rofetas parecem ser coisa nossa – e não estou afirmando que Sílvio Santos também o seja –, enquanto que do outro lado do mundo, lado que também conhece seus domingos, com as rotinas de sempre, os sábios, quando não são conhecidos, simplesmente (e a simplicidade, para eles, é já uma sabedoria), por sábios, são chamados de filósofos, sem se importarem, provavelmente, com uma maiúscula que os eleve, no nome, aos píncaros do saber: eu, só por conhecer tal palavra – píncaro – já me dou por satisfeito, exibindo meu conhecimento do mundo, enchendo a boca para mostrar o tanto que (já) sei.
É de lá, de desse lado que não é o de cá, que vêm palavras que, seja por virem de onde vêm, seja porque encerram, verdadeiramente, uma sabedoria, afirmam que O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS: de cara, um alívio, pois se ele não tem gostos próprios, todos nós estamos, então, no mesmo barco, ainda que, por vezes, expansivo como é o universo, essa embarcação em que fomos colocados, a nossa revelia, pareça ora fazer água, estando à deriva, ora, sem que saibamos que horas são, que o barco segue – mas, para onde, afinal?
Como as primeiras impressões, contra as expectativas de alguns que se querem filósofos, só por serem as primeiras, não têm sempre razão, aquilo que se percebeu, de cara, pode se transformar, ao se virar de costas, olhando-se o verso dessa prosa. Não tendo preferências, o universo não conspira, necessariamente, a nosso favor, já que isso seria contradizer suas não-preferências.
Se uma fortuna se acumula, num prêmio que requer apostas para que se se aposse dele (e tal acúmulo, caso o universo tivesse preferências, eu diria, seria o cúmulo do seu sadismo), os desvalidos, tirando do bolso furado um troco que lhes fará falta, apostam, julgando que por serem assim, terão o universo a seu favor; e se veem, na fila dessa possibilidade, alguém que aposta alto, sem que isso lhe faça grande falta, com a perspectiva de ter ainda mais (o que lhe permitirá apostar cada vez mais), os desvalidos, intimamente, como se conspirassem de si para si, acreditam que, já tendo o que têm aqueles outros, eles próprios têm, nessa fila, prioridade – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se se ama (e não a si), e esse amor continuado não encontra a devida correspondência, numa associação entre amor e dor que vai além da pobre rima, encontrando-se quem, julga esse amante contumaz, conforma-se com sua maneira de amar, concentrando em si, esse objeto, a imagem que faz do amor(-)perfeito – que, sabem disso mesmo os botânicos amadores, não é nenhuma flor –, observando, em volta, quem dá tão pouco valor ao amor, acredita, sim, que é para si que aquele (objeto do amor) existe, e para mais ninguém, até apelando para certas(?) forças cósmicas a seu favor – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se se passa, nesta vida – tanto do lado de cá, quanto do outro lado do mundo – por poucas e boas, querendo-se, com isso, dizer que se passou por muitas nada-boas, ou por algumas boas, no entanto, bem poucas, quase a não deixarem lembranças, e, de repente (algo que não faz qualquer sentido para o universo), acha-se numa boa, acredita-se que, dessa vez, a coisa não será pouca, mas, já sendo boa, será muita, será muito boa, por bastante tempo, não se podendo compreender que essa extensão das coisas boa e duradoura só ocorra para os outros que, indo de cá para lá, conhecendo não apenas este lado do mundo, mas também já o lado de lá, nunca passaram por poucas e boas, ou, se passaram, passaram pouco, quase a não lhes deixar lembrança – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se eu fosse – profeta ou filósofo que não sou – o dono do mundo, o senhor do universo, também eu não teria preferências: para quê, se sou o que sou? Como não, não que não seja o que sou, mas, como não sou, não sendo o que não sou, dono de nada, senhor de coisa nenhuma tenho, sim, minhas preferências: isso, no entanto, não vale de nada; não interfere na ordem das coisas, no andar da carruagem, no girar do mundo, no passar do tempo, nem nas não-escolhas do universo – que, como se sabe, NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
sábado, outubro 01, 2011
EM QUE MUNDO NÓS ESTAMOS?!
quinta-feira, setembro 01, 2011
HÁ MALAS QUE NUNCA VÊM
inventor das malas com rodinhas talvez tenha sido, um dia, mala-sem-alça, não se descartando a real possibilidade de que tenha sido uma mala mesmo, igualmente “desalçada”, crendo que, quem sabe, com isso, deixaria de ser, por aplicado às (outras) malas as tais rodinhas, facilitando a vida até de outras “malas”, uma sem alça, porque para um mala, mesmo que se saiba da importância de um suporte pelo qual segurar as mala, ter alça significa muito mais do que uma necessidade elementar, quer dizer que esse mala não é sem alça, como dele se diz.
