e rir é mesmo o melhor remédio, para que uma cura definitiva, se se pode passar a vida inteira rindo, cronicamente, e não em surtos irregulares, ainda que agudos, de gargalha?
E isso que digo aqui não é, mesmo que pareça, contradizendo o que ora digo, nenhuma piada, nem, mal disfarçada, propaganda dos Doutores do Riso: isto é só meu jeito sério de lançar mão de palavras fáceis, embora, daqui por diante, tudo vá-se complicar – e se tal complicação se refere ao corpo em questão, que bom!, porque assim será preciso muito mais remédio, doses generosas (ainda que se saiba o quanto a indústria – de remédios, de riso – lucra(m), e não lucra(m) tanto por ser(em) generosa(s)) de riso.
Pena que eu próprio já não tenha remédio, sem sequer uma “droga de graça”, espécie de amostra-grátis de uma velha anedota, agora, com nova embalagem, mesmo que eu tenha-me esforçado para sintetizar o riso em laboratório, no meu fundo de quintal. Porém, os efeitos colaterais dessas experiências risonhas, mas com a seriedade que exigem, foram uma tristeza só: o que é tristeza em dobro, pois, além de já serem essa tristeza, é ainda uma tristeza...só. Os resultados deixaram claro meu fracasso já no fato desse remédio ter causado lágrimas, quando se esperavam risos sequenciados (então, eu não desconfiava de que tanto se pode rir com os olhos, a quase os cerrar, quanto é possível chorar, por dentro, mantendo um sorriso nos lábios).
Dito desse jeito, soa a mentira – e talvez seja só um autoengano, como um desses placebos, miragem miraculosa num oásis feito de farinha, mas que, encontrando acolhida na vontade de se curar, passa a agir como se concentrasse em si dose elevada do princípio ativo.
É ou não é para se morrer de rir usar uma expressão assim: se rir já é o remédio, a esperança de dias melhores, só se pode dele morrer ou por se ter tomado um falso remédio (embora tenha-se rido com “verdadeira sinceridade”) ou por tê-lo feito (não o remédio, mas a sua ingestão) em doses erradas – de menos, a ponto de ter alertado os lábios para um novo riso a vir... E ele não veio, deixando os lábios na espera, na ilusão de uma sonora gargalhada a aliviar os males, ou doses exageradas, levando a um riso descontrolado, já que o valor desse remédio (alguns, mais ingênuos, ainda dizem que rir é de graça: mas a coisa não é bem assim) está não apenas em rir, simplesmente, e sim em também senti-lo em todas as suas sutilezas, não fazendo, como as crianças gostam (quando não gostam do remédio) de fazer, prendendo a respiração para não saborearem(!) os amargos da vida – adultos, quando têm testemunhas por perto e não podem dar-se ares de criança, preferem tomar o remédio, respirando fundo, de um gole só.
Aqui, é necessário acabar com certos mitos, mesmo que isso signifique desautorizar nossos avós, e até os avós deles, nossos não-sei-o-quê, alguns mitos que envolvem todas as terapêuticas: isso de que quem ri por último...só pode levar mesmo ao fim. O ideal é rir logo, de cara, não postergando a graça, não tendo medo de, sendo pioneiro, ser, posteriormente, imitado, até por imitadores sem muita graça, ou ainda de, rindo antes de todos os outros, parecer que tem o riso solto (um tipo de remédio liberado) ou que não entendeu, convenientemente, a piada.
Deixemos os sisudos de lados, guardando sua atitude calculadamente conspícua, fazendo-se de imunes a piadas vulgares, prendendo, no entanto, a gargalhada (como se faz com um remédio que, de imediato, deixa manchas na pele, mas que, ao se sentir seu efeito, fá-la, irremediavelmente, sadia)! Deixemos que torçam seu nariz (há remédios que não cheiram lá muito bem, como há perfumes que causam mal-estar)!
Ao sentirmos que é preciso nos medicar, gargalhemos, com vontade. Se quisermos nos prevenir, mantenhamo-nos em estado de graça, ainda que ver “doentes incuráveis” por aí não seja um bom motivo para se rir. Mas, lembremo-nos que há “doentes assim” que só o são por não terem coragem de rir, querendo, ao desfilar seus males, angariar certa solidariedade que esperam que venha a se expressar na decisão de abandonar o riso, como se desacreditasse nos remédios, juntando-se, como novos tristes, a eles, àquela sua tristeza (de dar dó), uma tristeza que não é “só” (só) porque eles, tristes, preferem ser tristes uns juntos dos outros.
