
piada é antiga, mas continua um prato cheio, especialmente, para os que, como eu (e não vejo a menor graça nisso), não são versados em piadas, não são versáteis com elas, apegando-se a uma ou outra, que conta e reconta, infinitamente, não levando em conta as vezes em que já a(s) contou, a ponto de chegar a contá-las, repetidamente, à mesma pessoa, até percebendo a repetição, porém, demonstrando, ainda que involuntariamente, pouca consideração para com esse ouvinte, vai adiante, como se estivesse para partilhar uma alegria fenomenal, valendo-se, no entanto, como se, no seu íntimo (que é o meu, aqui), soubesse do seu pouco talento histriônico, de seu próprio riso para completar uma gargalhada que, quando vem – e isso não é certo –, chega-lhe aos pedaços, sinal evidente de uma piada mal-contada, arriscando-se, quem assim se deixa levar por uma necessidade de parecer engraçado, a tornar-se a própria piada: e o que é pior, esta sim, digna de incontroláveis gargalhadas.
E, aqui, a piada é que o melhor prato é um prato cheio. Coisa que, dirão alguns, sem mostrar nenhum humor, não tem graça, beirando, para eles, apesar de carecer (o que chega a ser um ironia, mas não uma piada, em se tratando de tão cheio prato) de sonoros palavrões, o mau-gosto personificado, impressão na qual são, de pronto, acompanhados por outros, os que, também sem humor (gente mais azeda!), veem nessa tentativa de fazer piada um atentado ao seu cultivado gosto, um refinamento com forçado acento francês, ainda que não percebem – ou, percebendo, desconsiderem esse detalhe – que o prato lhes foi servido pela direita, preferindo deliciar-se, com sinceridade incerta, gourmets que se creem, com essas pequenas porções, exemplo de calculado minimalismo com aspirações a obra de arte, antevendo, aí, o gozo supremo que lhes espera, já imaginando – será que suportarão tamanho gozo? – o dia em que, de tão comedida a cozinha, o prato há de lhes ser servido completamente...vazio: ah! delícia!
E mesmo assim, com sorriso nos lábios (de tão pouco que há para comer, é até possível se comer e falar, ao mesmo tempo, sem maiores atentados), não se acham, quando sabem que se tornaram personagem de uma gozação pelas costas, nenhuma piada, maldizendo o dia em que nasceram: não os que, mal-educados, fazem piada de coisa tão séria, mas rogando praga sobre o dia em que eles próprios nasceram, para viverem num mundo que não lhes merece, incapaz de perceber as elegantes sutilezas da civilização, consumindo, essa ralé, com voracidade que não lhes impede que falar com a boca cheia, os pratos cheios da vida, não se dobrando, do alto de sua elegância de manual de boas maneiras, à evidência de que não há arte maior do que se sentir satisfeito.
Mundo, deveras, injusto! Enquanto uns, podendo pagar caro por quase nada, para agradar suas papilas (que podem, na verdade, ser incapazes de distinguir uma verdade a quilo de uma mentira em gramas, valorizando mais esta, só porque lhes custa mais “verdinhas” – que nem estão assim, hoje em dia, tão valorizadas), deploram o prato cheio, os que dariam tudo por um, mesmo que raso, desde que aparentemente cheio (porque sabemos, gourmets inclusive, o quanto se come, e bem, com os olhos), têm de se contentar com módicas porções, forçados a isso, sem enxergarem nem graça nem elegância em parcimônia compulsória.
Mas, refinados, não se sintam culpados, se flagrados com um prato desses na mão, um cheio, já transbordando pelas bordas, não havendo tempo hábil para o esconder (tão cheio como está). Há mesmo uma saída filosófica, misturada com literatura, o que já traz a arte para mais perto: Nietzsche dizia que a sensação de uma consciência tranquila era semelhante à satisfação de se estar com o estômago cheio.
Os finos (melhor conhecedores tanto de filosofia quanto de literatura – e ambas essas “cozinhas”, sou adepto do prato cheio) podem torcer o nariz, desviar os olhos, não engolir isso, e ainda ter ânsia de vomito, diante de argumento assim para justificar uma comilança, mas, na hora da fome, somos todos bichos, queremos mesmo é sobreviver. E se o conseguimos, com estômago já cheio, não há espaço, consciência sossegada, para sentimento de culpa – a não ser o de não ter comido mais.

