segunda-feira, março 01, 2010

A GRANDEZA DA SOLIDÃO NO HOTEL DA PRÓPRIA VONTADE






erro de Descartes foi ter nascido – aliás, por falar nesse “René”, seu erro, como seu próprio nome próprio diz, foi ter “renascido”: ah! esse Re Nato. Se não fosse isso, erro que, sejamos justos, retroage para ser dividido com seus ascendentes imediatos que o nomearam assim, os que mais diretamente contribuíram para seu batismo, muita coisa não teria acontecido. Por exemplo, quantas dúvidas a menos na nossa cabecinha (inclusive naqueles cuja cabeça dispensa tal diminutivo, talvez herdada de algum ascendente mais “cabeçudo”), cabeças essas, hoje, já bem menos coroadas, pelo argumento da intromissão divina em assuntos palacianos, do que no tempo de Descartes, a não ser que se considere como tal aquele círculo vazio que encima alguns homens calvos, qual tonsura sem votos.


Penso em tudo isso, mas nada me garante uma (boa) existência. Sem garantias que justifiquem e recompensem meu tempo empenhado nessas filosofias, “cogito” (e nem sempre existo, como consequência ontológica) de viagens, como a do próprio Descartes à Suécia, entre outros reinos terrenos, e daí, sem escalas, parto, sem precisar atravessar fronteiras perigosas, e já estou ao lado da rainha Cristina, que, diga-se “de passagem” (afinal, é ou não é uma viagem?), jamais sentiu, que eu saiba, as dores de um parto, tendo, no entanto, sofrido (e muito) dores, porque de dor há muitos tipos, como a dor de se despedir de sua pátria, para o bem dela – uma rainha sabe abrir mão do cetro pela integridade de seu povo –, e de se despedir para sempre.


De Cristina, com toda sua majestade já iluminista, esclarecida, déspota que não se sabe que tenha sido, rainha de uma terra que conhece longas escuridões invernais, embora não se possa deixar de mencionar seu sol estival que perturba, ainda à meia-noite, o bom andamento dos relógios mais conservadores, sempre com sua calculada claridade, sofrendo pelo sol fora de hora, dela, rainha, só mais um passo nos separa de, talvez sua “verdadeira face”, Greta Garbo, igualmente sueca, de quem não se pode tirar sua majestade, alguém que soube abrir mão de todos os atavios que compõem, na fantasia dos espectadores, o figurino da uma família real, e tudo isso em nome da própria integridade, sendo ela própria sua pátria e seu povo, além de rainha, pelo império sobre sua vontade, de si mesma.


Passo dado, algo em falso (é tudo fita!), mas sem queda à vista: quantas dúvidas ainda, monsieur Descartes! Dúvidas existenciais, dúvidas que não seguem seu método analítico, que erram o caminho e se desviam dessa notável mulher para, por mau hábito moderno, as supostas mulheres dessa mulher, sendo que não é nem um mal, nem é moderno esse hábito de uma outra mulher amar – e o hábito, tão mau!, é o de dar importância ao acessório, tornando o principal um apêndice que, com o tempo, pode até mesmo desaparecer (Garbo que o diga!), tal qual ao ser salvo da escuridão por uma “greta” de luz, queira-se saber com quem esse sol andou, durante a noite, quando não se o vê, já que de dia tem-se a impressão de que tudo o que faz é às claras, não se levantando suspeitas quando, combinadas ou não, as nuvens o velam.


Já passamos, nessa viagem que não sai do lugar, tempo demais na Suécia, e o visto de permanência aí já vai perdendo a validade, tornando necessário que aproveitemos cada instante dessa estada: e aqui surge um impasse. Como todas as fronteiras para além de Greta Garbo se fecharam (em si mesma(s)), para onde iremos agora, ainda com os pés, se não no chão, nesse estranho território? Ficar? Isso seria um desrespeito à voluntária solidão de uma estrela, já só, mesmo quando andava em constelação, brilhando, como se com saudades de sua terra, com “luz escura”, bela mais ainda por esse incômodo que provoca(va), solidão que “rendeu”, com lucros para ela, em que pesem os inconvenientes das perseguições à luz do dia, um mal-utilizado bordão a que todos os pretensos solitários recorrem, quando não têm outras justificativas para se apartar, escondendo-se assim numa cena de Grande Hotel: “I want to be alone”!