E vendo que há gente assim, não dá uma vontade louca de rir, mesmo que não se esteja, nesse momento, precisando de remédio assim?!
terça-feira, novembro 01, 2011
AÍ O PAPAGAIO DISSE...
sábado, outubro 01, 2011
EM QUE MUNDO NÓS ESTAMOS?!
rofetas parecem ser coisa nossa – e não estou afirmando que Sílvio Santos também o seja –, enquanto que do outro lado do mundo, lado que também conhece seus domingos, com as rotinas de sempre, os sábios, quando não são conhecidos, simplesmente (e a simplicidade, para eles, é já uma sabedoria), por sábios, são chamados de filósofos, sem se importarem, provavelmente, com uma maiúscula que os eleve, no nome, aos píncaros do saber: eu, só por conhecer tal palavra – píncaro – já me dou por satisfeito, exibindo meu conhecimento do mundo, enchendo a boca para mostrar o tanto que (já) sei.
É de lá, de desse lado que não é o de cá, que vêm palavras que, seja por virem de onde vêm, seja porque encerram, verdadeiramente, uma sabedoria, afirmam que O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS: de cara, um alívio, pois se ele não tem gostos próprios, todos nós estamos, então, no mesmo barco, ainda que, por vezes, expansivo como é o universo, essa embarcação em que fomos colocados, a nossa revelia, pareça ora fazer água, estando à deriva, ora, sem que saibamos que horas são, que o barco segue – mas, para onde, afinal?
Como as primeiras impressões, contra as expectativas de alguns que se querem filósofos, só por serem as primeiras, não têm sempre razão, aquilo que se percebeu, de cara, pode se transformar, ao se virar de costas, olhando-se o verso dessa prosa. Não tendo preferências, o universo não conspira, necessariamente, a nosso favor, já que isso seria contradizer suas não-preferências.
Se uma fortuna se acumula, num prêmio que requer apostas para que se se aposse dele (e tal acúmulo, caso o universo tivesse preferências, eu diria, seria o cúmulo do seu sadismo), os desvalidos, tirando do bolso furado um troco que lhes fará falta, apostam, julgando que por serem assim, terão o universo a seu favor; e se veem, na fila dessa possibilidade, alguém que aposta alto, sem que isso lhe faça grande falta, com a perspectiva de ter ainda mais (o que lhe permitirá apostar cada vez mais), os desvalidos, intimamente, como se conspirassem de si para si, acreditam que, já tendo o que têm aqueles outros, eles próprios têm, nessa fila, prioridade – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se se ama (e não a si), e esse amor continuado não encontra a devida correspondência, numa associação entre amor e dor que vai além da pobre rima, encontrando-se quem, julga esse amante contumaz, conforma-se com sua maneira de amar, concentrando em si, esse objeto, a imagem que faz do amor(-)perfeito – que, sabem disso mesmo os botânicos amadores, não é nenhuma flor –, observando, em volta, quem dá tão pouco valor ao amor, acredita, sim, que é para si que aquele (objeto do amor) existe, e para mais ninguém, até apelando para certas(?) forças cósmicas a seu favor – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se se passa, nesta vida – tanto do lado de cá, quanto do outro lado do mundo – por poucas e boas, querendo-se, com isso, dizer que se passou por muitas nada-boas, ou por algumas boas, no entanto, bem poucas, quase a não deixarem lembranças, e, de repente (algo que não faz qualquer sentido para o universo), acha-se numa boa, acredita-se que, dessa vez, a coisa não será pouca, mas, já sendo boa, será muita, será muito boa, por bastante tempo, não se podendo compreender que essa extensão das coisas boa e duradoura só ocorra para os outros que, indo de cá para lá, conhecendo não apenas este lado do mundo, mas também já o lado de lá, nunca passaram por poucas e boas, ou, se passaram, passaram pouco, quase a não lhes deixar lembrança – mas, como se sabe, O UNIVERSO NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
Se eu fosse – profeta ou filósofo que não sou – o dono do mundo, o senhor do universo, também eu não teria preferências: para quê, se sou o que sou? Como não, não que não seja o que sou, mas, como não sou, não sendo o que não sou, dono de nada, senhor de coisa nenhuma tenho, sim, minhas preferências: isso, no entanto, não vale de nada; não interfere na ordem das coisas, no andar da carruagem, no girar do mundo, no passar do tempo, nem nas não-escolhas do universo – que, como se sabe, NÃO TEM PREFERÊNCIAS.
