vista, buscando os riscos onde outros olhos, tomados por esse autoconfiante, não procuram.
A armadilha, em si, requer também sua própria engenharia – e se ela pode parecer bastante primária, em se a observando com atenção, desde que não seja aquele que nela caiu, porque, a essa altura (ou a essa profundidade), mais interessado estará em sair dessa do que em especular sobre o conhecimento rudimentar que a alimentou, há de se verificar o grau de inteligência que ela exigiu, ainda que, cheios de moralismo, venhamos a dizer que essa inteligência foi usada para o mal.
E o mundo, este mesmo por onde andamos, ora com mais confiança, ora com menos, por vezes, parece-nos uma grande armadilha, do exato tamanho do próprio mundo. Quando alguém prepara sua armadilha, sem que tenha qualquer intenção de ser sua vítima, vítima desse urdidos ardis, e obtém sucesso, o que significa dizer que sua presa em vista, atenta, quem sabe, para os lugares, deste mundo, menos prováveis, crendo ser daí que podem vir os perigos, e não para o que vai diante de seus olhos, cai, mesmo que a armadilha em questão, capturando a presa, alce-a, caímos nós também – ao menos, o predador da hora, o artesão que, manualmente, com cuidado quase de artista que não repete sua obra, levou a cabo a armadilha.
Caímos, ainda que, para todos os efeitos, continuemos de pé. Moralista! Já ouço as vozes que se levantam contra mim, até vindas de bocas que jamais pensaram – se bocas pensassem, quanto deixariam de falar! – em preparar uma armadilha, e não por falta de vontade, e não porque não acalentem tal desejo, no íntimo (o íntimo de todos nós é, entre todas, provavelmente, a maior de todas as armadilhas, aquela em que caímos, por mais que já tenhamos caído na mesma armadilha), mas por, sempre nesse íntimo-armadilha, manterem a esperança de que poderão lançar mão do argumento de jamais terem feito uma dessas, para escaparem ilesos de algum julgamento final.
É que, ao concebermos as (nossas) armadilhas, visando a uma vítima específica, abrimos, assim, um amplo espaço para que outros, feitos predadores como nós, façam das suas, vítimas, então, nós, potencialmente de tais armadilhas. E não fica nisso. Nós próprios, de tantos armarmos (armadilhas), de tanto as espalharmos por aí, nem sempre cuidando de registrar, com exatidão de cartógrafo, o ponto exato em que a pusemos, acabamos por esquecer algumas delas, e, num momento de tão autoconfiança, andando, concentrado nos perigos que podem surgir de onde menos se espera que eles dêem as caras, no passo seguinte, dado com a segurança com que se vem caminhando, sempre confiante, pomos o pé no laço, o nó se aperta, e lá ficamos nós.
O castigo maior, mesmo para os que se creem amorais (sem perceber a armadilha em que caíram, ao se crerem assim), é se dar conta de que aquela armadilha que nos ata, pelo pé, ou nos joga no fundo de uma cova – para não entrarmos, aqui, num interminável rol de armadilhas diversas –, leva nossa própria assinatura: e temos, então, de conviver, até sermos salvos, se o formos, com o desespero de sermos presa e o júbilo por termos realizado essa obra, que, sentimos em nós, é a eficiência em pessoa.
sexta-feira, abril 01, 2011
FÂMULOS
destruição da família!... Quantas vezes já se repetiu isso, tentando-se atribuir, ora à destruição (da família), ora à própria família (sem incluir a própria nessa destruição toda), destruída já ou em vias disso, a falência do espírito de sociedade, esta erguendo-se, segundo conceitos que mais parecem dogmas, sobre aquelas, sobre as famílias, incluindo a nossa, a que, entre as tantas que se vão destruindo, surge, se não como a única, ainda como inteira, sem que os olhos dos membros dessa família se voltem para as fissuras que, a outros olhares, já são evidentes sinais de um perigo iminente, preferindo a família se encastelar numa autoatribuída eminência, como se se sentir assim fosse capaz de, como massa apropriada, tapar os buracos, curar as rachaduras, remodelar o antigo sem, contudo, tirar-lhe aquele aspecto de tradição, que é o que lhe empresta o ar de...família.