Deixemo-la, se é isso que ela quer. Voltemos a Descartes, sem sabermos muito bem (quantas dúvidas ainda!) onde isso há de nos levar. Será que nos conduzirá a uma ciência finalmente “razoável” ou a uma tirania da rainha Razão, absolutista, tirânica, despótica, que, mesmo adorando trocar ideias com tantos filósofos esclarecidos, não se abstém de, no caso de não entrar ela mesma nas cabeças, com toda “razão” a seu ver, mandar cortá-las fora (e fora, aqui, é só um recurso retórico) para afastar, de uma vez, os mitos, as superstições, as ilusões cinematográficas, astrológicas, algumas astronômicas, e ela mesma se incumbirá de mostrar o quanto são todas o efeito do trabalho da direção de arte, estando ali, naquelas cabeças, apenas como uma figuração de luxo.


De coração: estou disposto, sim, a voltar atrás, ao século dezessete, a Descartes talvez, ainda na corte sueca, mesmo que tenha sido de lá que eu acabei de sair, “só”...que...I want to be alone. E nos atira, de novo, nos braços quase alvos de Garbo: uma hora ou outra, todo filósofo repete esta frase, especialmente naquelas horas em que, inquiridos, não têm, ou ainda não as têm, as respostas na ponta da língua – quer, assim, ficar só, mas, mais cedo ou mais tarde, desejará cair nos braços do povo, mesmo que este não seja seu público-alvo, e só disso “abrindo mão” para receber, desse mesmo público, com ele como alvo, os aplausos que não aconteceriam se o filósofo estivesse nos braços do povo, por total impossibilidade de se o carregar e se o aplaudir, ao mesmo tempo.


I want to be alone: é quase refrão para toda atriz que, entre uma cena e outra, representa-se a si mesma – e como esse “si” não está protegido sempre pela maquiagem, pelo figurino, e por uma psicologia de empréstimo, não deixa testemunhos que registrem seu clamor para uma posteridade em que não se saberá mais do refrão do que da própria atriz. Porém, basta ouvir, de novo, o “ação!” e lá vai ela, sonhando, já esquecida de sua solidão, com aplausos, ao lado do povo, mesmo que confunda como sendo este o que não passa, na verdade, de uma enorme figuração. E bem pode ser que tenha sido esses mesmos figurantes que, apenas trocando de cena, honraram aquele filósofo, ovacionando-o, publicamente.


I want to be alone: isso é bem coisa de “estrelas”! Entre um buraco-negro e uma nebulosa, elas se fingem de solitárias, em meio a uma constelação de concorrentes mais belas, ou apenas mais jovens, o que não deixa de ser uma beleza à parte. Mas é suficiente que um poeta, dos mais comuns, talvez empregado do estúdio para alimentar suas estrelas, demorar-se um pouco mais para chegar ao encontro marcado com esse inatingível que elas creem ser (porque as atrizes, até as mais comuns, as que nem pensam em ficar a sós para fazerem fita, são, para um poeta comum, sempre inalcançáveis), para que elas comecem a piscar, incessantemente, tentando atrair rimas forçadas de prosadores alheios às suas necessidades; rimas que, então, são para elas o mesmo que são os aplausos do vulgo para filósofos-estrelas.


