quarta-feira, fevereiro 01, 2012

DIGA AÍ







e me disseres, em resposta a uma explícita pergunta minha ou somente porque, por vontade própria, assim queres me dizer, com quem andas, à espera de que eu, de posse de tal resposta, conclua quem tu és, isso pode ser não mais do que uma armadilha em que eu terei caído, direitinho, na falsa crença de que basta saber quem são os companheiros de alguém para que já se conheça, desse modo, o próprio ser daquele que com eles anda, podendo ser, para tais companheiros, a companhia pela qual um outro avaliará quem é, de verdade, aquele que ora é companheiro, ora o que tem os seus próprios.

Para escapar desse laço, evito, mesmo que me digas, que insistas nesse ponto, com quem andas, de tirar minhas próprias conclusões; e se não me dizes nada, voluntariamente, aguardando que eu mesmo tome essa iniciativa, frustro-te, com receio de, em o fazendo, esteja, simultaneamente, pondo, tolo, o pé no laço, enredando-me na tal armadilha, urdida na confiança de que ou eu cederia à curiosidade de te perguntar com quem andas, concluindo o que, em geral, se conclui, com base nessas informações, ou que, na dúvida sobre se eu faria mesmo a fatídica pergunta, na confiança de que, dando-me, de mão-beijada, a informação, nomeando, um a um, todos os teus companheiros, habituados a andarem contigo, eu, inarredavelmente, concluísse, enfim, que tu és...

Mas, bem mais esperto pode estar sendo tu. Como? Eu, crendo-me, circunstancialmente, esperto, nego-me a tirar conclusões, se sei com quem andas, sabendo disso a minha própria revelia, ou sequer caio na tentação de te perguntar por teus companheiros, acreditando que, assim, descobrindo quem tu és, revele quem eu sou: alguém que confia, demasiadamente, no que o povo diz. Porém, contando já com minha autopresumida esperteza, na verdade, uma autoignorada tolice, ages de caso pensado, na certeza de que eu correria as léguas de te conhecer, a partir dos companheiros que tu tens, abrindo, então, espaço considerável para que descubras quem eu sou.

E tão perfeito foi teu laço, que, se eu te frustro, perguntando com quem andas, ou, ouvindo isso de ti, sem que te tenha perguntado nada, e, daí, concluindo quem tu deves ser, saberás quem sou; se não te frustro e, como já contavas com isso, nego-me a tal, ainda assim saberás, por isso, quem sou.

Se eu tivesse um pouco de tua esperteza, por essa armadilha que tão bem preparaste para mim, mesmo sem conhecer um só dos companheiros teus, sequer sabendo de que modo andas, se é que andas por aí, eu já saberia quem tu és. Como não – e prefiro, em nome da minha vaidade restante, não repetir que sou um tolo –, não sei quem és, não sabendo nem mesmo a quem, ora, dirijo-me, embora desconfie que tu, ao contrário, ou sabes muito bem quem sou, ou se não sabia até então, agora, não há mais dúvida. Minha vaidade, o pouco que dela resta, implora-te: guarda para ti quem sou, e não (o) contes para mais ninguém – principalmente, para mim mesmo.











domingo, janeiro 01, 2012

LA DOLCE VITA











oma açúcar! Diga não ao fel de uma alimentação sem graça, sem goma de mascar (as sem açúcar, pelo menos), sem o refinado prazer de consumir açúcar, mesmo que isso, mais do que os olhos, custe os dentes, que não deixam de estar na cara.