quinta-feira, setembro 01, 2011
HÁ MALAS QUE NUNCA VÊM
inventor das malas com rodinhas talvez tenha sido, um dia, mala-sem-alça, não se descartando a real possibilidade de que tenha sido uma mala mesmo, igualmente “desalçada”, crendo que, quem sabe, com isso, deixaria de ser, por aplicado às (outras) malas as tais rodinhas, facilitando a vida até de outras “malas”, uma sem alça, porque para um mala, mesmo que se saiba da importância de um suporte pelo qual segurar as mala, ter alça significa muito mais do que uma necessidade elementar, quer dizer que esse mala não é sem alça, como dele se diz.
Eu, cá comigo, sem saber a que me dirijo, creio que as rodinhas, tão elogiadas, apesar dessa sua forma arredondada, fora dos padrões estéticos mais desejados, só conseguiram acrescentar a esses(as) malas o que elas já não tinha, ou seja, as alças, sem que, assim, malas-sem-alça, com elas, passassem a ser algo marcadamente diferente daquilo que são: malas!
Nostálgico como sou – e isso é um passo seguro para, em conversas futuristas, ser considerado, à parte a presença ou não da respectiva alça, um(a) mala –, não resisto em dizer bons tempos aqueles em que malas, caras, não eram descartáveis, embora ainda não tenhamos chegado ao ponto (será de ônibus?) de descartá-las, ao fim de cada viagem. Mas é que, antes, as malas duravam muito, chegando, quando não se extraviavam pelo caminho, a passar de pai para filho, ainda que, acesas então outras expectativas quanto à herança paterna, ao se saber do espolio, lá consigo, o herdeiro, mal contendo a decepção, pensasse, a respeito do autor desse testamento: que mala!
E já que me fiz, aqui, mala, e tão pesada que não adiantaria muito ter alça, valendo-me das rodinhas, estufo ainda mais ao recuar no tempo, sem chegar, contudo, ao tempo das diligências, mas parando naquele em que mala, na verdade, chamavam-se de baús: e como ninguém pensou em lhes acrescentar uma alça, o que, à época, poderia significar um avanço comparável à invenção da roda – sem falar, porque isso já seria quase uma experiência de ficção científica, dada a distância no tempo, das rodinhas, que fariam um bem enorme, se não aos baús, a quem, então, os carregava, sem sequer conhecerem, em tais dias, para murmurarem, entredentes, tendo como alvo o dono do baú, a palavra “mala”.
Agora, é assim. De cá para lá, ou ao contrário, sem que isso altere, significativamente, o sentido em que se anda, rodinhas para todos os lados; malas sendo arrastadas por uma mão, enquanto que com a outra se arrasta um pirralho qualquer, sem alça, e que nem tem rodinhas, para facilitar esse transporte – um evidente erro de cálculo de quem inventou os pirralhos.
Como não fui eu que inventei as malas, como não tenho pirralho para carregar, como não tenho com que lutar contra as rodinhas, nem tenho coragem de levantar bandeira a favor dos baús, sem também, a essa altura, expectativa de alçar vôo, deixo-me arrastar pelo tempo: às vezes, é como se eu tivesse, em mim, rodinhas, deslizando, sem perceber os atritos; noutras, são tantos os deslizes que, aos solavancos, até o tempo, por me considerar tão sem alça, começa a me deixar de lado, com o risco de vir a acabar, enquanto dure o material da mala de que sou feito, num achados-e-perdidos qualquer.
segunda-feira, agosto 01, 2011
LÁ-LÁ-LÁ-LÁ
stando aqui, e sempre com esta minha cabeça em outro lugar, desejo, porque assim será melhor para mim, estar lá, mesmo que aqui já me encontre bem. Deixo-me, então, levar pela cabeça e, abandonando as garantias d’aqui, vou, se medir os riscos dessa viagem, como se entrasse, de cabeça, numa aventura, incerta como são, por definição, as aventuras, por mais que se as cerque com cuidados, mesmo é para lá.
