sexta-feira, maio 01, 2015

DEUS END





Quando um cinema fecha, Deus dá gargalhadas – e não qualquer (porque são muitos, especialmente os autoproclamados assim) deus do cinema, mas Aquele mesmo que, de tão-poderoso, perfeito em Sua própria definição, soa a personagem de ficção, a coisa de cinema mesmo. E se em seu lugar (e há certos Cinemas que mereciam que a “Ele” se associassem sempre letras maiúsculas) nasce uma nova velha igreja, justamente com o argumento, um dos mais velhos deste mundo (de meu Deus), de se louvá-Lo, aí é que as risadas dobram de tamanho, quase parecendo, aos mais descuidados, uma trovoada sem par.

E é assim porque Deus, tão ingênuo que criou o mundo, sendo a nossa criação o máximo de Sua ingenuidade, na crença de que nos contentaríamos, para sempre, em sermos somente Sua semelhança, imagina que tudo aquilo não passa de uma piada, de uma já repetida, espécie de clichê indispensável em filmes do gênero, como a inevitável casca de banana no meio do caminho que, desprezada um dia por ser óbvia demais, ressurgiu como um clássico eterno, quem sabe se coisa do diabo em dia inspirado, porque não passa pela cabeça divina que alguém queira trocar um cinema, que também tem lá seus “fiéis”, por uma assembleia de Deus.

Logo, no entanto, Ele acaba caindo (gerúndio impróprio para um deus) na real, percebendo o quando a comédia, levada ao seu extremo, perigosamente se aproxima do trágico. Chorar não fica bem à face de Deus: se Ele não nos der o (bom) exemplo, como suportaremos levar adiante o filme da nossa vida, com o peso de sermos, ao mesmo tempo, autores, encenadores, diretores, produtores, atores, contra-regras, bilheteiros e pipoqueiros?

Mas, transformar, num ato de vingança, que não deve agradar a Deus, os cinemas em novas igrejas não parece ser solução: logo teríamos, em vez de espectadores, com direito a ir e vir, crédulos acorrentados a ideia de que deles depende a sobrevivência do mundo (do cinema): e, pensando bem, coisa que fazemos melhor do que Deus, esse Cinema é coisa do passado, sendo que, muitas vezes, aquilo que o do presente nos oferece de melhor é o querer sair de casa, desse nosso mundinho que recriamos a todo instante, enchendo-o (como se isso fosse sinônimo de inspirada criação) de possibilidades que não nos tiram de casa, a ponto de alguns só conhecerem certas paisagens, com mar ao fundo, nos limites do home theater: e gente, quando lhes aparece pela frente, tomam-na como coadjuvantes que, sabe-se lá por que encanto demoníaco, escapou da ficção.

CHICO VIVAS

quarta-feira, abril 01, 2015

LEMBRANÇA DO BONFIM





Em princípio, sem que eu saiba quem “inventou” essa tese – e nem é nenhuma “tesão” –, tudo deve sempre começar...do começo: e ouvindo isso, qualquer um, que nunca tenha escutado falar em lógica formal, em dialética, e que-tais, há de dizer que seria mesmo perda de tempo, desperdício de pensamento se elaborar uma tese (seja isso o que for) só para se dizer o que todo mundo já sabe, que, enfim, é do começo que tudo deve começar, ora!

A princípio, e que não é a mesma coisa que já se disse anteriormente, tendo-se começado – e, aqui, ainda não o fizemos, embora, formalmente, se há alguma lógica em tudo o que se diz, sim, já demos a partida –, espera-se chegar, se não se perder no meio do caminho, a um fim: se bom, isso depende muito da fé que se tenha, da disposição em se ultrapassar obstáculo que se ponham no (meio do) caminho, mesmo que tal empecilho não seja uma simples ladeira, mas uma verdadeira colina. No entanto, seja para nos fazer rir – pelo menos aos que riem de qualquer coisa, que acham graça em tudo – ou por uma ironia não se sabe de quem, talvez só uma coincidência sem interferências pessoais, o fim, aqui, chama-se Começo.