Com’a açúcar, com direito a um sono profundo, sem dar a impressão de estar consciente ou não – melhor não! –, sonhando com doces, que tanto sonho é um bom doce, quanto os melhores doces são um sonho, e até, já que não se controla tanto assim os (próprios) sonhos, uma ou outra gotinha de amargura, uma “pitada” de angostura, um fel que nos alerta, que nos diz já ser hora de acordar para a vida, adoçada artificialmente, com um gostinho de engana-tolos, tolos que somos para nos deixar enganar tanto por um discurso açucarado, quanto pelo amargo que abre a boca, a própria, para falar mal dos outros, da boca alheia, e, sobretudo, dos doces em geral, e do açúcar consumido, em particular, embora não guarde discrição a respeito do que diz, divulgando em público o que fazemos algo às escondidas, temerosos menos dos danos nos dentes, mais das sanções sociais, essa espécie de cala-boca em grupo, por termos sido, eventualmente, flagrados no ato, nessa preferência escandalosa pelo branco em pó – ainda por cima, como confeito –, em detrimento do, se não preto, mais escuros, que preferem, mascavos como gostam de ser chamados, a associação com o (tom) dourado.

Se se dá o sangue para viver, por que não se pode carregar as consequências de uma overdose necessária para se virar a página, quando o livro é pesado demais para se o folhear com a casualidade de uma história qualquer? Ou de um livro de receitas, ilustrado, só com doces, com um realismo que não ludibria somente os olhos, mas engana também a boca que, como se tocada no ponto certo, abre suas compo(r)tas e deixa a água correr solta, quase pingando, numa baba que não é exclusividade das moças mais derretidas, sobre a página que exibe uma compota de se admirar ajoelhado, devorando cada fibra do papel – e depois ainda dizem que ao açúcar refinado faltam as tais incensadas fibras, que ele são só calorias vazias de mais nutrientes, como se isso fosse pouco: digam isso a quem passa frio, a quem se arrepia só de pensar num doce, até nos mais bem-comportados, aqueles que, nada rebeldes, sem intenção de virarem a mesa, aceitam esse revisionismo constante, quase pedindo perdão por conterem açúcar, fazendo isso, porém, com um refinamento que é de amargar, duro de (se) aturar?

E falam na qualidade de vida para banirem o açúcar, como o inimigo visceral dos nossos dias, figadal mesmo, dos mais cruéis que se pode conceber em dias-de-fel, introduzindo uma sensaborona longevidade, uma expectativa de vida sem doces perspectivas, um viver só para contar a história sem sentido de só comer o permitido: isso lá é vida?!

Sequer se pode dizer que é uma vida filha-da-puta, porque esta, se não é de todo permitida, não é tão proibida assim, ainda que, no fundo, sobre-lhe fel. Mas quem paga (para viver essa vida, e todos nós o fazemos, desta ou daquela maneira, à vista, com dinheiro bom, ou com um viciado cheque sem fundos) pode exigir que a vida deixe de lado suas amarguras-vadias e ofereça, sabe-se lá tirado de onde (e eu lá quero saber disso!), o açúcar pelo qual se paga.

Enfim, entreguemo-nos – de bandeja, preferencialmente – à boa companhia dos doces em quantidade: por que falar em qualidade, se olho-de-sogra, visto de perto, não vale nada, mas, doce e coco recheando uma ameixa, com um cravo (como se fosse a menina-dos-olhos), é uma delícia, especialmente quando são muitos?

Entreguemo-nos ao açúcar bandido! Sejamos ainda mocinhos, com dentes perfeitos e crentes numa vida de dar água na boca, ou sejamos já daqueles que têm histórias amargas suficientes para um livro de receitas escrever, receitas de como viver bem, sem jamais chamar, meloso, de docinho de coco a um bem-querer filho-da-mãe, cuja mãe, na hora da vingança, sogra que é, chamaremos, olho no olho, de ameixa seca.





quinta-feira, dezembro 01, 2011

O JOGO DO PODER














Hierarquia dos coros dos anjos,
estabelecida pelo pseudo-Dionísio, no século VI


TRONOS
Rodas de fogo com asas em volta, cheia de olhos


ão é na cabeça em que o poder se assenta, embora seja por aí que ela passe, repasse, se acomode, ora criando dores, ora, mesmo ainda sem o poder de fato, dando prazer, só de pensar, apesar de ser ela o lugar ideal para se ser cingido por uma coroa, símbolo costumeiro de certo tipo que manda, extrapolando essa imagem em particular para se tornar uma marca, metáfora que seja, do atributo, às vezes auto-outorgado, de fazer e desfazer, em que pese alguns fazerem (o) bem e outros, podendo ser os mesmos, desfazerem (d)o mal.

