ra, direis, ouvir (as) estrelas! por que, afinal, dar ouvidos a elas: o que têm elas tanto assim para dizer, que estão sempre a falar? E eu vos direi, é certo, perdi o "censo": não sei quantas estrelas há nesse universo, mas, desconfio, quase já beirando a certeza, de que são em maior número do que aquelas que, levantando os olhos, vemos nesse céu mais próximo de nós, espécie de antessala de um outro a que tanto aspiramos, desde que não precisemos, em troca, desde já, abrir mão dos inferninhos tão mais próximos.
Estrelas não são “coisa” de agora, embora, ora, as tenhamos em quantidade tal, que fica até difícil contar, correndo-se o risco de, tendo-se de reiniciar o cálculo, a cada vez que se perde a conta, na ponta dos dedos, apontando, com alguma indiscrição (e estrelas gostam disso!) para elas, perder-se também o senso – que se não é a (nossa) “razão” de viver, é o que, às vezes, empresta à vida seu prazer, dando-nos consciência dele, porque, se não a temos, como sabermos se o que temos tão à mão é mesmo prazer? Porém, que não se carregue na mão, com muita razão, que razão a mancheia é um passo para se perder o senso, a ponto de nos deixar, como loucos, contando estrelas, sem parar, sempre, depois de algumas já calculadas, voltando à estaca zero, tal qual um recitador que passa seus dias, inteiros, a tentar declamar um poema por completo, mas que, após alguns versos, retoma o inicial, voltando ao “Ora, direis, ouvir estrelas!”, talvez, sem que se dê conta disso (o que mostra que ainda tem lá alguma razão de reserva), como precaução para, não chegando jamais ao fim, não dar por findo o jogo, reiniciando a partida: ilusão de muitos de nós, mesmo os que, entre nós, não costumam contar estrelas, não costumam dar ouvidos ao que contam estrelas de revista, há muito deixaram de contar nos dedos (seja o que for), já fazendo bastante tempo que sequer levanta os olhos dos seus cálculos mais pessoais, dizendo, para si mesmo, que esse negócio de céu não é para si, que tem negócios outros, bem mais terrenos, com que se preocupar.
Querendo ou não, temos estrelas no nosso imaginário. Já não volto tanto no tempo, chegando àquele em que, românticos, tinha-se uma estrela própria no céu, escolhida, em conjunto, com alguém que, ora, nos fazia perder o senso, errar nas contas mais primárias, nesse amor tão incipiente. Também entro nessa máquina (de fazer doidos) do tempo, desembarcando em filmes de outra era, quando estrelas, por vezes, eram mais importantes que a própria história, esta, coadjuvante para aquela, degraus pelos quais a estrela descia, gloriosa, reluzente, como se baixasse, divindade de fantasia, de um céu que se sabia efêmero, mas que proporcionava prazer – e há céu que não seja assim?
“Amai para entendê-las!”, disse o poeta, provavelmente, com olhos no céu. E não poderíamos dizer o mesmo de outras estrelas, não das de hoje, que nascem com hora marcada para desaparecerem, tempo curto, porque há muitas outras, à espera, na fila, mas, quem sabe, das de “ontem”, tidas, então, como eternas: e destas podemos dizer que se sua eternidade material se provou uma fraude, a outra, talvez a (mais) verdadeira, a que faz com que continuem vivendo na fantasia de cada um de nós, ainda lhes garante uma sobrevida. E se isso for só mais uma ilusão, será só uma ilusão a mais.
á uma terra de sonhos, contra a palavra, carregada de cientificidade, dos cartógrafos. E, para pesadelos dos mais realistas, dos que só creem em terras que estejam no mapa (e um lugar que não está no mapa é mais contundente prova do sonho), essa terra é bastante real.
Dito isso, desse modo, porém, que ela, essa terra da qual se fala, aqui, sem que se tenha desenhado o caminho das pedras, mesmo que um rabisco apressado, desde que uma pista confiável de como se chegar lá (e, principalmente, em se chegando a essa terra de sonhos, como se sair de lá, para que a viagem não se torne um pesadelo sem fim), fica parecendo que a terra dos sonhos ou não passa de um sonho, sem que isso seja uma maneira de se ratificar o que ela já é, confirmando-se, assim, sua (real) existência, antes, sendo mesmo a confirmação de que, sendo sonho, a terra dos sonhos não existe, ou então é uma invenção – e estas só não têm existência real na cabeça dos que não sabem o prazer de inventar, sequer o de se (re)inventar – de algum cartógrafo invejoso, despeitado, em relação a seus colegas mais realistas, os que só desenham mapas de terra possíveis, sem que haja, aí, um grão de sonho, por jamais ter descoberto uma terra de verdade, chamando-se assim a uma descoberta que, mesmo sendo um pesadelo, não passa perto da fantasia, não fazendo fronteira com o sonho.
