quarta-feira, janeiro 01, 2014

CÁLCULO INSONDÁVEL








ma obra monumental não tem de ser, necessariamente, uma enorme pirâmide, até porque, eternas como algumas se mostram, apesar dos evidentes sinais do tempo, curiosamente, revelando, vez ou outra, à força da perscrutadora mão do homem, em pesquisas com desculpa das mais cientificas, os restos (mortais) de quem, um dia, creu-se tão monumental, feito, no entanto, de carne – com os prazeres e os desgostos que isso acarreta, mesmo que não se experimente, durante toda a vida, por mais longe que ela seja, uma carreta de prazeres, ou de desgostos – e ossos, que esperava, admirando-se como um colosso em vida, sobreviver às pedras piramidais sob as quais ficaria, “provisoriamente”, soterrado.

São tais obras, é preciso admitir, colossos da imaginação humana que não podemos negar que sejam, anacrônicas, seja porque o ideal, agora, é ser, citando o poeta, com sugerida intimidade algo suspeita, eterno só enquanto dure...a carne (com seus prazeres, afastados, se possível, os desgostos, embora, sem estes e (só) com aqueles, que vida seria essa?!), enquanto durem os ossos, de pouco valendo uma intrincada engenharia que submete, com seu peso de toneladas geométricas, o próprio tamanho do homem que as concebeu, tido, então, como divino ou por mera força retórica ou por uma exigência hierática, hierárquica, já que não seria dos atos mais prudentes (e a imprudência, assim como a impudência, é ato, tipicamente, humano) ir contra às vontades do faraó, com força expressiva, mesmo embalsamado, para manter sua realeza.

Obra monumental pode ser, simplesmente, uma ponte: e nem falo, aqui, de uma de pedra, que custa, como se pirâmide fosse, tamanho esforço, trabalho de tantos homens, porque esta, por mais simples, envolve sempre sua própria complexidade, algo até bastante chão para quem lida, cotidianamente, com isso, mas aproximando-se, perigosamente, do inextricável para quem faz de sua lida diária só uma sucessão de rotinas, um cotidiano ultrapassar das horas, sem se envolver em cálculos demasiados, essas mesmas contas que emprestam, aos olhos de alguns (que também se conta com os olhos, desde que a quantidade não seja lá essas coisas), uma postura de firmeza, ainda quando se esteja calculando uma colossal fornalha doméstica, devendo, segundo os cálculos visuais, caber na cozinha.

Observar uma obra, visivelmente, grande é de encher os olhos, tendo-se, às vezes, que se a olhar aos pedaços, por não caber, de uma só vez, inteira, nesses mesmos olhos. Obras, aparentemente, diminutas – e não é preciso repetir, em um caso (aquele), como no outro (neste, agora), os quanto os olhos se enganam – exigem muito do olhar, embora muitos olhares desprezem-nas, por serem tão pequenas, crendo que, por isso, não são importantes, havendo, porém, o que pode ser, igualmente, mais uma ilusão do olhar, quem atribua ao caráter microscópico de uma obra sua real importância, tomando, então, seu valor não pelo que dela pode ver, mas pelo que, não enxergando, intui ser um trompe l’oeil: ah! as ilusões!

Somos, aos nossos próprios olhos, ora os faraós, olhando de cima obras pequenas, só para, nessa perspectiva, emprestar-lhes algum valor, uma importância de que outros olhos não se dão conta (porque, provavelmente, estão mais interessados em suas próprias obras, em suas próprias ilusões), ora os mais reles operários, sem ilusão de vir a ter seu nome escrito na História, entrando para esta sob a rubrica confusa de uma generalidade impessoal. Seja como for, as obras que deixamos – reais ou a mais pura das ilusões: e uma grande ilusão pode ser a obra da nossa vida – só são grandes ou desprezíveis aos olhos de quem as vê. E o um dos maiores mistérios da alma do homem é porque insiste (porque insistimos) tanto em ver suas obras pelo olhar do outro, um outro tão de carne e osso, quanto nós.




domingo, dezembro 01, 2013

"TODOS JUNTOS VAMOS..."





