

É da natureza dos mortos serem esquecidos, se ainda pudermos lhes atribuir uma natureza, sendo mais provável, indiscutível a nossa, ser da natureza dos vivos esquecer...e não só os mortos.
Pode-se argumentar - esse desperdício de tempo a que muitos vivos se dedicam, refletindo sobre os mortos - que sem a lembrança desses mortos não haveria história, sendo da "natureza" desta, constantemente, sem que torçamos o nariz para isso, sem que (re)viremos os olhos para não testemunhar tal espetáculo (escatológico?), exumar o que já foi, devidamente ou em valas comuns, sem qualquer pedra indicadora, enterrado: já não basta o que nossa memória tem de suportar, com vivos em progressão, alguns com nomes repetidos, o que exige um esforço maior de individualização, como se fosse necessário identificá-los com uma pedra diferente, para ainda nos obrigarmos a acumular esqueletos nesse armário que é a memória, eventualmente com um fundo falso, mas do qual, pela sobrecarga a que está submetida a memória, nos esquecemos, às vezes "mortos" de vontade de encontrar uma saída dessas, falsas que sejam, uma ligação secreta entre um armário encostado à parede, em pleno uso do seu direito de ser esconderijo, e um outro cômodo no qual poderíamos nos encontrar (secretamente, claro!) com um vivo que não pode aparecer, ou onde poderíamos esconder um morto que desejamos esquecer, mas que insiste em (nos) aparecer, a todo instante, com suas lembranças.
Se mortos, os mortos o são e nada mais: lembrar o quê? Se vivos, esses mesmos "mortos", em outra dimensão (como se houvessem sido trancados num armário, com a intenção de ser isso para sempre, e descobrirem ali o fundo falso da vida - ou o verdadeiro fundo da morte - e fizerem a "passagem"), deixemo-los, de todo jeito, para lá, porque, lá (no fundo, todos gostaríamos de nisso acreditar), de nada adiantam as nossas lembranças daqui, e insistir nisso é como, a todo instante, assustar quem já passou pelo armário, desse para "lá", com a possibilidade de voltar a ser só mais um esqueleto no armário, esquecido lá ou apenas lembrado...como o quê?