Passemos, por ora, por cima do percurso, dos seus acidentes – das quedas eventuais e dos levantares necessários ao seu devido prosseguimento –, e demos já como terminada a viagem. Então, encontro-me aqui, quer dizer, lá, esse lugar a que assim chamava, quando eu estava ainda lá, ou seja, naquele lugar chamado, então, de aqui. Do lado de cá, aqui, num lugar que já fora lá, agora, desejo voltar para lá – como se eu já não estivesse aí –, mesmo sabendo que esse tal lá é só o nome, a distância, daquele velho conhecido aqui, desconfiando, inclusive, de que, chegando lá, e o chamando, de novo, de aqui, poderei, como preso de um círculo, desprezando a segurança, apesar de já ter feito esse caminho, sonhar, novamente, com o que chamarei, então, de lá, e que não passa deste aqui, deste lugar em que ora estou, tendo, como o fiz, saído de lá por não gostar daquele aqui, aspirando a este aqui que via, de lá, como um lá promissor.
Dito assim, fica provado que não tenho mesmo a cabeça (muito) no lugar: mas, eu não a tenho é sempre no mesmo lugar, porque, afinal, se há o que pode criar raízes, devem ser os pés, pela proximidade com o chão, e não a cabeça, que, pela aproximação, deve estar nas nuvens.
A vida de todos nós é um contínuo lá-e-cá, ainda que se leve uma vida lenta, sem tantas idas e vindas, pois desejar o lá daqui e, de lá, aqui, desejar, insistentemente, o lá, velho aqui de antes da partida, é uma constante, e podemos fazer isso dentro do nosso próprio quarto, sem nos deslocarmos, sem, aparentemente, sairmos do (nosso) lugar, sem arrancarmos raízes, pé ante pé, bastando que a cabeça permaneça onde está, no mesmo lugar, e que é não estar sempre aqui ou lá, mas lá e cá, cabeça nas nuvens, sempre a sonhar com um lugar que seja melhor.
Onde, então, a alegria de viver, diante dessa eterna insatisfação com o lugar em que se está? Ela talvez esteja no meio do caminho. Não exatamente na metade dessa estrada, e sim entre o aqui ao qual, estando lá, de lá haveremos de chamar, e o lá, visto, assim, daqui.
Quanto maior a distância entre este aqui e aquele lá, ou, mudando tudo de lugar, para tudo igual ficar, entre aquele lá e este aqui, mais possibilidade de se se alegrar com o caminho há, não esquecendo, contudo, que elastecer a distância pode aproximar-nos não só das alegrias, como das surpresas desagradáveis – e, nesse caso, se estivermos ainda próximos daquele aqui recém-despedido, e a distância, muita até, daquele lá onde pretendemos chegar, pode-se voltar para o aqui, embora, por mais perto que já estejamos, chamaremos, de onde estivermos, de lá. No caso de já termos andado muito e já vencido boa parte do caminho, se as surpresas não nos agradarem, tão próximas de lá, e mais sensato (ao menos, para uma cabeça que esteja no seu devido lugar) nos apressarmos, para logo estarmos lá, batizando, então, esse lugar de aqui, e aí fincando nossa bandeira.
Porém, com ou sem surpresas (se forem as mesmas, já não há de nos surpreender), lá, se o desejo de voltar para aquele conhecido aqui for grande, eis-nos com os pés na estrada, cabeça, resistentemente, nas nuvens, e pé sem raízes criar.
Incessante vaivém! O que daí de pode tirar como lição? Com a cabeça que tenho, jamais no seu lugar, que não se espere que eu tenha aprendido coisa alguma para aqui contar – melhor é deixar isso, de uma vez por todas, para lá. Também não adianta refazer os meus passos, partindo de um aqui, em direção a um lá, porque cada pé, enraizado na própria história, faz sempre seu caminho, ainda que percorra uma estrada que não seja já tão original.
É preciso que cada um de nós viva, aqui, seus próprios desejos de chegar lá; de, lá, voltar para aquele lá/aqui, e, assim, ir pavimentando mais um caminho. É verdade que nem todos precisam não ter, como eu, a cabeça no lugar, mas é interessante não deixar de considerar que desejar e ter a cabeça no lugar é como criar profundas raízes aqui, sem nunca ter ido lá: uma segurança para os pés, sem dúvida, no entanto, juntamente com eles, tão bem fixados aí, ficam o tronco e a cabeça: do tronco, pode-se até o peito sossegar, mas a cabeça, nas nuvens, tão perto de lá, não há de se contentar e, sem poder sair de onde está, quererá estar sempre em outro lugar.