Não está nas mãos de ninguém ter poder ao seu bel-prazer, ou, o que é raro, abrir mão dele. E o cetro que eventualmente carregam, ora mudado em espada de fio sempre recomposto, ora, o que nem sempre é uma mudança para melhor, em “pena” (quando, achando que podem, se põem a escrever, é de dar dó, é um deus-nos-acuda fazê-los crer no que disse La Bruyère: “A glória ou o valor de alguns homens está em escrever bem; o de outros, em não escrever”.

Aos pés é que não deve estar, já que os poderosos, ou aqueles que se candidatam ao poder, reservam-nos, seus próprios pés para, a altura da cabeça dos que, então dobrados, o poder é exercido, demonstrarem, assim, o quanto podem, o quanto podem fazer os outros se dobrarem, a ponto de sua cabeça, talvez silenciosamente cingidas de vergonha, tocar, em submissão contorcionista, os ditos pés do poder em pessoa.

Sendo assim, onde estará?

O poder, creio, longe de mim esse exercício altivo, mais costumeiramente, com o disfarce da “figuração”, da linguagem figurada, dobrado a tantos poderes que já nem sei estabelecer diferença entre os que são de verdade (e se o são, obrigam-nos mesmo a nos dobrar?) e os que não passam de mentira, de uma encenação sem poder de fogo suficiente para dobrar um homem de verdade, a não ser quanto este prefere dar valor à mentira do poderoso, por ser esse o caminho mais curto, se não para se tornar também (não um homem), um poderoso, ao menos angariar algumas benesses, o que não deixa de ser um poder, diante dos que, ou não se dobrando o suficiente ou não se tendo dobrado de forma nenhuma, angariaram a ira poderosa, está, e é nisso que creio, o poder em questão, assentado...no trono, e nada mais a dizer, para não entrar pelo cano, para não adentrar na fisiologia dos homens: poderosos em qualquer nível hierárquico, desprovidos de poder, com poderes além das humanas ambições - até porque sei eu o quanto, dobrando-se de cólica, o mais humilde dos homens também ambiciona o poder, ou o trono em que ele se assenta, para se assentar, submisso, porém, a um poder maior, e que não vem dos céus, que o faz parecer, a sós, um reizinho (de nada), mas, se flagrado em público nessa sua exibição de poder, aparece como o mais ridículo dos homens, sob os apupos dos seus semelhantes, todos eles conhecedores das idas e vindas desse tipo de poder, mas, circunstancialmente, sem cólicas, o que os deixa numa posição, ereta provavelmente, de olhar esse “rei de merda” do alto, tão súdito o outro
encontra-se de sua necsesidade de aliviar-se do peso de estar sempre a mandar: vá à merda!



QUERUBINS
Uma cabeça e duas asas; guardiães do paraíso


“Vistos” assim, que diferença faz? Uma só cabeça, como nós a temos, com a vantagem, nossa, de que podemos perdê-la: e eles? Ou podemos, simplesmente, dizer isso, justificando as asas que nos demos, asas estas que em outros devem, segundo nossa razão humana, ser aparadas, logo que deem mostra de se estarem expandindo além dos limites que lhes são próprios, como se se pudesse conjugar, na mesma imaginação, asas (para que te quero) e contenção (da liberdade).