h! não sejamos ingênuos: há, sim, vendedores de ilusões. Não nos iludamos: há, sim, ingênuos neste mundo, mas não são, estes, o alvo preferencial dos vendedores de ilusões, tomando-se tais trabalhadores em vendas como uns charlatães profissionais, daqueles que se valem da ingenuidade alheia para alcançar seus objetivos que, para os que se julgam mais espertos, são, claramente, escusos, não conseguindo compreender como há gente que ainda se deixa levar por tais espertalhões, referindo-se, claro, aos outros, aos que são vendedores, e não a si próprios, espertos como são, porque, afinal, não vendem coisa alguma, não percebendo que, a seu modo, involuntariamente, tentam vender a imagem de que são bastante inteligentes, a ponto de se darem conta do que, mesmo se passando sob o nariz dos potenciais compradores, passa-lhes despercebidamente.
De um ponto de vista pragmático, só há vendedores, do que quer que seja, inclusive de ilusões, se há mercado, portanto, compradores, mesmo que saibamos que este mundo, com sua diversidade, comporta também vendedores que mais se parecem com compradores de ilusões, considerando a mercadoria que vendem, verdadeiros sonhos, ainda que os mais espertos vejam, aí, uma contradição: ou é sonho ou é verdade, não cabendo em sua cabeça que ambos, verdade e sonho, possam conviver, ora com harmonia, ora em conflito.
Mas, a lógica do mercado não é nenhuma verdade revelada que, dependendo, exclusivamente, da fé – da boa – dos consumidores (do que quer que seja), baste-se a si mesma, legitimando, assim, o que se vende, jogando sobre as costas, nem sempre muito largas, dos compradores a responsabilidade por esse seu ato de vontade. Então, não é suficiente que haja quem queira – ou seja levado a isso – comprar para justificar a existência dos vendedores, havendo a necessidade, dentro dos padrões civilizados que parecem partir do princípio de que não o somos, primordialmente, de acordos suplementares que garantam certos direitos à parte mais fraca, ou seja, os consumidores, como se vendedores, uma ou outra hora, não o fossem também, e só pudessem ser vendedores, como um vilão que está impedido de ter bons sentimentos, ou um herói romântico que é incapaz de alimentar (os) maus – ainda que dar de comer aos maus aumente ainda mais seu caráter, tanto de herói, quanto de romântico.
Conhecendo, intimamente, as técnicas de venda, e ainda mais, especificamente, a mercadoria que vendem, os vendedores de ilusões são tidos como muito espertos, chegando mesmo a se convencerem de que o são, verdadeiramente, e, assim, estariam inumes a tais técnicas, percebendo, no ato (da compra e venda), o quanto, querendo comprar, estariam sendo ingênuos: são, sim, espertos, ao acreditarem que as ilusões são um produto como outro qualquer, ressalvadas certas peculiaridades que lhes são próprias, como, de resto, toda mercadorias possui suas especificidades, mas também não passam de uns ingênuos, até, eventualmente, mais do que seus compradores mais habituais (aqueles que sempre compra (suas) ilusões, e, apesar da repetição desse ato, jamais percebem se há ou não algum engodo nesse comércio), quando creem que enganam seus fregueses, dando-lhes (na verdade, vendendo-lhes) gato por lebre, certos de que eles, recebendo gato, acreditam que põem a mão numa lebre, não atentando para o fato de que há consumidores para gatos, para lebres e – eis o pulo-do-gato! – consumidores que precisam, como de um bem primário, comprar gato por lebre, ludibriando, assim, às vezes, à própria revelia, inconscientemente, portanto, o tal vendedor que, não tendo dúvida de que faz um ótimo negócio, ao vender isso por aquilo, até baixa o preço, para se livrar da mercadoria, quando é justamente isso de que o comprador precisa, ou seja, (d)isso por aquilo.