I want to be alone: até mesmo o povo já aprendeu a dizer essas coisas, ainda que não frequentem grandes hotéis nem mostras retrospectivas de cinema em preto-e-branco, e não saibam também nem inglês, a língua desses solitários todos, nem francês, a língua (duvidosa?) de Descartes, ou sueco, a língua da nobre Cristina. Talvez (sem querer dar uma de filósofo, mas conseguindo a proeza de parecer mais um, entre tantos, poetas de rimas banais) a solidão seja uma espécie de Esperanto, complicada língua que surgiu para facilitar a comunicação entre os povos todos, esperando muito das almas, querendo-se universal, mas não passando de mais um esoterismo na língua dos que só repetem essas palavras – I want to be alone –, imitando o sotaque de Garbo, quando sabem haver alguém para os escutar, sofrendo, contudo, se quem então as ouve, essas palavras comuns, abandona esse discurso repetido para ouvir um novo filósofo velho de quem jamais ouvira antes falar ou para dar ouvidos ao que dizem as revistas sobre velhas atrizes, essas novas estrelas cadentes.


Filósofo, eu não sou mesmo – e a prova disso é que não sonho, dizendo, no entanto, o quanto isso é um pesadelo, com os braços do povo, sonhando mais com os alvos braços de Garbo, não sendo eu mulher suficiente para ela, nem homem bastante para ser seu galã. Também não sou de cinema – e a prova disso é que não uso maquiagem, embora lance mão do recurso, filosófico, do sofisma, ao dizer que há beleza maior na “naturalidade” do que nos enfeites artificiais. Não sou estrela – e provo isso ao me deixar ver de frente, sem piscar, e de verso: e aí, nenhum poeta, à vista, há. Se povo eu for, só o serei pela desconfiança de que possuo muitos braços-mecânicos, e não para, automaticamente, carregar filósofos ou atrizes quaisquer neles, mas para manusear tantas palavras assim.


Não sendo tanto, o pouco que sou, o que faz de mim? Isso não sei dizer. E como filósofo (que não sou, repito) que não sabe responder, precisando de tempo para pensar, “metodicamente”, seguindo, rigorosamente, os passos determinados por Descartes, saio-me (disso) assim: I want to be alone!...mesmo que isso não seja mais do que uma grande mentira.

Coisas da ficção.



segunda-feira, fevereiro 01, 2010

MONSIEUR HULOT NA ATLÂNTIDA






izer, simplesmente, que qualquer bagunça é uma chanchada é voltar no tempo, nessa fantástica máquina, à disposição de quantos a queriam usar, e que mistura memória (máquina, às vezes, falha – se não me falha, agora, a própria memória) e imaginação – e esta, por vezes, quanto mais “quebrada” a máquina (da memória), melhor funciona, até só funcionando, em alguns, assim. Mas, voltar assim no tempo é dar de cara com uma (e foram tantas) chanchada que, bagunça produzida, era produzida, seguindo-se uma ordem, não livre de eventuais bagunças, sem que se pudesse então destas se dizer que era uma chanchada, embora, aparentemente, dizer isso seja o mesmo que desdizer (d)aquilo, porém, como ninguém se lembra mais do que eu acabei de dizer, menos ainda do que já havia dito antes, antes de dizer o que, dito há pouco, não é mais lembrado, pouca diferença faz...

Porque minha máquina, a que deve funcionar bem para bem funcionar, já vai ficando para trás: e ainda que isso seja pertinente a ela, à memória, o que quero dizer é que, um dia, tão azeitada que mal fazia ruídos, a cada lembrança, hoje, faz barulho, a cada esquecimento: que zoeira! Compensando, o que para muitos há de parecer só um prejuízo a mais, a outra peça dessa mesma máquina, a fantasia que lhe empresta aparência (de) fantástica, mais e mais, vem-se mostrando, sem pudor de aparecer, com suas armas: ora exibindo suas garras (que qualquer monstro fantástico, ou mesmo um fantástico objeto de nossos desejos, não deve prescindir de garra(s)), ora surgindo sem garras, sem dedos, sem mãos, sem braços e, para encurtar essa amputação progressiva, sem nada, sendo isso o que a faz, especialmente, tão fantástica.

Baguncei o coreto?! Talvez tenha feito uma chanchada, sem, no entanto, ter a graça desta, sem a musicalidade daquele, por mais bagunçado que pareça esse pequeno coro, antigo centro das atenções em uma pública praça, agora, nostalgia que só quem dela (dele) sente saudade é quem, assobiando, ao acaso, uma canção, relembra de um passado carnaval nas cenas de uma chanchada.

