ada, para quem aposta em que as coisas hão de ficar ainda piores, melhor do que um dia após o outro, mal conseguindo, quem assim pensa, conter a ansiedade, não apenas para que esse tal dia – pior – logo venha, mas para que, sendo essa passagem uma consequência, que o dia de hoje, esse momento atual em que as coisas não parecem ir nada bem, a ponto de se prognosticar, como se um alívio, a piora, fazendo do ruim do agora uma saudade amanhã, passe, o mais rapidamente que puder.
Um dia, o dólar, ainda quando furado, foi capaz de brilhar, mesmo sujo – sem qualquer especulação moral –, diante dos olhos que nele enxergavam uma possibilidade inteira de uma vida melhor, calculando, sem jamais ter aprendido conversão de moedas, baseado apenas no câmbio de suas legítimas expectativas, o que poderia fazer com um dólar: e se for mais!...
Mais, quanto? Um punhado de dólares? Isso é quase uma fantasia que não cabe nos olhos, embora os bolsos, sempre mais generosos, quando se trata de, bocarra aberta, alimentar-se, esses engolidores de papel (sem abrir mão do vil metal), não caibam em si, diante de visão tão promissora. Por um punhado de dólares já se matou – e, a bem da verdade, já se matou por menos, ainda se matará por mais, tenha a moeda o nome que tiver, valorizada no mercado (do) futuro ou já uma reminiscência de algum passado que perdeu seu fulgor. Por um punhado de dólares, nesses nossos dias voláteis, a depender do tamanho da mão, já não se mata tanto, preferindo-se, se se tem mesmo de morrer, uma morte menos “dispendiosa”, mesmo que, morto, não se tenha mais que pôr nem uma mão no bolso.
Olhando-se, retrospectivamente, os filmes de outrora – e outrora, aqui, já dá evidentes sinais do quanto estamos voltando no tempo, cinema que é a mais eficiente máquina para isso –, deparamos-nos com verdadeiras ousadias em dólares investidos, fazendo, nos dedos das mãos, a conta, sempre imprecisa, de quantos punhados foram necessários para se levantar aquela fantasia: e no cálculo do quanto, sempre em dólares, possa ter rendido, é melhor não nos aventurarmos, por se tratar de algo que não cabe nessas nossas cogitações meramente verbais. Sem olharmos adiante, bastando-nos um olhar sobre o orçamento dos filmes atuais, percebe-se, sem que as mãos tenham aumentado, significativamente, de tamanho e, portanto, os punhados representem uma quantidade proporcionalmente maior de moeda, pelo tanto de dólares, o quanto isso se desvalorizou: e nem falo do padrão monetário, mas da capacidade de se fazer, tocando-se em assunto tão sonante, os olhos brilharem.
Para matar (o tempo), pagando-se o preço que a máquina de o passar (o tempo) cobra, alguns dólares furados, mesmo que, convertidos, ainda tenham a pompa de salvadores da pátria. Para morrer de tédio, algum filme, produzido como ousadia formal, mas que não passa de um senhor conservador, por apostar (os dólares) em que os espectadores, cansados de tanto conservadorismo, estão ávidos por alguma ousadia – preferencialmente, nada que os deixe intrigados, sendo suficiente que se convençam de que acabam de testemunhar um momento raro dessa máquina de passar o tempo, de ganhar dinheiro, ganhando os que o ganham, ganhando os que o passam.
E não há qualquer engodo. Um punhado de dólares sempre valerá, valorizada ou não essa moeda que troca realidades opacas por instantes de brilho fugaz, a lembrança de um tempo... Que tempo? Somente de um tempo. E este nem precisa ter mesmo existido, podendo ser apenas mais uma das nossas fantasias, compradas no escuro, pelas quais pagamos em dólares, mesmo que estes devidamente convertidos, sem mudarem sua fé em Deus.
