terça-feira, outubro 01, 2013

O QUE SE PASSA COM ESSA CABEÇA?




Falar disso é uma maneira, menos incômoda, de trazer o assunto à (minha) cabeça; mas se, ao contrário da expectativa que mantenho, começar a me sentir desconfortável nessa situação - e o sinal pode ser uma coceira repentina -, paro, na hora, e nunca mais volto a pensar em...piolhos.

Houve tempo (que ainda resiste em certas lembranças: diretamente, pela lembrança de uma experiência vivida, mesmo que, então, não se fosse seu protagonista, um herói covardemente atacado por um bando de minúsculos, mas asquerosos, inimigos, ou através de lembranças indiretas, podendo ser estas apenas um testemunhar, como simples espectador, sabe-se lá se se identificando com as agruras do herói ou com uma experiência já bastante diluída para que ainda se a tenha como própria) em que se "catava" piolhos na cabeça das crianças, e nesse mesmo tempo, imagina-se que fora eles, elas, as crianças, não tinham mesmo nada "ali", o que, por extensão, nos leva à moralista conclusão de que nada de mal existe na cabeça de uma criança; e as teorias vigentes de que a coisa, para o bem ou para o mal de todos nós (que, afinal, fomos uma delas), não é bem assim, que toda criança, além dos piolhos, já naquela época, tinha (n)o que pensar, tanto que davam no que pensar, e ainda que, mesmo sem moralizar o ato, houvesse os piolhos, um mal que as atacava, havia, por outro lado, tão "à mão", quem os catasse, com bravura materna de quem, para salvar o filho, não descansa enquanto não esmagar cada inimigo, um a um, lutando até o fim, com unhas, sobretudo com elas, e dentes rangendo num misto de raiva pelos piolhos escapados e prazer pelos que são subtraídos sob o peso de sua unha.

E a vitória seja dada às mães! E louvadas sejam suas mãos! Relíquias sejam considerados seus dedos milagrosos! E não duvido de que uma lasca dessas suas unhas, sujas desse trabalho de morte, ainda faça o milagre de que um filho extraviado, tendo deixado tanta coisa lhe passar pela cabeça, sinta-se, pela lembrança rediviva, talvez reanimado por uma coceira repentina na cabeça, experimente, ao longe, onde estiver, essa volta ao lar - e se o "motivo" não parece dos mais elevados, os resultados desse regresso o legitimam, até porque é muita falta de originalidade, com tantas lembranças na (nossa) cabeça, recorrer sempre a uma "madaleine" (coisa da cabeça de Proust: mas isso já é uma outra leitura).

Se era assim, hoje, como piolhos, crianças que foram, há os que, "tachados" de maus, de cara, sem que se ocupe com o que lhes vai pela cabeça (embora seja um recurso demasiado fácil, e nem sempre justificável, buscar no "mau" de cada homem uma criança vilipendiada, seja por um ataque indesejável de piolhos, seja, com sua própria defesa, pela falta de mão de mãe sobre sua cabeça: nunca se fala do poder da unção paterna), catam crianças.

E catam-nas pelos precipícios que não faltam, pois é mesmo da natureza de toda criança sentir-se atraída por essas visões perigosamente sedutoras; sejam tais precipícios naturalmente desenhados, um relevo que ali está, perigoso, sedutor, talvez originalmente apenas uma notação topogeológica num cume de um nada, sem maior "moralidade" e que, com o desbastar provocado pelo tempo, ficou assim, assemelhando-se a um abismo.

Seria precipitado - e já não somos crianças para abusar disso -, chamando-os, esses catadores de crianças, de piolhos da sociedade, querermos, atirando no abismo voraz todo o conhecimento que muito custou a tantas cabeças, a custa de muitas coceiras, retóricas ou não, esmagá-los, um a um (porque se multiplica, assim, o deleite com esse espetáculo), com as mães na linha-de-frente, já que elas sempre fazem boa figura, mesmo que jamais se tenham (pre)ocupado com o que se passava na cabeça de suas crianças, mal sabendo a origem das coceiras próprias, eu.

Não! não nos esqueçamos, deixados de lado outrora, ocupados com inimigos maiores para darmos atenção a simples piolhos, ( "raspem a cabeça desse moleque, e pronto!"), dos pais, dos homens nessa história toda.

Declarada a guerra, com as mães levando os estandartes, que elas dizem ter tecido, ainda que não saibam segurar uma agulha (e isso não é uma alfinetada misógina), com o lema "salvem nossas crianças", "morte aos piolhos (da sociedade)", seguem-se, seguindo-as, os pais, os homens honrados que, aliás, estão ali justamente para emprestar a essa guerra sua honradez, da qual se crêem fiéis e exclusivos depositários: quantos já se aproximaram de precipícios? Quantos, vendo a coceira na cabeça de uma criança, ocuparam-se dela? quantos, simplesmente, cortaram-lhes a cabeça? Quantos sabem o que se passa na sua própria? Quantos não se "precipitarão"?