Lá se foram os dias de marcha-soldado, com a cabeça devidamente(?) de-papel, num exercício de militarismo precoce, em parte, sustentado pela imemorialidade das guerras que parece lhes emprestar certo atavismo, psicológico ou histórico - na hora da batalha, isso pouco importa -, especialmente entre os meninos, mesmo entre os pacíficos, talvez bem mais entre estes, como antídoto à suspeição, por um diagnóstico comprometido com os preconceitos do próprio médico, de indesejável feminilidade, não raro sendo apenas o resultado caótico de uma pantomima infantil, desequilibrada por natureza (até aprender a andar com as próprias pernas sobre o fio da aceitação geral, ainda que pagando o preço de usar, então, "pernas mecânicas" e que sequer foram moldadas levando-se em consideração o modelo que virá a usá-las, mas uma prótese que, tamanho único, "tem" de entrar, tem-se de nela(s) entrar, se se quiser andar com alguma certeza de ser aceito, caso contrário, o fio é frágil), confundindo-se esses trejeitos desajeitados com um desvio de conduta, sem mesmo sentir responsável por esse ziguezague, a mão que, pela mão, vem trazendo essa infância adiante no tempo.

Já não se veem essas "manobras de guerra" nos pátios das escolas, restando, quando muito, numa saída programada, a ordem unida, mão tocando o ombro do colega à frente, assim como o seu é tocado, ao menos agora com uma mistura de gêneros, já que ar Forças Armadas admitem o feminino: e não é de todo estranho especular que o fim dessa pedagogia coincide com o rompimento de uma trama histórica, contemporânea, urdida nos quartéis (para onde iriam - para onde mais iriam? - os soldados, caso não marchassem "direito"), com efeitos perduráveis, cuja não percepção imediata, como um vistoso quepe de papel, talvez de jornal com as notícias das guerras do dia anterior, muito maior esse chapéu "oficial" do que a cabeça assim ungida, evidencia seu enraizamento, dando seus frutos com "naturalidade".

Crê-se, agora, ser essa era já afastada demais e isso só porque se pode gritar palavras de ordem, numa insubmissão à autoridade que não se renova, lançando-se mão de um repertório que talvez reforce mais, por um mecanismo sutil, a autoridade contestada do que ameace sua solidez, sem que se ouça, de pronto, uma ordem de prisão, havendo, inclusive, num arranjo de enrubescer os mais nostálgicos, proteção policial para a desordem(?) ensaiada: catártica para os que se acreditam dela protagonistas, mesmo que não tenham uma fala própria e só façam parte do coro, nessa tragédia juvenil, que assim sentem-se como se vencendo os perigos de um rito de iniciação misterioso, aptos para a vida de desafios - e, por ironia, é possível que o próximo desafio seja apresentar-se, no outro dia, logo cedo, pela manhã, que é a hora dos soldados entrarem na ativa, para o...serviço militar obrigatório, reservista de prontidão para uma guerra sem fim -, e não menos propiciadora de uma catarse para a vasta assistência, seja aquela da primeira fila, seja a que passa pela calçada desse teatro de marionetes, sem fios, o que reforça a ilusão de liberdade, na medida em que, patrocinadores passivos desse desfile, cuja iconoclastia se resume a quebrar ídolos já trincados, acham-se assim cumpridores dos seus deveres didático-paternais de mostrar aos filhos que é preciso ir à luta, desde que a manifestação não ocorra justamente na hora do jogo da seleção, na hora marcada para esse delicioso ópio, talvez o único, dado o preço das papoulas, a que se terá acesso.

"E de repente é aquela corrente pra frente..."


sexta-feira, novembro 01, 2013

O REAL VALOR DE UM BERRO








anhar no grito, acreditem (ACREDITEM!!!), já foi, um dia, civilizado. Aliás, aí está o começo da (nossa) civilização política. Naquela Grécia, menos berço da democracia do que manjedoura, em que pese a contradição pagã, da nossa fantasia de igualdade, de povo, de poder, naquela mesma Grécia em que democracia não era para o povo, sendo, antes, para os melhores, numa aristocracia, ou para alguns poucos, numa oligarquia, ou para os que podiam pagar (por ela), numa plutocracia, aprendia-se, desde cedo, sob a orientação de um legítimo cidadão, ainda efebo então (e deixaremos de lado outras “orientações”, por mais historicamente pertinentes), a arte da oratória, da retórica, a arte de se sofismar, a arte, enfim, de ser fazer ouvido, quando as questões centrais eram discutidas na Ágora, com todos querendo falar, quando se podia ganhar (ou perder) no grito.