[1] O nome dollar deriva de Thaler, abreviado de Joachimsthaler, uma moeda de prata cunhada pela primeira vez em 1518 em Joachimsthal, na Boêmia
e me disseres, em resposta a uma explícita pergunta minha ou somente porque, por vontade própria, assim queres me dizer, com quem andas, à espera de que eu, de posse de tal resposta, conclua quem tu és, isso pode ser não mais do que uma armadilha em que eu terei caído, direitinho, na falsa crença de que basta saber quem são os companheiros de alguém para que já se conheça, desse modo, o próprio ser daquele que com eles anda, podendo ser, para tais companheiros, a companhia pela qual um outro avaliará quem é, de verdade, aquele que ora é companheiro, ora o que tem os seus próprios.
Para escapar desse laço, evito, mesmo que me digas, que insistas nesse ponto, com quem andas, de tirar minhas próprias conclusões; e se não me dizes nada, voluntariamente, aguardando que eu mesmo tome essa iniciativa, frustro-te, com receio de, em o fazendo, esteja, simultaneamente, pondo, tolo, o pé no laço, enredando-me na tal armadilha, urdida na confiança de que ou eu cederia à curiosidade de te perguntar com quem andas, concluindo o que, em geral, se conclui, com base nessas informações, ou que, na dúvida sobre se eu faria mesmo a fatídica pergunta, na confiança de que, dando-me, de mão-beijada, a informação, nomeando, um a um, todos os teus companheiros, habituados a andarem contigo, eu, inarredavelmente, concluísse, enfim, que tu és...
Mas, bem mais esperto pode estar sendo tu. Como? Eu, crendo-me, circunstancialmente, esperto, nego-me a tirar conclusões, se sei com quem andas, sabendo disso a minha própria revelia, ou sequer caio na tentação de te perguntar por teus companheiros, acreditando que, assim, descobrindo quem tu és, revele quem eu sou: alguém que confia, demasiadamente, no que o povo diz. Porém, contando já com minha autopresumida esperteza, na verdade, uma autoignorada tolice, ages de caso pensado, na certeza de que eu correria as léguas de te conhecer, a partir dos companheiros que tu tens, abrindo, então, espaço considerável para que descubras quem eu sou.
E tão perfeito foi teu laço, que, se eu te frustro, perguntando com quem andas, ou, ouvindo isso de ti, sem que te tenha perguntado nada, e, daí, concluindo quem tu deves ser, saberás quem sou; se não te frustro e, como já contavas com isso, nego-me a tal, ainda assim saberás, por isso, quem sou.
Se eu tivesse um pouco de tua esperteza, por essa armadilha que tão bem preparaste para mim, mesmo sem conhecer um só dos companheiros teus, sequer sabendo de que modo andas, se é que andas por aí, eu já saberia quem tu és. Como não – e prefiro, em nome da minha vaidade restante, não repetir que sou um tolo –, não sei quem és, não sabendo nem mesmo a quem, ora, dirijo-me, embora desconfie que tu, ao contrário, ou sabes muito bem quem sou, ou se não sabia até então, agora, não há mais dúvida. Minha vaidade, o pouco que dela resta, implora-te: guarda para ti quem sou, e não (o) contes para mais ninguém – principalmente, para mim mesmo.
oma açúcar! Diga não ao fel de uma alimentação sem graça, sem goma de mascar (as sem açúcar, pelo menos), sem o refinado prazer de consumir açúcar, mesmo que isso, mais do que os olhos, custe os dentes, que não deixam de estar na cara.
Com’a açúcar, com direito a um sono profundo, sem dar a impressão de estar consciente ou não – melhor não! –, sonhando com doces, que tanto sonho é um bom doce, quanto os melhores doces são um sonho, e até, já que não se controla tanto assim os (próprios) sonhos, uma ou outra gotinha de amargura, uma “pitada” de angostura, um fel que nos alerta, que nos diz já ser hora de acordar para a vida, adoçada artificialmente, com um gostinho de engana-tolos, tolos que somos para nos deixar enganar tanto por um discurso açucarado, quanto pelo amargo que abre a boca, a própria, para falar mal dos outros, da boca alheia, e, sobretudo, dos doces em geral, e do açúcar consumido, em particular, embora não guarde discrição a respeito do que diz, divulgando em público o que fazemos algo às escondidas, temerosos menos dos danos nos dentes, mais das sanções sociais, essa espécie de cala-boca em grupo, por termos sido, eventualmente, flagrados no ato, nessa preferência escandalosa pelo branco em pó – ainda por cima, como confeito –, em detrimento do, se não preto, mais escuros, que preferem, mascavos como gostam de ser chamados, a associação com o (tom) dourado.