Eu, cá comigo, sem saber a que me dirijo, creio que as rodinhas, tão elogiadas, apesar dessa sua forma arredondada, fora dos padrões estéticos mais desejados, só conseguiram acrescentar a esses(as) malas o que elas já não tinha, ou seja, as alças, sem que, assim, malas-sem-alça, com elas, passassem a ser algo marcadamente diferente daquilo que são: malas!
Nostálgico como sou – e isso é um passo seguro para, em conversas futuristas, ser considerado, à parte a presença ou não da respectiva alça, um(a) mala –, não resisto em dizer bons tempos aqueles em que malas, caras, não eram descartáveis, embora ainda não tenhamos chegado ao ponto (será de ônibus?) de descartá-las, ao fim de cada viagem. Mas é que, antes, as malas duravam muito, chegando, quando não se extraviavam pelo caminho, a passar de pai para filho, ainda que, acesas então outras expectativas quanto à herança paterna, ao se saber do espolio, lá consigo, o herdeiro, mal contendo a decepção, pensasse, a respeito do autor desse testamento: que mala!
E já que me fiz, aqui, mala, e tão pesada que não adiantaria muito ter alça, valendo-me das rodinhas, estufo ainda mais ao recuar no tempo, sem chegar, contudo, ao tempo das diligências, mas parando naquele em que mala, na verdade, chamavam-se de baús: e como ninguém pensou em lhes acrescentar uma alça, o que, à época, poderia significar um avanço comparável à invenção da roda – sem falar, porque isso já seria quase uma experiência de ficção científica, dada a distância no tempo, das rodinhas, que fariam um bem enorme, se não aos baús, a quem, então, os carregava, sem sequer conhecerem, em tais dias, para murmurarem, entredentes, tendo como alvo o dono do baú, a palavra “mala”.
Agora, é assim. De cá para lá, ou ao contrário, sem que isso altere, significativamente, o sentido em que se anda, rodinhas para todos os lados; malas sendo arrastadas por uma mão, enquanto que com a outra se arrasta um pirralho qualquer, sem alça, e que nem tem rodinhas, para facilitar esse transporte – um evidente erro de cálculo de quem inventou os pirralhos.
Como não fui eu que inventei as malas, como não tenho pirralho para carregar, como não tenho com que lutar contra as rodinhas, nem tenho coragem de levantar bandeira a favor dos baús, sem também, a essa altura, expectativa de alçar vôo, deixo-me arrastar pelo tempo: às vezes, é como se eu tivesse, em mim, rodinhas, deslizando, sem perceber os atritos; noutras, são tantos os deslizes que, aos solavancos, até o tempo, por me considerar tão sem alça, começa a me deixar de lado, com o risco de vir a acabar, enquanto dure o material da mala de que sou feito, num achados-e-perdidos qualquer.
segunda-feira, agosto 01, 2011
LÁ-LÁ-LÁ-LÁ
stando aqui, e sempre com esta minha cabeça em outro lugar, desejo, porque assim será melhor para mim, estar lá, mesmo que aqui já me encontre bem. Deixo-me, então, levar pela cabeça e, abandonando as garantias d’aqui, vou, se medir os riscos dessa viagem, como se entrasse, de cabeça, numa aventura, incerta como são, por definição, as aventuras, por mais que se as cerque com cuidados, mesmo é para lá.
Passemos, por ora, por cima do percurso, dos seus acidentes – das quedas eventuais e dos levantares necessários ao seu devido prosseguimento –, e demos já como terminada a viagem. Então, encontro-me aqui, quer dizer, lá, esse lugar a que assim chamava, quando eu estava ainda lá, ou seja, naquele lugar chamado, então, de aqui. Do lado de cá, aqui, num lugar que já fora lá, agora, desejo voltar para lá – como se eu já não estivesse aí –, mesmo sabendo que esse tal lá é só o nome, a distância, daquele velho conhecido aqui, desconfiando, inclusive, de que, chegando lá, e o chamando, de novo, de aqui, poderei, como preso de um círculo, desprezando a segurança, apesar de já ter feito esse caminho, sonhar, novamente, com o que chamarei, então, de lá, e que não passa deste aqui, deste lugar em que ora estou, tendo, como o fiz, saído de lá por não gostar daquele aqui, aspirando a este aqui que via, de lá, como um lá promissor.