Olhando ainda esse quadro (no gótico do século XIII, anjos eram belos, jovens, cheios de vida e graça, com grande nobreza e porte: ou seja, tudo com que os homens de hoje sonham), e, mesmo que haja outro ponto-de-fuga, mirando suas asas, é isso que nos diferencia: neles, supondo que não sejam apenas um recurso meramente pictórico, com função tão-somente estética, asas não são arte, pois tem um objetivo, que deve ser o torná-los, alados então, com trânsito livre nesse universo cada vez mais “engarrafado”, e quem sabe assim para que, já sem cara de anjo, os homens se esqueçam de que não têm mais, ainda que eventualmente jovens, a mesma beleza angelical que a quase nenhuma idade lhes dá, de que o tempo lhes tira do “cheio de vida” as gotas que, por serem isso, não parecem fazer falta numa contagem geral, mas que, individualmente, diminuem, progressivamente, a graça de viver; e quanto à nobreza e ao porte, o “engarrafamento” só mantém a pose e as atitudes nobres em quem tem natureza de anjo; e se neles é assim, asas em nós, ou nos fazem anjinhos de procissão, com “penas” de papel crepom, que não pesam nada em comparação com os outros papéis que nos esperam pela vida afora, ou nos dão aquela liberdade de imaginação que é a nossa vingança (tão humana como ela é) contra esses (outros) anjos, sempre jovens, belos, graciosos, imortais: atados ao que são, anjos não podem ser senão o que cada um é, enquanto que nós, enquanto cultivarmos essas asas, enquanto alimentarmos (com as próprias asas) a imaginação, poderemos ser homens infinitamente belos, poderemos ser anjos desgraciosos, poderemos esvarziar-nos de vida até (quase) a última gota e voltarmos a ficar cheios de pose, nobres aqui, homens sem nome acolá.


SERAFINS
Seis asas


Agora sim! Vai ser preciso muita imaginação, talvez mesmo juntar vários homens, dos que já têm, naturalmente, muita, para podermos sustentar, num só anjo, três pares delas.

Se anjos alados, o que parece ser uma expressão demasiado forçada, e não é, são uma “criação” do século V, frustrando quem sempre pensou que tudo houvesse sido criado na hora zero, hora agá da invenção deste mundo, de onde há de ter saído um com seis asas?

Pelo aparente excesso, ficamos tentados (expressão, para alguns de nós, inadequada, quando se fala de anjos, embora para outros apropriada, já que o mestre das tentações, tenha tido ou não suas asinhas cortadas, originalmente era um anjo) a dizer que tanta imaginação deve ser coisa dos nossos tempos. É preciso, porém, considerar que, sustentando esse raciocínio, nós só lhes acrescentamos, até com certo exagero, admito, algumas asas a mais, quem sabe apenas por um “motivo” artístico, já que é bem possível que elas não tenham mais função do que teria um só(?) par, mas que a grande ousadia inventiva, independentemente da quantidade, foi a coragem de pôr asas numa criatura, mesmo que, temerosos de continuar lhes chamando de homens, apesar de as termos moldado a nossa imagem e à semelhança que gostaríamos de cultivar, eternamente, tenhamo-las apelidado de anjos, no geral, e de serafins, no particular.

Particularmente, acredito que mais de um par, sobre meus ombros já carregados de papel (crepom), mais do que um exagero estético, sob o risco de tornar o belo uma caricatura monstruosa, se constituiria um fardo difícil de carregar, ainda que com tantas asas, em tese, fosse me sobrar imaginação, o suficiente para me reinventar como um homem qualquer, sem asas mesmo, como qualquer homem que carrega suas penas, nem sempre às costas, que carrega seus papéis, raramente nas costas, salvo os homens que vivem, sem nobreza, apesar de alguns manterem o porte, justamente, nessa injustiça que inventamos, sem nenhuma imaginação, de carregar papéis, nesse caso, papéis que não lhes pertencem, representações que não são suas, originalmente, falas mudas, frases sujas, silêncios reciclados.