essa corrida de obstáculos, obstáculos mesmo são os trechos em que não há esse tais empecilhos, em que a corrida, sendo de obstáculos como é, parece fluir, sem tropeços, com uma mansidão que pode até ser o desejo dos caminhantes, mas que é a derrota de quem se dispõe a correr assim, sendo sua vitória o ultrapassar os obstáculos, numa correria só, e não os havendo, a suavidade lhes é como uma afronta, pois, que valor há em chegar, desse modo, em primeiro lugar, mesmo que tenha sido o único a completar a corrida de não-obstáculos, já que os outros, acostumados aos obstáculos, não os encontrando pelo caminho, como é de praxe em corridas tais, sem saberem como agir, pois seu treinamento não contemplou trajetória sem empecilhos, foram ficando para trás, a ponto de, não enxergando mais nenhuma possibilidade de alcançarem a vitória, desistiram pelo caminho, ficando à margem, cansados dessa estrada que não lhes impõe qualquer obstáculo?
Pensam que, assim, o que, sabe-se lá como, não desistiu, tendo chegado ao fim da corrida, sozinho, mesmo que tenha completado o percurso num tempo infinitamente maior do que aquele que gastaria para o vencer, caso a corrida de obstáculos fosse mesmo cheia desses empecilhos de lei, sente-se vencedor, bradando, cheio de orgulho, sua vitória? Nada! Surpreendido por ter chegado, impulsionado por uma força sobre-humana (é mais fácil para os homens suportarem os obstáculos, esses que eles usam para valorizar suas pequenas vitórias, do que, do que a ausência deles, não havendo, portando, desculpa para que não sejam uns vencedores), esse sobrevivente de uma corrida sem obstáculos vive envergonhado, tendo mesmo retirado de sua lista de vitórias (todas em corridas de obstáculos) esta de agora, por ela carecer daquilo que mais lhe dá orgulho: não, simplesmente, a vitória, mas vencer os obstáculos, mesmo que isso signifique apenas um ou outro buraco no meio do caminho.
Curiosamente, os tidos, normalmente, como derrotados, os que ficaram pelo caminho, e mais ainda os que tomaram a decisão de desistir, firmando posição contra a falta de empecilhos nessa prova, são os que desfilam, agora, seu orgulho, chegando mesmo (coisas da competição entre os homens!) a esfregar na cara do vitorioso-em-tese, derrotado-na-prática, sua derrota, fazendo isso como se ela fosse uma real vitória, sentindo o acerto disso ao perceberem a vergonha daquele que sente sua vitória como um real fracasso.
É da natureza humana reclamar. Ouvem-se, por aí, com justificativas de cidadania, reclamações contra os buracos no meio do (nosso) caminho, tornando-os, pequenos que eventualmente sejam, verdadeiros obstáculos, um empecilho para que, tendo de percorrer essa estrada, como uma prova diária, sagrem-se vencedores, imputando (com um “filho-da-puta” dirigido a uma autoridade genérica ou a um subalterno específico) a tais buracos – e há os verdadeiramente enormes – toda essa sua derrota. Os que, por fazerem, cumprindo tal provação, esse caminho, diariamente, acabaram por saber contornar os obstáculos, não havendo, assim, empecilho para que cheguem no ponto em que devem chegar, se chegam, enfim, ao ponto, e isso lhes granjeia uma vitória, diante dos outros, retardatário com a desculpa dos buracos ou ausentes com a desculpa do tamanho dos mesmos, envergonham-se, a ponto de rejeitarem a vitória, unindo-se aos outros em suas reclamações, ainda que, para isso, no outro dia, mesmo que os buracos tenham aumentado, da noite para o dia, contornando o que aprendeu a contornar, atrase (ou desista, no meio do caminho), só para, em coro, reclamar, sentindo-se, afinal, um vencedor.