Hoje, tão mais civilizados, ainda lutando com uma democracia que insiste em não se levantar do berço, ora preferindo os braços polpudos dos plutocratas, ora os afagos poucos, mas concentrados, dos oligarcas, ou a glória de ser embalada pelos (melhores) aristocratas, vencer “no berro” é lançar mão, rápido no gatilho, de uma arma cada vez mais perigosa, e não por um aumento no seu poder de fogo, mas por estarem nas mãos de poucos, espécie de oligarcas que não aspiram a ser os melhores, embora isso possa fazer bem a sua vaidade, mas preferem ser plutocratas, porque sabem, como se herdeiros da mais genuína lógica formal (também nascida na Grécia), que com dinheiro podem passar pelos melhores, comprando votos, se preciso for, ou forçando a venda da aceitação alheia, no berro e no grito, não se sabendo, a essa altura, o que mais intimida, se o “berro” em silêncio, ou se um grito de verdade, mesmo que o “berro” seja de mentirinha.

Naquela Grécia, vivia-se como civilizado(s), ainda que esse conceito de civilização, hoje, nos surja tão elitista (termo tão caro aos democratas que se creem melhores só por se juntarem, circunstancialmente, ao povo), vencendo no grito. Agora, no berro, sequer se pode morrer assim, civilizadamente: e talvez esteja aí nossa mais profunda experiência democrática, na medida em que, morrendo-se assim, junta-se, na mesma vala-comum (ressalvado o velório diferenciado), o democrata genuíno, o plutocrata descuidado, o aristocrata que, pela primeira vez, vai conhecer o pior dos mundos, e o oligarca que, de tão assim, sempre andando com poucos, viu-se encurralado numa luta numericamente desigual.

Agora, a Ágora é um lugar distante, sempre muito longe, por mais que, no mapa, esteja nas proximidades. O lugar das decisões é projetado com isolamento acústico para que só se escutem os “berros” de dentro, onde não entram os gritos de fora: e quando, por descuido da segurança, entra, aí, um “berro” que não seja de um dos de dentro, o alarme soa, como um grito geral, mas, como sabe todo aquele que, um dia, já se espantou com o soar repentino de um alarme, crendo na promessa de sua duração, ele, uma hora, e isso costuma ser logo, cessa, calando os gritos de fora, voltando tudo aos mornos berros de dentro, que sequer são filosóficos, não passando, na maioria (e a minoria não faz diferente), de uns artistas que torcem e retorcem a lógica, como se construíssem, assim, uma nova civilização em que o povo é somente um aspecto formal, sem o qual sua teoria ideal não se sustenta.















terça-feira, outubro 01, 2013

O QUE SE PASSA COM ESSA CABEÇA?




Falar disso é uma maneira, menos incômoda, de trazer o assunto à (minha) cabeça; mas se, ao contrário da expectativa que mantenho, começar a me sentir desconfortável nessa situação - e o sinal pode ser uma coceira repentina -, paro, na hora, e nunca mais volto a pensar em...piolhos.