Contar piada eu não sei. Paródias eu já faço, de mim mesmo. Dar cambalhotas, hoje em dia, é-me muito arriscado: e quando não deveria ser, não me arrisquei a dá-las. O que (me) falta é originalidade para dar nome a esse filme, mesmo chamando, em meu auxílio, o teatro, o musical, que alimentou tantas chanchadas em revistas.

A sutileza morreu – e como era sutil, ninguém percebeu, a ponto de ainda dela se falar, sem sutilezas, como se viva estivesse. Sobrevive a bagunça, mesmo que já não seja adequado, para não dar muito na cara o tempo que passou, mesmo que a (minha) fantástica máquina tenha chegado, retroativamente, até aqueles dias, chamar a tudo isso de...chanchada. É bagunça – e ponto final: hoje, tudo tão sem graça!...





sexta-feira, janeiro 01, 2010

AFAGOS ÀS FADAS








ó não começo com o clássico “era uma vez...” porque isso poderia parecer conversa para boi dormir ou um conto de fadas para ninar um pirralho que ainda não conhece o sistema decimal para contar nos dedos de suas mãos uns tantos carneirinhos até seu sono chegar e, assim, interromper seus cálculos noturnos. Mas, há ainda uma outra razão: é que a fórmula, como um soco na cara, apesar do apelo quase caricioso de palavras tão nostálgicas, justamente por o serem, lançaria esta história para lá, no tempo, num lá demasiado lá atrás para que a contemporaneidade de exemplos, à mão cheia, permita ir adiante, interceptando a narrativa com o apelo – menos súplica e bem mais uma velada ordem, com verbo, excepcionalmente, conjugado, à perfeição, no imperativo afirmativo – a uma inspiração mais reconhecível nessas nossas modernas tramas em que homens não faltam, carecendo, no entanto, de feitos que nos redesenhem, apagando a desculpa de o sermos (tão humanos) para nossos erros, acentuando traços heróicos que talvez existissem, na origem, e que se perderam pelo mergulho mundano nas águas demasiado humanas.

Como, então, começar? Ora, de fato, já comecei: e isso me libera de começos mais solenes e, já estando próximo do meio, sem um cálculo preciso de onde esta história vai dar, posso fazer de conta, sem me voltar aos contos de fadas para bois dormirem, de que fiz o que devia fazer, prosseguindo com isto (aqui), com a consciência tranqüila de que não queimei etapas indispensáveis à compreensão do que se passa, aqui.

Alexandre (e se dele disser O Grande, isso seria como o soco que tentei, a todo custo, evitar), aquele que, como epônimo das coisas grandiosas de que um homem é capaz (aparentemente, só porque a história é curta demais para a interminável lista de anônimos necessários às conquistas), empresta, ainda hoje, em quem o traz na lembrança de uma epopeia que, lida, parece-nos inverossímil, seu nome ao “quase impossível”, recebeu, certa vez, uma carta, sem autor declarado, que o avisava do suposto suborno a que seu medido particular, Filipe, deixara-se submeter para, muito bem pago, envenená-lo, misturando, como remédio, uma droga letal a sua bebida. Cortar-lhe a cabeça soa previsível, se a história fosse de uma Rainha de Copas e não à virilidade de um homem dessa (sua) cepa. Enfim, não a cortou, pessoalmente, e como não era dos que mandam recado, também não mandou que a cortassem.

O que fez? Esperou – que talvez seja uma das maiores virtudes, e uma das mais desprezadas, dos grandes homens – receber, diretamente, das mãos de Filipe a tal bebida, suposto veneno, e, sem hesitar, sem que olhos que testemunhavam a cena presenciassem qualquer mínimo tremor em seus dedos, inquietação em seus olhos, palpitações anormais em seu peito, tomou a taça e, enquanto bebia todo seu conteúdo, fez seu medido, a seu lado, ler a tal carta que o acusava de ser autor dessa tentativa de assassinato.