Acabei de pôr, aqui, obstáculos que, para mim, postos no meu caminho, ser-me-iam intransponíveis. Se alguém conseguiu vencer tantos empecilhos, pode-se sentir um vencedor; um vencedor de verdade, sem ter do que se envergonhar, mesmo que não se possa negar um prêmio à coragem dos que, abatidos, no meio do caminho, por tantos buracos retóricos, estejam ainda pela metade (o que é uma contradição, caso tenha chegado até aqui) ou tenham, de vez, desistido: se não há nisso a mesma perseverança daquele vencedor, há, pelo menos, inquestionável inteligência.
ara evitar perda de tempo (que, como cabelos, é definitiva, a não ser que se tomem providências...a tempo – porém, se este já estiver perdido, não haverá mais remédio, isso que se diz que (já) há para a perda de cabelos), aviso, desde já, que de pouco ou de nada adianta especular, mandar que eu me olhe no espelho (até com os olhos fechados, eu sei bem o que veria). Não adianta, com uma lupa potente, no auge do seu vigor, lente aumentativa quase ao exagero, ali ir pesquisar, porque eu próprio digo, sem maneiras de fingido desdém, ou de um sincero orgulho, talvez ocultando, sob o disfarce de um não-é-comigo, toda a devastação capilar que faz daquela região, entregue às moscas com brevê, a própria imagem de uma clareira, depois de apagada o fogo juvenil das queimadas ateadas por desejos que usam os mais diversos combustíveis, nessa prática secular: tudo o que tenho nessa minha cabeça não passa de resíduos de Shampoo.
E, agora, já tendo revelado o nome do filme, antes que um golpe de surpresa me faça ver estrelas, sou obrigado a revelar também que, embora já ali não tenha lugar cativo, ainda penso em Warren Beaty. Mas, ao lembrá-lo, vem-me (à cabeça, claro!) que isso é história por demais antiga, mesmo que colorida, algo cor-de-rosa, rosa falso(a) talvez, tão velha, como uma das vidas passadas – não uma das minhas, que não leio esses livros exaustivos, mas uma das vidas pretéritas de Shirley MacLane, um dia, irmã linda de um (ainda) eterno bonitão – aquele “Shampoo” devia ter algum mistério!
Não que o cinema me tenha feito uma lavagem cerebral, com divertidas idas a um salão, com perigosas entradas, pelo gosto de passar por aquela porta de vaivém, num saloon, ou com saídas, à francesa, de um elegante salão, tropeçando, porém, no tapete, quando já estava praticamente saindo da fila, atraindo, assim, a atenção, que tanto quis despistar. Ao contrário até! O que esses filmes fizeram foi encher minha cabeça, ocupando o espaço deixado vago, progressivamente, pelos cabelos que me custaram, um dia, xampus caros e condicionadores baratos, tão baratos, que assistir à sessão inteira era um exercício de sobrevivência, pelo calor, numa selva tropical na estação mais quente do ano.
Ah! é tudo de que preciso. Mas, nada tão ao ar livre, com essa dispersão da luz na tela e sua concentração ao lado, onde deveria estar escuro: um ar que fique, hoje, preso, esperando a hora de, num alívio supremo, expiar(-se), desde que não seja por uma ação atabalhoada de carros em disparada ou de astros descabelados dependurados, pendurados por um fio (de cabelo?) num precipício de boca aberta.
Não! preciso de um ar engolido em seco, ao ver, diante de mim, a já não sei mais a quantos quadros por segundo, pois o tempo corre, uma cena de silenciosa eloquência, longa sequência sem cortes, sem feridas expostas (permitidas as in-postas), com um vento falso que entra, não se sabe bem por onde, tornando voláteis as echarpes já leves, e mais pesado o clima, sem, contudo, desfazer os penteados: ilusão de que cabelos são para sempre.
Hoje, no entanto, o realismo de mentira não se contenta com um imenso ventilador oculto e quer vendavais mais do que de verdade, a ponto de varrerem os penteados do mapa. Mas, apesar da intempestiva entrada em cena desse ar exagerado, espécie de ator à antiga, ainda fazendo aladas as echarpes, como se estas, independentemente do tempo (e do vento) que faça, não voassem sempre com espontânea docilidade, num gesto clássico, ainda passo a mão pela cabeça, não na esperança de reencontrar ali fios caídos, tempos perdidos, mas por um sossego que, em meio ao tumulto copiado aos mais banais filmes de ação, as lembranças me dão, mesmo que sejam memórias alheias, coisa de cinema, e não minhas próprias recordações.