A morte, pura e simples, dos piolhos acabará com o mal? Isso não sei: nem sou pai! e homem, não conheço todos os meus precipícios - embora muitos nem me passem pela cabeça.




domingo, setembro 01, 2013

MARAVILHA CURATIVA







Por mais que se queira contestar as coisas do mundo, deste, porque partir para o outro, além de não ser algo que se se disponha a fazer, por vontade própria, ainda que se leve a maior fé nele, é entrar no campo das especulações, nessas plantações de ideias sem compromisso, necessariamente, com a verdade, valendo-se do legítimo direito de pensar o que se quiser, não se pode negar – embora isso seja plantar uma semente no mesmo terreno fértil das especulações –, contrariando os mais “revoltosos”, há, sim, uma ordem natural para as coisas.

O morde-e-assopra, por exemplo, mesmo que isso pareça, tendo-se falado em especulações, o que nos remete a pensamentos mais criteriosamente elaborados, já flertando com a filosofia (talvez com a Filosofia, já que se há, hoje, um campo que faz florescer qualquer pensamentozinho, é esse, gerando safras portentosas de filosofias em sacos), um exemplo aquém das expectativas. É essa sua ordem: primeiro, morde-se; depois é que vem o sopro, como uma lufada de analgésico que atua no mecanismo psíquico, já que, na carne, a mordida continua a doer – a arder, é melhor dizer.

Se, querendo-se andar contra o vento, para exibir sua força, isto é, a própria, e não a do vento, contestando, por extensão, a lei da gravitação universal, num ato de revolto fadado ao fracasso, parte para, antes, soprar, como se assim se oferecesse, de início, o alívio para uma dor ainda não experimentada, e só então é que se chega com a mordida, de nada valeu o esforço em tanto se soprar (sabe-se que alguns analgésicos atuam melhor em dosagem certa, além da qual, mais do que provocar um alívio maior, pode causar um mal a mais), porque, vinda em sua esteira, a mordida não modera seus dentes, não condescende com seu cravar, não recua diante do sopro que, a essa altura, de ar como é feito, já se desfez em si mesmo.

Por outro lado, ainda rolando entre os dedos a mesma moeda, se se morde, mas recusa-se o sopro na sequência, exercita-se, no máximo, um sadismo qualquer, a não ser que se seja criança, considerando-se que seus dentes em leite a chamam para essa experiência, não fechando nossos olhos para uma vingança infante; ou, se só se sopra, sem ter havido, anteriormente, uma mordida que justifique esses sopros, isso não alcança mais do que um fugaz refrigério – e a depender do hálito, prefere-se conviver com o calor.

Longe de mim cortar a cabeça dos contestadores: de algumas, saíram boas coisas; em outros, o melhor que fizeram na vida foi justamente perder a cabeça, mesmo que tenham preferido(?) perdê-la desse jeito, acreditando na possibilidade, cada vez mais remota, de se tornar um herói, tendo aberto mão de maneiras mais prazerosas de, igualmente, ao sabor dessa decapitada metáfora, se perder a cabeça, até porque, com a minha mediocremente no lugar, pouco dada até mesmo às revoluções que lhe são permitidas pelo eixo do pescoço, sublimo nesses revoltosos sem causa a minha falta de traquejo para segurar mastros, levantar bandeiras, expor um estandarte de novas ideias.




quinta-feira, agosto 01, 2013

ALICIAMENTO REAL PARA A FÁBRICA DE FANTASIA





Só se sabe que uma terra é das maravilhas, quando se veio da realidade: só esta é capaz de emprestar àquela a fantasia que nos enche, quase a nos esquecer de que, uma hora, a fantasia acaba (e o tempo é uma realidade que, enganosamente, apresenta-se como fantasia).

Viver sempre, e simplesmente, com todas as complexidades que lhe são inerentes, na vida real, além de ser um atraso de vida, tendo de contar os minutos para escapar de uma impontualidade, é desconhecer o outro lado, talvez com receio de, indo lá, de lá não mais se retorne, percebendo, intuitivamente – porque, no íntimo, acreditamos que a fantasia é mais saborosa que uma realidade, por mais saborosa que esta, circunstancialmente, como é do caráter de todo real, apresente-se – que o fantástico é um país ao qual se pode ir, depois de uma longa temporada na pátria (do) real, mas cujo (real?) valor só é possível de ser mensurado, se não se fica lá, eternamente, pois, assim, o que era fantasia, contrastando com o real, tornou-se, agora, nossa própria realidade, e, por ironia, passaremos a querer voltar à (nossa) antiga realidade, que tomamos ora como ansiada fantasia, já não suportando o peso de viver na própria fantasia, transformada em cotidiano, com todo o peso de uma rotina real.

Em tudo isso há um grande mistério: saber quanto tempo se pode permanecer na realidade, e quando se deve deixá-la, indo, como se este fosse mesmo nosso destino, mais cedo ou mais tarde, rumo à fantasia mais desregrada; saber quanto tempo se deve ficar na fantasia (embora tanto o tempo quanto o “dever” não façam, na nossa fantasia, parte de um mundo que não seja a nossa realidade), e quando se deve dar adeus a toda essa ilusão, retornando a casa, uma casa que, sendo real, tem cara de casa, e não, como acontece na fantasia, pode ter cara de tudo, até mesmo de casa, desde que essa seja uma “casa de fantasia”.