Se se dá o sangue para viver, por que não se pode carregar as consequências de uma overdose necessária para se virar a página, quando o livro é pesado demais para se o folhear com a casualidade de uma história qualquer? Ou de um livro de receitas, ilustrado, só com doces, com um realismo que não ludibria somente os olhos, mas engana também a boca que, como se tocada no ponto certo, abre suas compo(r)tas e deixa a água correr solta, quase pingando, numa baba que não é exclusividade das moças mais derretidas, sobre a página que exibe uma compota de se admirar ajoelhado, devorando cada fibra do papel – e depois ainda dizem que ao açúcar refinado faltam as tais incensadas fibras, que ele são só calorias vazias de mais nutrientes, como se isso fosse pouco: digam isso a quem passa frio, a quem se arrepia só de pensar num doce, até nos mais bem-comportados, aqueles que, nada rebeldes, sem intenção de virarem a mesa, aceitam esse revisionismo constante, quase pedindo perdão por conterem açúcar, fazendo isso, porém, com um refinamento que é de amargar, duro de (se) aturar?
E falam na qualidade de vida para banirem o açúcar, como o inimigo visceral dos nossos dias, figadal mesmo, dos mais cruéis que se pode conceber em dias-de-fel, introduzindo uma sensaborona longevidade, uma expectativa de vida sem doces perspectivas, um viver só para contar a história sem sentido de só comer o permitido: isso lá é vida?!
Sequer se pode dizer que é uma vida filha-da-puta, porque esta, se não é de todo permitida, não é tão proibida assim, ainda que, no fundo, sobre-lhe fel. Mas quem paga (para viver essa vida, e todos nós o fazemos, desta ou daquela maneira, à vista, com dinheiro bom, ou com um viciado cheque sem fundos) pode exigir que a vida deixe de lado suas amarguras-vadias e ofereça, sabe-se lá tirado de onde (e eu lá quero saber disso!), o açúcar pelo qual se paga.
Enfim, entreguemo-nos – de bandeja, preferencialmente – à boa companhia dos doces em quantidade: por que falar em qualidade, se olho-de-sogra, visto de perto, não vale nada, mas, doce e coco recheando uma ameixa, com um cravo (como se fosse a menina-dos-olhos), é uma delícia, especialmente quando são muitos?
Entreguemo-nos ao açúcar bandido! Sejamos ainda mocinhos, com dentes perfeitos e crentes numa vida de dar água na boca, ou sejamos já daqueles que têm histórias amargas suficientes para um livro de receitas escrever, receitas de como viver bem, sem jamais chamar, meloso, de docinho de coco a um bem-querer filho-da-mãe, cuja mãe, na hora da vingança, sogra que é, chamaremos, olho no olho, de ameixa seca.
Hierarquia dos coros dos anjos,
estabelecida pelo pseudo-Dionísio, no século VI
TRONOS
Rodas de fogo com asas em volta, cheia de olhos
ão é na cabeça em que o poder se assenta, embora seja por aí que ela passe, repasse, se acomode, ora criando dores, ora, mesmo ainda sem o poder de fato, dando prazer, só de pensar, apesar de ser ela o lugar ideal para se ser cingido por uma coroa, símbolo costumeiro de certo tipo que manda, extrapolando essa imagem em particular para se tornar uma marca, metáfora que seja, do atributo, às vezes auto-outorgado, de fazer e desfazer, em que pese alguns fazerem (o) bem e outros, podendo ser os mesmos, desfazerem (d)o mal.