Dito assim, fica provado que não tenho mesmo a cabeça (muito) no lugar: mas, eu não a tenho é sempre no mesmo lugar, porque, afinal, se há o que pode criar raízes, devem ser os pés, pela proximidade com o chão, e não a cabeça, que, pela aproximação, deve estar nas nuvens.
A vida de todos nós é um contínuo lá-e-cá, ainda que se leve uma vida lenta, sem tantas idas e vindas, pois desejar o lá daqui e, de lá, aqui, desejar, insistentemente, o lá, velho aqui de antes da partida, é uma constante, e podemos fazer isso dentro do nosso próprio quarto, sem nos deslocarmos, sem, aparentemente, sairmos do (nosso) lugar, sem arrancarmos raízes, pé ante pé, bastando que a cabeça permaneça onde está, no mesmo lugar, e que é não estar sempre aqui ou lá, mas lá e cá, cabeça nas nuvens, sempre a sonhar com um lugar que seja melhor.
Onde, então, a alegria de viver, diante dessa eterna insatisfação com o lugar em que se está? Ela talvez esteja no meio do caminho. Não exatamente na metade dessa estrada, e sim entre o aqui ao qual, estando lá, de lá haveremos de chamar, e o lá, visto, assim, daqui.
Quanto maior a distância entre este aqui e aquele lá, ou, mudando tudo de lugar, para tudo igual ficar, entre aquele lá e este aqui, mais possibilidade de se se alegrar com o caminho há, não esquecendo, contudo, que elastecer a distância pode aproximar-nos não só das alegrias, como das surpresas desagradáveis – e, nesse caso, se estivermos ainda próximos daquele aqui recém-despedido, e a distância, muita até, daquele lá onde pretendemos chegar, pode-se voltar para o aqui, embora, por mais perto que já estejamos, chamaremos, de onde estivermos, de lá. No caso de já termos andado muito e já vencido boa parte do caminho, se as surpresas não nos agradarem, tão próximas de lá, e mais sensato (ao menos, para uma cabeça que esteja no seu devido lugar) nos apressarmos, para logo estarmos lá, batizando, então, esse lugar de aqui, e aí fincando nossa bandeira.
Porém, com ou sem surpresas (se forem as mesmas, já não há de nos surpreender), lá, se o desejo de voltar para aquele conhecido aqui for grande, eis-nos com os pés na estrada, cabeça, resistentemente, nas nuvens, e pé sem raízes criar.
Incessante vaivém! O que daí de pode tirar como lição? Com a cabeça que tenho, jamais no seu lugar, que não se espere que eu tenha aprendido coisa alguma para aqui contar – melhor é deixar isso, de uma vez por todas, para lá. Também não adianta refazer os meus passos, partindo de um aqui, em direção a um lá, porque cada pé, enraizado na própria história, faz sempre seu caminho, ainda que percorra uma estrada que não seja já tão original.
É preciso que cada um de nós viva, aqui, seus próprios desejos de chegar lá; de, lá, voltar para aquele lá/aqui, e, assim, ir pavimentando mais um caminho. É verdade que nem todos precisam não ter, como eu, a cabeça no lugar, mas é interessante não deixar de considerar que desejar e ter a cabeça no lugar é como criar profundas raízes aqui, sem nunca ter ido lá: uma segurança para os pés, sem dúvida, no entanto, juntamente com eles, tão bem fixados aí, ficam o tronco e a cabeça: do tronco, pode-se até o peito sossegar, mas a cabeça, nas nuvens, tão perto de lá, não há de se contentar e, sem poder sair de onde está, quererá estar sempre em outro lugar.
sexta-feira, julho 01, 2011
oDIAda LIBERDADE
“
erder a conta” é quase sempre uma expressão meramente retórica, a não ser, talvez, para náufragos presos numa ilha ou para presos ilhados, mesmo que em terra firme, dos seus semelhantes ainda em liberdade – porque as celas estão cheias de “náufragos” a eles iguais. O preso em questão já não se lembrava da primeira vez que fora apresentado, sem nenhuma cerimônia, nesse rito de iniciação, ao xadrez no qual haveria, com o tempo, além de sucessivas fugas e recapturas, de se tornar algo bem próximo de um mestre nesse “jogo”.