Mas não estou aqui para falar de mim (o que eu posso ter tido de angelical, um dia, a sequência de dias se encarregou de levar, deixando-me, não sei se como uma recompensa ou se como uma pena que solta uma tinta indelével, apenas, na imaginação, com a expressão “cheio de vida”, que hoje me parece, e mais com o passar dos dias, cada vez mais vazia, mesmo que eu estufe o peito, simulando porte, que levante a cabeça, querendo emprestar-me uma nobreza que o próprio levantar dela faz desvanecer). Não estando aqui para isso, também não estou para encher a bola de anjos que têm tantas asas que, mesmo que eu as corte, para que eles caiam na real, não hão de lhes faltar imaginação.


DOMINAÇÕES
VIRTUDES
POTESTADES


Alvas até os pés, cintos de ouro e estrelas verdes;
sustentam na mão direita varinhas de ouro
e na esquerda, um selo com a letra inicial
do nome de Cristo


Pelo amor de Deus! Não há como negar, por mais que se queira condescender com criaturas assim, saídas, provavelmente, à mesma imaginação que nos gerou - o que poderia explicar a inclinação de alguns de nós para o acúmulo de detalhes, a sobreposição de acessórios, tudo isso encobrindo o que deveria permanecer o principal, escondendo, então, o anjo que (se) é em nome de uma visibilidade tão ao nosso gosto.

Alvas, fora nas “tribos” próprias, caíram de moda, embora, a meu ver, ainda cause efeito vê-las desabando, delicadamente, até os pés. Cintos, não! Recriados a cada estação, fora os que são clássicos, e que sempre dão no couro, a qualquer tempo, são sempre um acessório que se deve ter à mão: e todo “anjinho” que conheceu, em idade para isso, suas quedas, sabe o que é ver um homem, espécie de Deus, pelo tamanho que tem, com um cinto na mão, pronto a, sem ser artista, lhe dar novas funções, criando se não uma gritaria geral, uma, em particular. Mas, cintos de ouro é exposição demais, até para quem tem poder, até para quem pode se evadir rapidamente, recorrendo não aos próprios pés, mas às asas, ou ao poder de surgir e de desaparecer, por mais que permanecem na (nossa) imaginação. Até aí, passa. O que dizer, no entanto, de estrelas verdes, como uma ideia, até boa, mas que se expôs antes de se a ter amadurecido o bastante, desperdiçando uma imagem que, completa, poderia encantar, e que, às pressas, deixam a sensação de que algo, nesse figurino, não combina. Varinha à mão, seja qual for ela, faz de um anjo uma fada, comprometendo-lhe a reputação, por mais que se insista em dizer que anjos não têm sexo - mas devem ter lá a sua vergonha! Do selo, experiente em cartões-postais, prefiro passar ao largo; não por eles em si, apesar de não ser um colecionador dessas estampas, mas pelo nome que encerram - agir diferente, seria brincar com fogo, mesmo que esse elemento pertença, na nossa imaginação dada a tons avermelhados, a outro “elemento”.


PRINCIPADOS
ARCANJOS
ANJOS
vestes de soldado, cintos de ouro, dardos na mão


Pelos cintos, passo batido, para não apanhar ainda mais. Pelas vestes, preferindo escapar a esses soldados, cujo poder desconheço, e não quero experimentar em minha própria pele, como cobaia de guerra, passo, perto o bastante para sentir-lhe o perfume, muito embora, imagina-se, o cheiro de soldados, ao menos quando vindos da batalha, não deva ser semelhante ao de um ramalhete oloroso de angélicas, com suas alvas flores mínimas encimando logos talos verdes - e, felizmente, estes aqui não carregam aquelas estrelas. Paro, contudo, diante da impressão que causam os dardos.

Minha imaginação, demasiadamente terrena, cheia de histórias de guerras, não pode perceber a agudeza de espírito de quem pôs nas mãos desses anjos essas setas, mas, como se sentisse, em algum indefinível ponto de mim, a estocada da curiosidade, pergunto-me quem são os alvos para esses dardos. Serão os inimigos dos homens (e reconheceriam eles, num seu semelhante, já caído, mas esperto o suficiente para exercer seu poder mesmo assim, um alvo para seus dardos)? Serão, esses alvos, os próprios homens, espécie de caídos por herança? Serão os alvos? Serão os escuros? Serão os que ficam sempre no meio do caminho, num cinza que nunca se compromete, por covardia de assumir a sua verdadeira cor?