Não está nas mãos de ninguém ter poder ao seu bel-prazer, ou, o que é raro, abrir mão dele. E o cetro que eventualmente carregam, ora mudado em espada de fio sempre recomposto, ora, o que nem sempre é uma mudança para melhor, em “pena” (quando, achando que podem, se põem a escrever, é de dar dó, é um deus-nos-acuda fazê-los crer no que disse La Bruyère: “A glória ou o valor de alguns homens está em escrever bem; o de outros, em não escrever”.
Aos pés é que não deve estar, já que os poderosos, ou aqueles que se candidatam ao poder, reservam-nos, seus próprios pés para, a altura da cabeça dos que, então dobrados, o poder é exercido, demonstrarem, assim, o quanto podem, o quanto podem fazer os outros se dobrarem, a ponto de sua cabeça, talvez silenciosamente cingidas de vergonha, tocar, em submissão contorcionista, os ditos pés do poder em pessoa.
Sendo assim, onde estará?
O poder, creio, longe de mim esse exercício altivo, mais costumeiramente, com o disfarce da “figuração”, da linguagem figurada, dobrado a tantos poderes que já nem sei estabelecer diferença entre os que são de verdade (e se o são, obrigam-nos mesmo a nos dobrar?) e os que não passam de mentira, de uma encenação sem poder de fogo suficiente para dobrar um homem de verdade, a não ser quanto este prefere dar valor à mentira do poderoso, por ser esse o caminho mais curto, se não para se tornar também (não um homem), um poderoso, ao menos angariar algumas benesses, o que não deixa de ser um poder, diante dos que, ou não se dobrando o suficiente ou não se tendo dobrado de forma nenhuma, angariaram a ira poderosa, está, e é nisso que creio, o poder em questão, assentado...no trono, e nada mais a dizer, para não entrar pelo cano, para não adentrar na fisiologia dos homens: poderosos em qualquer nível hierárquico, desprovidos de poder, com poderes além das humanas ambições - até porque sei eu o quanto, dobrando-se de cólica, o mais humilde dos homens também ambiciona o poder, ou o trono em que ele se assenta, para se assentar, submisso, porém, a um poder maior, e que não vem dos céus, que o faz parecer, a sós, um reizinho (de nada), mas, se flagrado em público nessa sua exibição de poder, aparece como o mais ridículo dos homens, sob os apupos dos seus semelhantes, todos eles conhecedores das idas e vindas desse tipo de poder, mas, circunstancialmente, sem cólicas, o que os deixa numa posição, ereta provavelmente, de olhar esse “rei de merda” do alto, tão súdito o outro
encontra-se de sua necsesidade de aliviar-se do peso de estar sempre a mandar: vá à merda!
QUERUBINS
Uma cabeça e duas asas; guardiães do paraíso
“Vistos” assim, que diferença faz? Uma só cabeça, como nós a temos, com a vantagem, nossa, de que podemos perdê-la: e eles? Ou podemos, simplesmente, dizer isso, justificando as asas que nos demos, asas estas que em outros devem, segundo nossa razão humana, ser aparadas, logo que deem mostra de se estarem expandindo além dos limites que lhes são próprios, como se se pudesse conjugar, na mesma imaginação, asas (para que te quero) e contenção (da liberdade).
Olhando ainda esse quadro (no gótico do século XIII, anjos eram belos, jovens, cheios de vida e graça, com grande nobreza e porte: ou seja, tudo com que os homens de hoje sonham), e, mesmo que haja outro ponto-de-fuga, mirando suas asas, é isso que nos diferencia: neles, supondo que não sejam apenas um recurso meramente pictórico, com função tão-somente estética, asas não são arte, pois tem um objetivo, que deve ser o torná-los, alados então, com trânsito livre nesse universo cada vez mais “engarrafado”, e quem sabe assim para que, já sem cara de anjo, os homens se esqueçam de que não têm mais, ainda que eventualmente jovens, a mesma beleza angelical que a quase nenhuma idade lhes dá, de que o tempo lhes tira do “cheio de vida” as gotas que, por serem isso, não parecem fazer falta numa contagem geral, mas que, individualmente, diminuem, progressivamente, a graça de viver; e quanto à nobreza e ao porte, o “engarrafamento” só mantém a pose e as atitudes nobres em quem tem natureza de anjo; e se neles é assim, asas em nós, ou nos fazem anjinhos de procissão, com “penas” de papel crepom, que não pesam nada em comparação com os outros papéis que nos esperam pela vida afora, ou nos dão aquela liberdade de imaginação que é a nossa vingança (tão humana como ela é) contra esses (outros) anjos, sempre jovens, belos, graciosos, imortais: atados ao que são, anjos não podem ser senão o que cada um é, enquanto que nós, enquanto cultivarmos essas asas, enquanto alimentarmos (com as próprias asas) a imaginação, poderemos ser homens infinitamente belos, poderemos ser anjos desgraciosos, poderemos esvarziar-nos de vida até (quase) a última gota e voltarmos a ficar cheios de pose, nobres aqui, homens sem nome acolá.