Se eu conhecesse esse segredo, não creio que pudesse ficar rico, mesmo que isso seja uma fantasia que nos “assalte”, corriqueiramente, em meio aos tropeços de nossa realidade esburacada: e não poderia porque fantasia não é algo que se compre, ainda que haja que se disponha a vendê-la, já que, ao se a comprar, estar-se-á introduzindo o real na fantasia, e isso seria como comprar gato por lebre – personagens, aliás, de uma boa fantasia.

Caso eu conhecesse a solução para tal enigma, daria, a quem quisesse receber, gratuitamente, porque esse doar, de graça, também faz parte, envolvidos num toma-lá-dá-cá diário e cruel, das nossas fantasia, especialmente aquela de, tendo ido desta realidade, possamos ir para uma melhor.

Enquanto só podemos ir á fantasia de quando em vez, vamos lá! Não nos apeguemos demasiado à realidade, da mesma forma que, seduzidos por um gato fantasiado de lebre, evitemos, pondo os pés nessa terra irreal, afundarmos também a cabeça, ainda que muitos crêem, e também eu, que não vale a pena entrar numa fantasia se não for por inteiro – e este pode ser mais outro mistério da nossa vida real.



segunda-feira, julho 01, 2013

A LIVRE UNIÃO DE PAPILLON COM ALCATRAZ





Uma prisão sem paredes parece ser, especialmente, aos olhos que só a veem de fora, a fantasia de todo preso, sendo muito mais a própria fantasia dos que observam tudo isso com liberdade do que, propriamente, a do preso, fantasia, daqueles, do que seja um preso, de como ele, preso, se sente, e do que, sentindo-se assim, preso como está (ou como é), ele fantasia, aos olhos do mundo – preso também, a sua maneira, mas, tecnicamente, livre –, o quanto deste mundo que pode ser observado de dentro da prisão, de se sentir na mais completa liberdade, não levando em conta os olhos-espectadores, que, sem paredes, e, portanto, sem grades, porque, então, não haveria base para sua sustentação, ou não é uma prisão – se é, não passa de uma fantasia – ou é, sim, prisão, e sendo isso que é, que diz ser, não pode abrir mão das paredes e, em consequência, das grades.


Assim é que o preso fantasia, enquanto, de cá, os olhos fantasiam não só o preso, mas ainda suas próprias fantasias, podendo ser que a fantasia do preso seja acerca de quem, fora das grades, observa-o, fantasiando-se, na sequência, a fantasia que se tem das fantasias do preso, num jogo, de semelhança especular, como um espelho frente a outro, em que não há possível vencedor, porque, afinal, tudo aí não passa mesmo de fantasia, e o vencedor, determinando, com sua vitória, o fim do jogo, poria terno à (própria) fantasia.

Certamente, haverá quem interponha a tudo isso – se não com certeza do que faz, apenas para realizar uma fantasia, a de contestar –, a esse (meu) desfile de fantasia(s), de luxo duvidoso, de originalidade suspeita, a experiência pessoal (nem sempre sentida na própria pele, podendo saber disso através de alguém “muito próximo”, ou até por si mesmo, porém, com a pele, onde se deveria sentir a tal experiência, coberta por uma fantasia que, em que pese a leveza de um tecido fino, esconde-a, de verdade) de que existe (um) preso, ainda que todas as portas estejam abertas (e portas pressupõem, em nome da boa arquitetura dos lares, que haja paredes), confundindo a ausência de impedimentos visíveis com a liberdade total, ou a presença de uma parede, por menos “notável” que seja, com ou sem grades (e a segurança pessoal, hoje, exige-as, cada vez mais), com o cerceamento de um legítimo direito, o de ir e vir. E, penando assim, esses devem, entre todos, ser os mais fantasiosos.

Fantasia recorrente, quando fantasia era um traje obrigatório, era a de preso, com fantasiosas roupas listradas, quase um pijama (de) aposentado, por vezes, exagerando na fantasia (se é possível estabelecer limites para ela), arrastando, com esforço fingido que, no meio da fantasia toda, acaba-se esquecendo, uma bola de ferro atada ao pé: eis a liberdade de se fantasiar do que se quiser. E quando ao fato de a realidade ser bem outra, de presos (já) não andarem, quando têm permissão para fazer isso, com uniformes listrados, limpos, unidos a grilhões, se ela fosse assim, então, a fantasia, para ser o que é, deveria ser outra: quem sabe a fantasia preferia não viesse a ser a de um livre total.

Mas, como seria tal fantasia? Sendo um livre total, em si, uma fantasia, como se a expressaria, por fora, essa ausência de grades, inclusive por dentro?

Como tal homem (ou mulher), livre assim, não há, cada qual com suas próprias correntes – comumente, no pescoço, embora haja os que a trazem justamente no tornozelo, lugar preferido dos grilhões –, pode-se fantasiar do jeito que for, até mesmo com uma camisa-de-força, desde que se afirme que isso é que é liberdade, não dando, no entanto, a mesma aos olhos que, vendo aquilo, sentenciam: que prisão!