Eis a grande questão que deveria preocupar a humanidade: e não é a contabilidade dos arsenais de dardos em mãos de anjos expatriados e dos que controlam, com mão-de-ferro ou com ela cheia de ouro, as pátrias, a sua e aquelas onde há mãos estendidas mais para saciar a fome do que para serem civilizadas, porque é difícil, além do que se pode esperar dos instintos de um humano primário (nenhum homem assume ser secundário, mesmo que tantos já se creiam superiores), ser apenas gentil, quando, incontido, a barriga, sem a discrição que se toma por adequada, grita suas carências. Não sendo isso, é, até onde me cabe contar, contador que sou dos poderes que não tenho, o que deveria nos preocupar a todos, não tirando da cabeça os dardos, seus alvos.

E isso poderia começar pelo inventário, na nossa cabeça, dos nossos próprios dardos ali entocados, ali estocados, ali, constantemente, afiados para que suas pontas não percam o poder de estocar, mesmo quem, então, se ache devidamente entocado, para fugir a (nossas) setas; a seguir, mesmo que não cheguemos a uma conclusão definitiva a respeito do número exato deles, para quem eles se dirigem: e não são menos letais os (nossos) dardos teleguiados, ou seja, aqueles que lançamos a distância, mentalmente, sem senti-los, palpáveis, na mão, atirando-os em imaginação, pois quando o alvo é bem calculado, o dardo cumpre seu objetivo. E nós, passeando paz, pacíficos-de-passeata, vestidos de alvo, com carinha de anjo!


(TETRAMORFOS)
anjos de seis asas que associam os símbolos dos
quatro evangelistas:
o anjo, a águia, o leão e o boi


Não vou chover no molhado. Nem vou gastar minha saliva. E não porque já tenha dado muita asa para anjos demasiado “apenados”, apenas porque, como não fazem parte da hierarquia oficial, mesmo que possam ter algum poder, prefiro voltar minha mira, fazendo-os meus alvos, para os poderosos já estabelecidos, com nome na praça, com reputação que ultrapassa os limites desta terra e repercute até nos céus, sobretudo neles, que é o espaço em que transitam costumeiramente, embora haja os que montam guarda por aqui, sempre no nosso pé, embora ingênuas pinturas os ponham, velando-nos, atrás da cama, que também é o lugar preferido dos alcoviteiros, alcovas que são, hoje, quase tão “imaginárias” como são anjos com tantas especificidades: um para cada dia, um para cada cor, um para cada intenção, quase um para cada imaginação - sorte (nossa) é que nem todos os homens, e nisso eu dou uma ajuda inestimável, têm imaginação suficiente para inventar anjos para todas as (suas) necessidades, até porque, se a tivessem, voltaríamos a ponto de partido, ou seja, necessidade que todos temos (de anjos), ao...TRONO.



terça-feira, novembro 01, 2011

AÍ O PAPAGAIO DISSE...












e rir é mesmo o melhor remédio, para que uma cura definitiva, se se pode passar a vida inteira rindo, cronicamente, e não em surtos irregulares, ainda que agudos, de gargalha?

E isso que digo aqui não é, mesmo que pareça, contradizendo o que ora digo, nenhuma piada, nem, mal disfarçada, propaganda dos Doutores do Riso: isto é só meu jeito sério de lançar mão de palavras fáceis, embora, daqui por diante, tudo vá-se complicar – e se tal complicação se refere ao corpo em questão, que bom!, porque assim será preciso muito mais remédio, doses generosas (ainda que se saiba o quanto a indústria – de remédios, de riso – lucra(m), e não lucra(m) tanto por ser(em) generosa(s)) de riso.