Sem conhecer filosofias que legitimassem a fuga como um ato próprio (sinal de uma psicologia saudável) à sua condição de preso, fugir a primeira vez, e foi capturado; fugiu outras (ele diz que dessas vezes já perdeu a conta, parando, não sabe exatamente em que vez, de fazer essa contabilidade nas paredes da cela, já sobrecarregadas com os primários e primeiros registros do tempo, seja do tempo já corrido, seja do tempo que ainda falta, quem sabe, para uma outra fuga, com sua, quase consequente, recaptura), e foi igualmente reconduzido ao que parecia mais seu (verdadeiro) lar do que o seu verdadeiro lar, a respeito do qual já nem se recorda se lá viveu, de verdade, mais se lembrando de suas prisões. Tanto que, quando lhe aparece na lembrança esse lar, envolto em névoas suficientes para que ele duvide de sua realidade, surge-lhe sempre com inverossímeis, a seu ver, paredes imaculadas, para ele, evidência confiável de que isso não é senão uma casa de fantasia onde nem mesmo o tempo passa, aumentando, assim, seu aspecto fantástico.
Das primeiras vezes, podia-se-lhe perdoar as fugas amadoras e o ser sempre apanhado, quase que imediatamente, sem que houvesse tempo sequer para que um outro preso – e o mundo está “cheio” deles – apagasse seus rastros, substituindo-os pelos próprios, em fuga, começando, do primeiro traça na parede, a contar o tempo, tal qual um relógio que, então parado, dispara, açoitado pela corda que lhe aplica golpes ritmados, a cada segundo.
Porém, com a sequência de fugas, como explicar, experiência acumulada, o insucesso em série desse preso? Aí é que está: será mesmo que ele não era bem-sucedido?
Vejamos! Embora dissesse para si que queria fugir, evitando contar isso para os outros (presos?), excluindo aqueles para os quais é necessário antecipar os planos para, através dos olhares mais covardes, sentir-se assim admirado, o que lhe revigora a força, eventualmente, combalida por tantas idas e vindas, tramando planos cada vez com menos furos, deixava, talvez inconscientemente, pistas a sua volta, atrás de si, possivelmente até a sua frente, pistas estas que terminavam por levar à sua renovada prisão, preso, a cada recaptura, com menos esforço.
Justificar essa loucura: como? Preso, para não ficar louco, precisa manter a esperança, acreditar no futuro e sonhar: depois de muitas noites, os sonhos eróticos já não atendem às suas necessidades, e passa a sonhar com uma orgia de liberdade, mesmo que, no íntimo, saiba que coisa assim não passa de fantasia. No entanto, ainda que com alguma segurança de não ser capturado, fora da prisão, fazer o quê, sem, aqui, sequer entrarmos em considerações “sociais” sobre oportunidade para ex-encarcerados.
Assim, ele precisa voltar, tanto quanto não pode deixar de tentar fugir; afinal, é isso que o tem ajudado a passar o tempo. E o (seu) tempo passou!... Passou tanto que, apesar dos anos extras como punição a mais por suas frustradas tentativas de se evadir da prisão, ele – quem diria! – cumpriu tudo o que a lei lhe exigiu. Agora, sem nos fixarmos nas portas fechadas que há de encontrar do lado de fora, é de se perguntar se ele não tentará arrombá-las, forçando assim sua volta, uma volta atrás, para detrás das velhas grades, carregadas com suas impressões digitais.
Livre, o ex-preso, não mais um condenado evadido, deixando atrás de si seu “lar” de paredes sujas (porque o tempo nem sempre joga limpo, e deixa marcas indeléveis), para onde, agora, ir, se já nem se recorda onde fica seu (verdadeiro?) lar, nem mesmo, depois de tanto fantasiar uma casa imaculadamente branca, se tem mesmo onde morar?
Sem precisar olhar para trás, sente falta do faro dos cães e das pisadas de seus captores habituais, ora pisadas macias, no começo, para o flagrar desprevenido, ora duras pisadas, quando os guardas e o preso faziam já o mesmo jogo de gato-e-rato, numa simbiose quase parasitária. Começa, então, a espalhar sinais, iludido de que, de surpresa, vão querer levá-lo de volta. Mas, nada! Tudo o que consegue é um guarda que dele se aproxima (seu coração de preso-fugitivo contumaz bate mais forte, diante de tal aproximação) e, com gentileza de ficção, pede-lhe que não suje a rua com as pistas que quer ali deixar, indicando-lhe um lugar onde poderá depositá-las, civilizadamente: o lixo.
Só os presos de primeira viagem se animam com o discurso sobre a liberdade de ir e vir; quem muito fugiu, com o tempo sempre no seu calcanhar, farejando até os artifícios cosméticos que são usados para enganar esse guarda-temporal, sabe que ir e vir é da natureza do homem, porém, não há verdadeira liberdade, se não se puder, não importando se se está ou não fugindo, ficar, dando um tempo nas fugas e nas prisões – que é do que é feita a liberdade de cada um de nós.