Sendo assim, sairemos (porque não nos enganemos com tantas linhas: a verdade é que ainda nos encontramos no mesmo ponto de partida), do começo, claro (seria ironia demasiada, inverossímil até para quem gosta tanto de inverter a ordem, sem, porém, jamais a contestar), nosso destino é alcançar um fim. Contudo, chegando lá, o máximo que poderemos afirmar, depois de tanta travessia, de cumprida essa jornada, tendo ou não escalado uma colina, podendo nem mesmo ter sido preciso subir uma suave elevação, descendo-a, na sequência, é que estamos (de novo?) no Começo.

Com isso não quero afirmar que começo e fim são a mesma coisa, que, assim, estaremos sempre andando em círculos, nunca avançando, sem varar a fronteira imposta, deixando mundos desconhecidos (se é que ainda resta algum, neste mundo) mergulhados na bruma da falta de (nossa) descoberta – o que, baseando-nos no que fizemos das nossas velhas descobertas, olhando para seu estado atual, talvez seja o que de melhor pode lhes acontecer: permanecerem desconhecidas.

A essa altura – e não custa repetir, por mais que isso já esteja cansando, que, círculos cumpridos, ainda estamos lá, no começo, sem que o confundamos com o Começo, que, já ficou esclarecido, é o fim, ao menos do ponto de vista de quem o tem como destino, pois, para quem se encontra já lá, no Começo, ele é, se se quiser sair dali, desejando-se alcançar um outro ponto, o começo, e ponto final – pode-se estar perguntando a razão de tantos descaminhos. Eu respondo: apegado como sou a formalidades, não sei partir do fim, simplesmente, a não ser que, partindo daí, queira chegar ao começo, tão-somente invertendo a ordem; desse modo, temeroso de conceber um novo mundo (de coisas), acho mais seguro partir do começo, ainda que não haja garantia, só por ter dado a partido, de que vou, afinal, chegar a algum lugar.

Agora, sim: foi dada a partida. E aonde isso vai dar, nem sei se sabe disso Nosso
Senhor do Bonfim.

CHICO VIVAS

domingo, março 01, 2015

ENCONTROS FURTIVOS


                                                                                   


Vagando, ao contrário do que intimamente esperasse, embora não o trouxesse à consciência, talvez para evitar frustrações, como se assim, encontrando-o, tomasse isso como uma surpresa, se não, não tendo (conscientemente) criado expectativas, nada sofresse (ainda que tantas dores se alojem em vãos do inconsciente, à espera – elas também! – de uma oportunidade para escaparem dali), não me deparei, em todo o caminho, e olha que andei bastante, provavelmente, sem “saber” disso, para criar as tais oportunidades, vendo que não dava de cara com o que, no íntimo, aguardava que surgisse a minha frente, com um vagabundo, nenhum tão especial, saído de alguma poesia, igualmente “vagabundo”, sem que com isso esteja pronunciado um juízo de mérito, antes pretendendo citar certo gênero de lirismo vagante, bastando-me, isso eu me dizia, mas sem palavras, pois sabe-se o quanto a expressão verbal exige mais da consciência, enquanto que símbolos, não a substituindo, expressa-a igualmente, não recorrendo a palavras, me bater, sem intenção declarada de me envolver num duelo (esse anacronismo com halo permanente de lirismo), com um vagabundo, um andarilho qualquer, alguém que, simplesmente, vague; que vague, simplesmente, por vagar, sem fazer desses seus passos aleatórios um caminhar de caso pensado, na expectativa também ele, vagabundo-em-símbolo, de dar de cara com alguém que, não tendo posto a mão na própria consciência, vai ao seu encontro, estabelecendo, desse modo, uma necessidade recíproca de se verem, frente a frente.

Eu cá comigo pensava (o que mostra que não sou tão sem consciência como eu mesmo gosto de pensar) que me seria suficiente encontrá-lo, dispensando mesmo um olhar diretamente em seus olhos (como se aí estivesse guardado o segredo de uma poesia, desmascarando, assim, esse meu lirismo vago), passando a seu lado, num roçar de ombros insuficiente para provocar qualquer arrepio, e só chamado contato físico por um desses exageros que as palavras nos permitem.