Somos, é bem possível, acostumados às fadas (que renegamos, com o tempo) ou com as ruminações bovinas em cardápios pastoris (por nos sentirmos, vaidosamente, vã vaidade, urbanos demais para essas conversas fiadas), ávidos por uma (boa) moral, tomando até como mal contada uma história cuja moral não se extrai sem esforço, estando, então, tão á superfície dos fatos como desejamos encontrá-la, a ponto de ser suficiente os olhos para pescá-la, sem fazermos nisso tudo intervir a mão, porque os bons peixes, às vezes, vêm de águas perigosas, arriscadas demais para aí se meter o bedelho.

Essa história, de Alexandre, tem lá a sua moral, mas, provavelmente, a moral pertence mais ao próprio Grande do que, propriamente, à (sua) história, a essa que o tem por personagem, protagonista de um capítulo a mais em sua longa lista de desafios vencidos, durante uma vida tão curta. Alexandre, diga-se, não morreu naquele momento, porque sua bebida não estava envenenada, como afirmava o covarde remetente do aviso anônimo. Disse Alexandre – e quantos de nós podem(os) dizer o mesmo, com sinceridade, sem termos à mão um antídoto com efeito imediato? – que preferia morrer, mesmo tendo sido avisado dessa possibilidade traiçoeira, a duvidar dos seus amigos, como era Filipe.

Podem dizer, com risinhos covardes nos cantos dos lábios, essa é uma história para boi dormir. História como essa, verdadeiro sedativo para bois insones, há em todo campo, embora haja técnicas mais modernas de se encher os ouvidos de um rebanho (de insones), talvez rememorando fatos (muito) passados. Há contos, mesmo quando as fadas já não resistem à precoce destruição das fantasias infantis. Exemplos, hoje, carecem de heróis verossímeis, quem sabe se por não ser crível que haja heróis, simplesmente, essas figuras, agora, tão risíveis, quanto as fadas, e tão desconhecidas, quanto os bois para os olhinhos irrecuperavelmente urbanos.

Eis as palavras, num modelo que se assemelha a uma carta, ainda que lhe faltem certas características que torne o reconhecimento mais imediato como uma clássica epístola – e não é anônima, caso isso ainda não esteja claro: coisa só de mais algumas linhas, o que, por si, não me livra de ser chamado, a qualquer momento, de covarde. As (minhas) palavras são a bebida – quem sabe, uma “droga” (de palavras), talvez seja um remédio, ou um antídoto contra envenenamentos do olvido. Ardiloso, não te dei a escolha de ler, enquanto bebias, porque para lê-la(s) – carta, palavras – tiveste de bebê-las, uma a uma, todas as palavras, ainda que algumas tenham sido engolidas em seco, na pressa para acabar com isso.

Não prefiro, pequeno homem como sou, a morte a ter de esquecer os amigos – o que já revela mais um traço da minha covardia. Porém, se os esqueço, como se não houvesse escolha, isso é a morte de tudo aquilo que pode, ainda, fazer-me grande, ao menos, aos meus próprios olhos, nem que seja por uma data certa, e logo esquecida.

Sem mais, e não tendo coragem suficiente para me esconder no anonimato...






terça-feira, dezembro 01, 2009

CHICO, THE KID















uando eu era garoto – e minha infância não daria um filme, já que suas brincadeiras, então minhas, eram das mais banais, e até meus dramas, de uma vulgaridade sem qualquer toque original –, mendigos tinham lá, nessa utopia chamada de passado, sua posição social, se se puder falar assim de um subdegrau, espécie de vão, um socavão, improvisado em um, aparentemente, inútil espaço da escada. De fato, eram conhecidos, um por um, e mesmo eram reconhecidos, como se um ou outro, mesmo que desejasse isso para si, não tivesse o legítimo direito e usurpar o lugar já conquistado pelos mendigos estabelecidos. E vagabundos também, embora, fora do seu próprio ambiente familiar, poucos – e mesmo assim, a distância deles – se atrevessem a fazer soar, próxima a seus ouvidos, essa vagabundagem de que todos sabiam: e como um mendigo, sempre em busca do que comer, e os vagabundos, diga-se, não o são, necessariamente, também gozava, nesse espaço muito bem demarcado, de um lugar ao sol, ainda que, como convém a sua natureza vagabunda, preferencialmente, à sombra de uma árvore generosa e, ainda melhor, perto de um rio, tão próximo, que baste apenas esticar, sem tanto esforço, o braço, para alcançar a água fresca.