Uma terra assim pode estar em qualquer lugar; podendo mesmo existir em um lugar que já existe, realmente, sem que, com isso, o sonho dessa terra se sobreponha à existência real do lugar. Porque, só os realistas ao limite, ou os sonhadores além dos limites, todos uns loucos, não acreditam nisso: sonho pode haver sem que se esteja, estritamente, com os pés fora do chão, tanto quanto a realidade não requer que se os tenha enterrado na terra.
Qualquer terra em que se sonhe é (uma) terra dos sonhos, ainda que, ao se despertar (desse sonho), olhando-se em torno, a realidade seja outra, bem distante do sonho. Aliás, a única possibilidade de que sonhemos, de que sejamos terra fértil para os sonhos, é que existamos, realmente.
inha infantilidade, hoje – e não dizer, simplesmente, infantilismo, com receio de que, com esse sufixo-patológico, pensem que sou um “doentinho”, já mostra o quão sou, se não o doente diminutivo que se pode pensar, certamente, um irrecuperável infantil –, é a crônica atrasada de dias que, passados para trás, caído eu no engodo do tempo à frente, permitiam, com benevolência algo impaciente, que não se fosse responsável, sendo que isso era o ideal de todos, o que de melhor se desejava aos infantes, receando mesmo, em alguns casos, que, insistente em suas infantilidades, mais adiante, não se tendo desgarrado convenientemente desses dias, tornasse-se um irresponsável, ou seja, um inconveniente.
O que os responsáveis de hoje não notam, ou para isso viram a cara, não apenas para não enxergarem, mas, e talvez o façam com indisfarçável prazer, para fingirem a pouca importância que gostariam de dar àquilo, é que só é possível fazer a crônica de quaisquer dias, especialmente os infantis, quando, num equilíbrio precário, estreitíssima corda, quase um fio, em que se tem de se manter, tendo-se, de um lado, a infância sobre a qual se atiram os olhos de agora, enquanto que, do outro, esses (mesmos?) olhos, olhando para trás.
Quem, infantil, aventura-se a, já nessa hora, fazer a crônica desses dias, faz, tão-somente, um documento banal, um a mais, entre tantos que são produzidos – e não apenas por mãos infantis. Quem, sem esses olhos de outrora, hoje, crê ser possível, com olhos de um agora que já não olha para trás há muito, acredita que basta tal afastamento no tempo para que, convenientemente responsável, segundo as conveniências sabe-se lá de quem, possa fazer uma crônica adulta, mas, devidamente, temperada com calculados olhos da infância, faz, no máximo – e, admitamos, não é pouco – uma obra de ficção que, por sorte, até pode guardar alguma sincera relação com aquele tempo.
Não prego – na infância, embora prego e martelo exerçam certo fascínio, não nos deixa, com a liberdade com que gostaríamos de fazer isso, tê-los à mão, ao nosso critério (porque o temos, e só os responsáveis, esquecidos de seus outros dias, dizem que não) – que, cedendo às conveniências, com responsabilidade, até mesmo sobre outras infâncias, permaneçamos com um olho infantil e outro pregado no presente, já que, um já ocupado com o passado, manter o único que sobre, quando se tem os dois, no futuro, parece coisa de criança, de não de responsáveis: agir de tal modo seria como querer dormir com um olho aberto e outro fechado, ou ainda os ter assim, durante a vigília – e sabe que isso é coisa mesmo de criança, e ponto.