Não posso dizer que, durante toda essa minha caminhada, e que não durou pouco, estive sempre sozinho pelas estradas: não! Deparei-me com diversas pessoas, às quais dirigi meu olhar, sempre de lado, o mais discretamente possível, para identificar em cada uma delas o vagabundo que, enfim, eu procurava – e, como já se sabe, todas as tentativas foram, para mim, frustradas, frustrantes. Explicar, aqui, o que eu realmente buscava, o que caracterizava tão de perto um vagabundo, a ponto de, só de olhar, só com um olhar que sequer era direto, apenas um soslaio envergonhado, eu não poderia: era como se, nesse íntimo, ao mesmo tempo, indevassável para nós mesmos e tão claro para quem nos vê, eu soubesse, sim, o que marca esse ser que eu tanto buscava, não podendo, entretanto, pingando os pontos nas letras devidas, explicar, tintim por tintim.

O que eu não sabia, então, e continuo não sabendo dizer como eu não sabia e como sei que não sabia, era que nunca fui, naquelas sendas, o único a buscar um encontro com um vagabundo; que eu não era o único a olhar de lado, com discrição calculada, sempre na esperança de, assim, enviesadamente, afinal, gritando para dentro, exclamar que, passos tantos idos, encontrei! Se não todos, muitos dos que, vagabundos em potencial, nenhum deles, a meu ver, o que eu buscava, passaram por mim, até roçando, com fricção autentica, meus ombros, juntavam-se a mim na mesma busca, em procura semelhante.

Eu que sempre cri saber muito, não desconfiei que igual frustração experimentada por mim também fora “saboreada” por muitos deles, os que, de lado, jogaram seus olhos esperançosos, aguardando que, num átimo, eles lhes dissessem: é esse o vagabundo que tanto procura! E, orgulhoso do meu saber, desconfiei menos ainda de que, ao menos para um deles, eu, enfim fui o vagabundo desejado, olhado de lado, num golpe de olhos tão discreto que não percebi: e é possível que um roçar de ombros, proposital, e que tenha despertado em alguém um acúmulo de arrepio, em mim, só o desconforto por achar que, na tentativa de, discretamente, encontrar o que procurava, nesse contato físico, quase pus tudo a perder.

Olho, de vez em quando, para os lados, mesmo para trás, para me certificar de que, sendo o achado para quem me buscava, ainda sou, por onde quer que eu ande, uma esperança para alguém. Nada vejo! Nada percebo! A não ser que talvez seja assim mesmo, não vendo, não percebendo, que melhor se é visto, se é percebido: mas, disso eu não sei.

CHICO VIVAS


domingo, fevereiro 01, 2015

A CRIA DÁ CRIA E A CRIATURA PROCRIA




...E assim caminha a humanidade: e isto, se não é uma constatação óbvia, é, certamente, a melhor hipótese para se saborear na própria língua o gosto do vernáculo, ao traduzir um insípido título me inglês.

“Giant”, muito pequeno para uma gigantesca história. Os gigantes, com o tempo, ficaram confinados às histórias de ficção. Na nossa, longe de estarem isentas de suas próprias (e das nossas) mentiras, somos ora grandes e poderosos como gigantes sobre-humanos, ora de uma humanidade que nos coloca no nosso lugar – e companhia é o que não falta.

Quando há companhia, se se gosta dela, ou se, simplesmente, ela nos convém, procria-se, dando mais um passo essa (nossa) humanidade que não pára de caminhar. Ao vir a cria, à luz do dia, ou num ambiente tão anestesiado das dores da realidade, que não se sabe se é noite ou mesmo meio-dia, pensa-se: será um gigante quando crescer? crescerá forte? poderá ser poderoso, mesmo que não venha a ser gigante(sco)? será que se manterá humano, mesmo se poderoso? e ser crescer muito, superará sua (própria) humanidade, indo tão mais alto, que, sobrevoando-a, olhará de cima a chá humanidade?

Em meio a todas essas questões, a cria cresce, sabe-se lá quanto, quase a ponto de já poder procriar por si própria, tão cria que era há tão pouco tempo, tomando, assim, a si a tarefa de repensar, sem chegar a novas conclusões, aquelas mesmas perguntas, sempre iguais, ao longo da história das humanas criaturas.