Pena que eu próprio já não tenha remédio, sem sequer uma “droga de graça”, espécie de amostra-grátis de uma velha anedota, agora, com nova embalagem, mesmo que eu tenha-me esforçado para sintetizar o riso em laboratório, no meu fundo de quintal. Porém, os efeitos colaterais dessas experiências risonhas, mas com a seriedade que exigem, foram uma tristeza só: o que é tristeza em dobro, pois, além de já serem essa tristeza, é ainda uma tristeza...só. Os resultados deixaram claro meu fracasso já no fato desse remédio ter causado lágrimas, quando se esperavam risos sequenciados (então, eu não desconfiava de que tanto se pode rir com os olhos, a quase os cerrar, quanto é possível chorar, por dentro, mantendo um sorriso nos lábios).

Dito desse jeito, soa a mentira – e talvez seja só um autoengano, como um desses placebos, miragem miraculosa num oásis feito de farinha, mas que, encontrando acolhida na vontade de se curar, passa a agir como se concentrasse em si dose elevada do princípio ativo.

É ou não é para se morrer de rir usar uma expressão assim: se rir já é o remédio, a esperança de dias melhores, só se pode dele morrer ou por se ter tomado um falso remédio (embora tenha-se rido com “verdadeira sinceridade”) ou por tê-lo feito (não o remédio, mas a sua ingestão) em doses erradas – de menos, a ponto de ter alertado os lábios para um novo riso a vir... E ele não veio, deixando os lábios na espera, na ilusão de uma sonora gargalhada a aliviar os males, ou doses exageradas, levando a um riso descontrolado, já que o valor desse remédio (alguns, mais ingênuos, ainda dizem que rir é de graça: mas a coisa não é bem assim) está não apenas em rir, simplesmente, e sim em também senti-lo em todas as suas sutilezas, não fazendo, como as crianças gostam (quando não gostam do remédio) de fazer, prendendo a respiração para não saborearem(!) os amargos da vida – adultos, quando têm testemunhas por perto e não podem dar-se ares de criança, preferem tomar o remédio, respirando fundo, de um gole só.

Aqui, é necessário acabar com certos mitos, mesmo que isso signifique desautorizar nossos avós, e até os avós deles, nossos não-sei-o-quê, alguns mitos que envolvem todas as terapêuticas: isso de que quem ri por último...só pode levar mesmo ao fim. O ideal é rir logo, de cara, não postergando a graça, não tendo medo de, sendo pioneiro, ser, posteriormente, imitado, até por imitadores sem muita graça, ou ainda de, rindo antes de todos os outros, parecer que tem o riso solto (um tipo de remédio liberado) ou que não entendeu, convenientemente, a piada.

Deixemos os sisudos de lados, guardando sua atitude calculadamente conspícua, fazendo-se de imunes a piadas vulgares, prendendo, no entanto, a gargalhada (como se faz com um remédio que, de imediato, deixa manchas na pele, mas que, ao se sentir seu efeito, fá-la, irremediavelmente, sadia)! Deixemos que torçam seu nariz (há remédios que não cheiram lá muito bem, como há perfumes que causam mal-estar)!

Ao sentirmos que é preciso nos medicar, gargalhemos, com vontade. Se quisermos nos prevenir, mantenhamo-nos em estado de graça, ainda que ver “doentes incuráveis” por aí não seja um bom motivo para se rir. Mas, lembremo-nos que há “doentes assim” que só o são por não terem coragem de rir, querendo, ao desfilar seus males, angariar certa solidariedade que esperam que venha a se expressar na decisão de abandonar o riso, como se desacreditasse nos remédios, juntando-se, como novos tristes, a eles, àquela sua tristeza (de dar dó), uma tristeza que não é “só” (só) porque eles, tristes, preferem ser tristes uns juntos dos outros.

E vendo que há gente assim, não dá uma vontade louca de rir, mesmo que não se esteja, nesse momento, precisando de remédio assim?!