Mas, afinal, que família é essa?
Se nos aventurarmos a dizer que é uma família clássica, com membros com funções definidas, arriscamos-nos a surgir anacrônicos; a até mais: como reacionários por, supostamente, não nos mostrarmos atentos para as diferenças, para a renovação dos papéis. Então, a família já é outra, já é uma que prescinde do estar junto, da obediência a uma autoridade sustentada, aqui, no provimento, única fonte, por vezes, de provisão, quando há tal fonte, e ali, no poder simbólico que ultrapassa o que sabemos, conscientemente, varando a inconsciência – e esta é um fundo de profundidade desconhecida, em que uma vara, aí entrando, não será capaz, por mais comprida, de nos dar noção, não exata, apenas aproximada, de onde estamos nos metendo ao cutucar o inconsciente com vara, por mais comprida, sempre curta.
Agora, vamos fantasiar um pouco! Deixemos que passem, diante de nossos olhos, retomando velhas experiências pessoais, ou fazendo nossas experiências de terceiros, reinventando-as, toda uma sequência: um jantar – pode ser um almoço –, família toda reunida, como se sua construção original, mesmo que isso contraria a natureza subtrativa do tempo, mantivesse-se intacta, tomando-se o cuidado de suprir uma ausência, para não deixar lugar vazio, com uma presença especialmente convidada, seduzida esta pelos apelos de que “já faz parte da família”. Cabeceira ocupada, cabeças desocupadas, ocupadas(?) apenas com distrações recíprocas. Pai com autoridade generosa. Mãe com modesta autonomia. Filhos em obediência transgressora (daria no mesmo se dissesse “em transgressão obediente”). Netos, se (já) houver, como reminiscência dos (próprios) filhos, por menos que os filhos, ora netos, se pareçam com seus pais, filhos do pai dessa família.
Na realidade, família é uma comunhão. Em verdade, hoje, o que chamamos de famílias, mesmo que a ela acrescentemos, antecipando-nos a possíveis contestações, “nova”, sem que saibamos, precisamente, dizer o que uma “nova família” (ou uma família nova) significa, o que tem de diferente, fora o passar do tempo, de famílias de outrora, não passa de um conjunto, algo frouxo, sem nós confiáveis, lassos nós, nós que jamais formam verdadeiramente laços, de individualidade que se reúnem, quando se reúnem, na impossibilidade de cada qual ter o seu canto, sem o aborrecimento da convivência.
Não que A Família anule os indivíduos que a formam, massacrando suas peculiaridades em nome de uma improvável convivência pacífica, porque, enfim, a paz (de uma família, de um individuo) não depende, exclusivamente, de uma livre e idiossincrática expressão de si mesmo. É que, agora, família é um nome genérico demais para um ausência quase total de similaridades: família são aqueles que vivem sob o mesmo teto; ou que guardam, ente si, a cor comum do sangue; ou que contam as mesmas histórias, com pequenas variações – o que pode não ser outra coisa se não o gosto pelos mesmos livros de ficção.
A base da sociedade, por mais que isso não seja caro a um discurso moralista, apologético, religioso, é, sobretudo, a aceitação do “contrato social”: esse ceder aqui, cobrar acolá, mantendo-se num equilíbrio precário, mas suficiente para se garantir um mínimo de convivência – se pacífica, isso já é outra história, sendo talvez, a tal paz, a maior das ficções. E um contrato assim, de adesão, do tipo aceitar-ou-largar, às vezes, é duro de se tolerar, particularmente quando se julga ceder demasiado em relação a uma contrapartida, ainda sob o próprio julgamento, aquém.
terça-feira, março 01, 2011
BACKUP
s mais “artísticos”, mesmo que não saibam dizer muito bem qual a “sua arte” nesta vida, torcem o nariz, como se, trancados num conservadorismo aristocrático, esconjurassem qualquer vanguarda (às vezes, só a releitura de uma “antiga velharia”), para a inteligência artificial, não aceitando nenhuma forma de pensamento (e creio poder, para não abusar das aspas, chamar assim) artificial – mas, para os mais conservadores, inclusive quanto ao uso das palavras: da inteligência artificial.