Na ficção, pode-se, criador, manipular suas crias, embora alguns autores digam que, a certa altura, são dominados por elas, que, se querem, até procriam, à revelia dos seus criadores, antes mesmo da hora dessa cria poder dar cria, criando, desse modo, além de uma humanidade precoce, um problema a mais para se juntar àquelas (outras) questões: crescerá? será gigante ou não? poderoso nos céus ou um fracasso no chão?

Quando a cria dá cria, mesmo que seja ela mesma uma cria ainda, ainda em tempo de crescimento, sendo então somente uma criaturinha (uma criaturazinha), sem que se saiba, portanto, se já atingiu a altura final ou se há de crescer ainda mais, sente-se, assim, desligada do seu criador, por ser agora autor(a) de suas próprias histórias.

Esses vínculos que se rompem também fazem parte do caminhar da humanidade. Por mais controle que se exerça sobre a natalidade, sobre os gastos, potencialmente, ilimitados, ao menos durante o natal, isso não põe freio à humanidade, que sempre encontra um meio de caminhar, porque, para ela, e nós aí nesse meio, não importa a quantidade de crias de uma criatura ou de um conjunto delas, bastando que uma cria dê cria para que isso seja o passo que faltava à história.

Para a (nossa) história individual, pessoal para cada criador, um só passo pode ser como a descoberta de um nome mundo. para a história coletiva, social, um único passo parece exageradamente pouco, mas, mesmo assim, basta! Às vezes, quando a cria já se crê emancipada, só porque sua biologia lhe avisa que já pode dar suas próprias crias, aquela criatura que a criou até desejaria dar mais crias, procriar só para renovar esses laços que o caminhar de cada um vai, aos poucos, afrouxando, por mais atados, criadores, às suas crias: é a assustadora fantasia que enche a cabeça de algumas criaturas, e não com criaturas assustadoras, mas com a independência da cria.

Mas, aí, ou a biologia diz que essa vontade é tardia, que o relógio já bateu a hora de parar, e não é de agora, ou se atende à razão, que diz que é preciso manter a natalidade muito bem controlada, sob o risco, iminente e coletivo, de um desejo individual levar a humanidade toda a um tal estado de aglomeração, que não restará mais espaço sequer para se dar um só passo. E é sabido que sem andar a humanidade, a história para, como uma criatura que tem de parar de procriar antes da hora – e para a história essa hora não tem vez.

Aprende-se, cedo até, quando ainda se é uma “cria demais” para isso entender, que se deve amar a humanidade, por inteiro, sem escolher, portanto, essa ou aquela criatura, especificamente. Vá lá! Mas, eis que chega uma cria, criada segundo as próprias ficções pessoais, e como, então, é que se consegue amar todos do mesmo jeito, com aquela cria ali, saída da nossa fantasia (e isso não é eufemismo), mesmo que a experiência já nos tenha demonstrado, por crias anteriores, que esses fios que atam criador a sua cria são cortados no dia em que se dá um passo, mais outro, e logo já se vê o que, há tão pouco, era só (mais) uma cria, agora, já criando suas próprias fantasias; fantasias estas que podem, num dia, contemplar gigantes extra-humanos e, num outro, como se a humanidade deixasse de caminhar para saltar, indo aos pulos, já vive a espera de sua cria, assim, cria da cria, e esta uma cria também de quem, por mais criativo, foi cria, num retrocesso(!) da história que, a se lhe dar linha, chegará à primeira cria, e esta há de levar ao primeiro criador, o que procria, como num passe de mágica – pura fantasia!

Incriado, esse criador primeiro, não faz parte da (nossa) humanidade. Nós, sim, fazemos parte dessa enorme companhia, em que uns crescerão, em que outros permanecerão anônimos, por mais nobres que sejam suas ações, valendo-se justamente destas para viver, como se elas é que, criaturas sem terem criado, suas próprias crias.

Se é certo, se é errado, não sei. É assim que a humanidade caminha. E raramente damos de cara com Liz Taylor, Rock Hudson, James Dean...

CHICO VIVAS