Se não prego nada, por que, hão de querer saber, já que isso lhes é conveniente, fico, aqui, martelando essa história de contar, em crônica, uma infância enrolada em linhas cruzadas de papagaios (e periquitos) tácitos, aparentemente, deixando-se manietar por mais que, livre e dominadoras, dão-lhes ora impulso, ora lhes nega mais linha: e é aparência, porque há o vento, que não atende a conveniências, que parece irresponsável quando levanta cabelos já assentados na vida, num desalinho quase infantil, e que é o verdadeiro condutor desses dias. E, talvez, ainda dos de agora, embora, responsáveis, prestemos mais atenção aos documentos, e ainda, quando a conveniência exige, um lenço – e já não cantarolamos nada.
piada é antiga, mas continua um prato cheio, especialmente, para os que, como eu (e não vejo a menor graça nisso), não são versados em piadas, não são versáteis com elas, apegando-se a uma ou outra, que conta e reconta, infinitamente, não levando em conta as vezes em que já a(s) contou, a ponto de chegar a contá-las, repetidamente, à mesma pessoa, até percebendo a repetição, porém, demonstrando, ainda que involuntariamente, pouca consideração para com esse ouvinte, vai adiante, como se estivesse para partilhar uma alegria fenomenal, valendo-se, no entanto, como se, no seu íntimo (que é o meu, aqui), soubesse do seu pouco talento histriônico, de seu próprio riso para completar uma gargalhada que, quando vem – e isso não é certo –, chega-lhe aos pedaços, sinal evidente de uma piada mal-contada, arriscando-se, quem assim se deixa levar por uma necessidade de parecer engraçado, a tornar-se a própria piada: e o que é pior, esta sim, digna de incontroláveis gargalhadas.
E, aqui, a piada é que o melhor prato é um prato cheio. Coisa que, dirão alguns, sem mostrar nenhum humor, não tem graça, beirando, para eles, apesar de carecer (o que chega a ser um ironia, mas não uma piada, em se tratando de tão cheio prato) de sonoros palavrões, o mau-gosto personificado, impressão na qual são, de pronto, acompanhados por outros, os que, também sem humor (gente mais azeda!), veem nessa tentativa de fazer piada um atentado ao seu cultivado gosto, um refinamento com forçado acento francês, ainda que não percebem – ou, percebendo, desconsiderem esse detalhe – que o prato lhes foi servido pela direita, preferindo deliciar-se, com sinceridade incerta, gourmets que se creem, com essas pequenas porções, exemplo de calculado minimalismo com aspirações a obra de arte, antevendo, aí, o gozo supremo que lhes espera, já imaginando – será que suportarão tamanho gozo? – o dia em que, de tão comedida a cozinha, o prato há de lhes ser servido completamente...vazio: ah! delícia!
E mesmo assim, com sorriso nos lábios (de tão pouco que há para comer, é até possível se comer e falar, ao mesmo tempo, sem maiores atentados), não se acham, quando sabem que se tornaram personagem de uma gozação pelas costas, nenhuma piada, maldizendo o dia em que nasceram: não os que, mal-educados, fazem piada de coisa tão séria, mas rogando praga sobre o dia em que eles próprios nasceram, para viverem num mundo que não lhes merece, incapaz de perceber as elegantes sutilezas da civilização, consumindo, essa ralé, com voracidade que não lhes impede que falar com a boca cheia, os pratos cheios da vida, não se dobrando, do alto de sua elegância de manual de boas maneiras, à evidência de que não há arte maior do que se sentir satisfeito.
Mundo, deveras, injusto! Enquanto uns, podendo pagar caro por quase nada, para agradar suas papilas (que podem, na verdade, ser incapazes de distinguir uma verdade a quilo de uma mentira em gramas, valorizando mais esta, só porque lhes custa mais “verdinhas” – que nem estão assim, hoje em dia, tão valorizadas), deploram o prato cheio, os que dariam tudo por um, mesmo que raso, desde que aparentemente cheio (porque sabemos, gourmets inclusive, o quanto se come, e bem, com os olhos), têm de se contentar com módicas porções, forçados a isso, sem enxergarem nem graça nem elegância em parcimônia compulsória.
Mas, refinados, não se sintam culpados, se flagrados com um prato desses na mão, um cheio, já transbordando pelas bordas, não havendo tempo hábil para o esconder (tão cheio como está). Há mesmo uma saída filosófica, misturada com literatura, o que já traz a arte para mais perto: Nietzsche dizia que a sensação de uma consciência tranquila era semelhante à satisfação de se estar com o estômago cheio.
Os finos (melhor conhecedores tanto de filosofia quanto de literatura – e ambas essas “cozinhas”, sou adepto do prato cheio) podem torcer o nariz, desviar os olhos, não engolir isso, e ainda ter ânsia de vomito, diante de argumento assim para justificar uma comilança, mas, na hora da fome, somos todos bichos, queremos mesmo é sobreviver. E se o conseguimos, com estômago já cheio, não há espaço, consciência sossegada, para sentimento de culpa – a não ser o de não ter comido mais.