Houve tempo (que ainda resiste em certas lembranças: diretamente, pela lembrança de uma experiência vivida, mesmo que, então, não se fosse seu protagonista, um herói covardemente atacado por um bando de minúsculos, mas asquerosos, inimigos, ou através de lembranças indiretas, podendo ser estas apenas um testemunhar, como simples espectador, sabe-se lá se se identificando com as agruras do herói ou com uma experiência já bastante diluída para que ainda se a tenha como própria) em que se "catava" piolhos na cabeça das crianças, e nesse mesmo tempo, imagina-se que fora eles, elas, as crianças, não tinham mesmo nada "ali", o que, por extensão, nos leva à moralista conclusão de que nada de mal existe na cabeça de uma criança; e as teorias vigentes de que a coisa, para o bem ou para o mal de todos nós (que, afinal, fomos uma delas), não é bem assim, que toda criança, além dos piolhos, já naquela época, tinha (n)o que pensar, tanto que davam no que pensar, e ainda que, mesmo sem moralizar o ato, houvesse os piolhos, um mal que as atacava, havia, por outro lado, tão "à mão", quem os catasse, com bravura materna de quem, para salvar o filho, não descansa enquanto não esmagar cada inimigo, um a um, lutando até o fim, com unhas, sobretudo com elas, e dentes rangendo num misto de raiva pelos piolhos escapados e prazer pelos que são subtraídos sob o peso de sua unha.

E a vitória seja dada às mães! E louvadas sejam suas mãos! Relíquias sejam considerados seus dedos milagrosos! E não duvido de que uma lasca dessas suas unhas, sujas desse trabalho de morte, ainda faça o milagre de que um filho extraviado, tendo deixado tanta coisa lhe passar pela cabeça, sinta-se, pela lembrança rediviva, talvez reanimado por uma coceira repentina na cabeça, experimente, ao longe, onde estiver, essa volta ao lar - e se o "motivo" não parece dos mais elevados, os resultados desse regresso o legitimam, até porque é muita falta de originalidade, com tantas lembranças na (nossa) cabeça, recorrer sempre a uma "madaleine" (coisa da cabeça de Proust: mas isso já é uma outra leitura).

Se era assim, hoje, como piolhos, crianças que foram, há os que, "tachados" de maus, de cara, sem que se ocupe com o que lhes vai pela cabeça (embora seja um recurso demasiado fácil, e nem sempre justificável, buscar no "mau" de cada homem uma criança vilipendiada, seja por um ataque indesejável de piolhos, seja, com sua própria defesa, pela falta de mão de mãe sobre sua cabeça: nunca se fala do poder da unção paterna), catam crianças.

E catam-nas pelos precipícios que não faltam, pois é mesmo da natureza de toda criança sentir-se atraída por essas visões perigosamente sedutoras; sejam tais precipícios naturalmente desenhados, um relevo que ali está, perigoso, sedutor, talvez originalmente apenas uma notação topogeológica num cume de um nada, sem maior "moralidade" e que, com o desbastar provocado pelo tempo, ficou assim, assemelhando-se a um abismo.

Seria precipitado - e já não somos crianças para abusar disso -, chamando-os, esses catadores de crianças, de piolhos da sociedade, querermos, atirando no abismo voraz todo o conhecimento que muito custou a tantas cabeças, a custa de muitas coceiras, retóricas ou não, esmagá-los, um a um (porque se multiplica, assim, o deleite com esse espetáculo), com as mães na linha-de-frente, já que elas sempre fazem boa figura, mesmo que jamais se tenham (pre)ocupado com o que se passava na cabeça de suas crianças, mal sabendo a origem das coceiras próprias, eu.

Não! não nos esqueçamos, deixados de lado outrora, ocupados com inimigos maiores para darmos atenção a simples piolhos, ( "raspem a cabeça desse moleque, e pronto!"), dos pais, dos homens nessa história toda.

Declarada a guerra, com as mães levando os estandartes, que elas dizem ter tecido, ainda que não saibam segurar uma agulha (e isso não é uma alfinetada misógina), com o lema "salvem nossas crianças", "morte aos piolhos (da sociedade)", seguem-se, seguindo-as, os pais, os homens honrados que, aliás, estão ali justamente para emprestar a essa guerra sua honradez, da qual se crêem fiéis e exclusivos depositários: quantos já se aproximaram de precipícios? Quantos, vendo a coceira na cabeça de uma criança, ocuparam-se dela? quantos, simplesmente, cortaram-lhes a cabeça? Quantos sabem o que se passa na sua própria? Quantos não se "precipitarão"?

A morte, pura e simples, dos piolhos acabará com o mal? Isso não sei: nem sou pai! e homem, não conheço todos os meus precipícios - embora muitos nem me passem pela cabeça.