Vagabundos já foram heróis, e não porque fizessem de uma incompatibilidade pessoal, ou estrutural, da própria sociedade, para com o trabalho – esse argumento, em nome da dignidade individual, para o enriquecimento de poucos – sua bandeira, anárquica, sedutora, mas tão-somente por encarnarem uma personagem lírica, livre das convenções, a ponto de poder adentrar elegantes salões com os mesmos trajes, em frangalhos, com que buscava, dia a dia, seu sustento em migalhas esparsas. Não que víssemos poesia em ser pobre, em depender da generosidade, nem sempre sincera, dos outros, às vezes, apenas uma maneira de se livrar do incômodo de mão estendida, mas, em algum lugar, nessa utopia que somos todos nós, mesmo que tenhamos endereço fixo (o que não impede a vagabundagem doméstica), alimentávamos a fantasia de só precisarmos de um único traje, simples e elegante, mutável, a depender da ocasião; de só precisarmos de alimento na hora em que a fisiologia desse seu nada discreto alarme; de não nutrirmos paixão pelo passado, nem adorar, como a um ídolo divino, um futuro sempre incerto; enfim, a fantasia de, como um pássaro qualquer, vivermos, em totalidade, a vida, seja isso muitos dias, seja coisa de dia para a noite.

Hoje, vagabundos primam por um guarda-roupa eclético, recusam o nome que lhes é tão próprio, chamando a isso de incorreção política, preferindo ser tratado por um eufemismo, e até mesmo por, simplesmente, “eufemismo”, que pouca diferença faz, já que não são tantos, mesmo entre os não-vagabundos, que sabem o que isso é, havendo os que acham pura vagabundagem isso de buscar nomes diferentes para uma coisa já tão conhecida. Heróis, propriamente, não são, mas perseguem a idolatria para, depois, fugirem, na dela, mas da perseguição dos que passaram a idolatrá-lo, numa insincera corrida, só para potencializar a perseguição, desejando, ardentemente, que, no meio do caminho, a multidão aumente, pouco importando que esse exército, assim formado, seja composto de vagabundos em geral.

Cartolas caíram de moda (e no seu rastro, quase também rosas que não falam, mundos que são moinhos), bengalas se tornaram anacrônicas, salvo quando o corpo, cansado de vagabundear, ou por não o ter feito no tempo certo, agora, requer essa ajuda sobressalente. Aparecer sempre com o mesmo fato, é como não ter outras histórias para contar, como, por exemplo, alimentar suas história com a quantidade de fatos que abriga em seu guarda-roupa. Andares podem ser aprendidos, dissimulando-se um jogo de pernas engraçado, espaçado, recurvo, por um caminhar reto, coluna ereta, olhos sempre para adiante, e um aspecto de que nada ao seu redor lhe diz respeito.

Mesmo assim, pode haver alguma poesia, algo concreta (por mais anacrônica que essa poesia possa ter ficado) nessa nova maneira de ser vagabundo. Mas, aos meus olhos, sempre mais encantados com a mudez do que com o cinema tagarelado, vida feliz é sair por aí, garoto, quebrando vidraças (coisa que nunca fiz), não tanto por um prazer sonoro nesse estilhaçamento, e mais para alimentar um negócio que vem no rastro: um vagabundo que, em dia de trabalho, oferece, prestimoso e pontual, seu serviço de vidraceiro.

E quem dera um Carlitos para t(r)ocar meu telhado de vidro!