Isso é coisa de computador. E para mostrarem o perigo que é sair das (nossas) humanas configurações, um sistema caracteristicamente falho, sendo o uso da (nossa) humanidade, como desculpa para as falhas, uma das nossas mais marcantes características, lembram-nos de uma certa Odisseia no Espaço, sem perceberem, trancados em sua inteligência natural, o quanto, com isso, ao tempo em que ratificam a excelência do homem, quando este consegue isso, para a arte, legitimam a máquina.
Sem, no entanto, poderem escapar ao uso das máquinas, em geral, do computador, em particular (e para quanto não serve um, em "particular"!?), lançam mão, exibindo um tablet de última geração, espécie de vanguarda que, ao fim do dia em que nasceu, já dá sinais de senilidade irreversível, e argumentam que, ao menos, usam-no em nome da arte, sem, contudo, que ainda se saiba qual é (qualé?!) mesmo essa sua arte: meros artifícios!
Por mais que falem de uma certa pedra – e o nome é esse mesmo –, herança dos antepassados, sobre a qual, com “lápis” apropriado, escrevem, nesse tipo de caderno pré-papiro, embora já de um tempo em que o papel era comum, sendo uma tecnologia bem avançadinha, não deixam de criar pontos de restauração, para o caso de algo acontecer ao sistema e ser necessário voltar-se atrás.
E onde, se não em nós próprios, nessa máquina que somos, e não falo isso apenas em relação ao “hardware”, ao corpo, dissociando-o daquilo que, com nomes diversos, ora laicos, ora nem tanto, ora ainda muito nem-tanto, crê-se como sendo a alma do negócio que somos, encontramos, com updates agendados, esse voltar atrás, esse ir lá, recuando, açoitados pelo desejo de poder, recuperado o ponto anterior, (re)começar dali, esquecendo-nos de tudo o que aconteceu a partir daquele ponto, prometendo-nos, apesar da facilidade que um novo programa nos oferece, abrir qualquer aplicativo, concluindo que é melhor permanecer no certo(?), o que não elimina a possibilidade de vírus, já que, então, confunde-se o certo com o duvidoso que é uma situação, mesmo que perigosa, tão-só porque a ela já nos adaptamos, do que, como se máquinas e homens não fossem alimentados de riscos “incalculáveis”, bancando os avançados, os vanguardistas, querermos dá um passo (muito) adiante, fiando-nos nas promessas, em língua estrangeira ou mesmo em vernáculo, que nos cobram, ao fim, um ritual “aceito”, “concordo”: OK!
Deixando, ora, a máquina de lado (porque vimos, ao lado, uma outra, que faz a nossa parecer uma pedra-de-escrever), envergonhamos-nos de criar pontos-de-restauração, e mais ainda de tentarmos, mesmo sabendo que aquela memória é pura arte da linguagem, voltar atrás, com toda uma leva de conservadores que não acreditam em backup, de outros tantos vanguardistas que não admitem que, com tanta arte à frente, queira-se voltar atrás, recuperando-se um ponto que, por já passado, morto está.
E todos sabemos o que pode acontecer. Sei lá com que tipo de inteligência agindo – se a mais natural, com seus vícios típicos, ou se a artificial, com seus riscos característicos (não é mesmo, HAL?) –, mas, diante de uma falha, os com cabeça mais no lugar ou desligam a máquina e, artificialmente, dizem que não vão por ela se deixar dominar, recorrendo, sem se darem conta disso, a outra diversão, a outra máquina, ou, os que são cabeça-quente, têm de lutar contra a vontade de atirar a máquina pela janela, ou contra a parede, mas, pensando bem, o que mostra que esse cabeça-quente tem a sua cabeça no lugar, lembrando-se (recuperando, em sua memória, um certo ponto) o quanto isso lhe custou, o quanto há de lhe custar, desliga a máquina, e tenta, com graus variáveis de sucesso, também se desligar.