SERAFINS
Seis asas
Agora sim! Vai ser preciso muita imaginação, talvez mesmo juntar vários homens, dos que já têm, naturalmente, muita, para podermos sustentar, num só anjo, três pares delas.
Se anjos alados, o que parece ser uma expressão demasiado forçada, e não é, são uma “criação” do século V, frustrando quem sempre pensou que tudo houvesse sido criado na hora zero, hora agá da invenção deste mundo, de onde há de ter saído um com seis asas?
Pelo aparente excesso, ficamos tentados (expressão, para alguns de nós, inadequada, quando se fala de anjos, embora para outros apropriada, já que o mestre das tentações, tenha tido ou não suas asinhas cortadas, originalmente era um anjo) a dizer que tanta imaginação deve ser coisa dos nossos tempos. É preciso, porém, considerar que, sustentando esse raciocínio, nós só lhes acrescentamos, até com certo exagero, admito, algumas asas a mais, quem sabe apenas por um “motivo” artístico, já que é bem possível que elas não tenham mais função do que teria um só(?) par, mas que a grande ousadia inventiva, independentemente da quantidade, foi a coragem de pôr asas numa criatura, mesmo que, temerosos de continuar lhes chamando de homens, apesar de as termos moldado a nossa imagem e à semelhança que gostaríamos de cultivar, eternamente, tenhamo-las apelidado de anjos, no geral, e de serafins, no particular.
Particularmente, acredito que mais de um par, sobre meus ombros já carregados de papel (crepom), mais do que um exagero estético, sob o risco de tornar o belo uma caricatura monstruosa, se constituiria um fardo difícil de carregar, ainda que com tantas asas, em tese, fosse me sobrar imaginação, o suficiente para me reinventar como um homem qualquer, sem asas mesmo, como qualquer homem que carrega suas penas, nem sempre às costas, que carrega seus papéis, raramente nas costas, salvo os homens que vivem, sem nobreza, apesar de alguns manterem o porte, justamente, nessa injustiça que inventamos, sem nenhuma imaginação, de carregar papéis, nesse caso, papéis que não lhes pertencem, representações que não são suas, originalmente, falas mudas, frases sujas, silêncios reciclados.
Mas não estou aqui para falar de mim (o que eu posso ter tido de angelical, um dia, a sequência de dias se encarregou de levar, deixando-me, não sei se como uma recompensa ou se como uma pena que solta uma tinta indelével, apenas, na imaginação, com a expressão “cheio de vida”, que hoje me parece, e mais com o passar dos dias, cada vez mais vazia, mesmo que eu estufe o peito, simulando porte, que levante a cabeça, querendo emprestar-me uma nobreza que o próprio levantar dela faz desvanecer). Não estando aqui para isso, também não estou para encher a bola de anjos que têm tantas asas que, mesmo que eu as corte, para que eles caiam na real, não hão de lhes faltar imaginação.
DOMINAÇÕES
VIRTUDES
POTESTADES
Alvas até os pés, cintos de ouro e estrelas verdes;
sustentam na mão direita varinhas de ouro
e na esquerda, um selo com a letra inicial
do nome de Cristo
Pelo amor de Deus! Não há como negar, por mais que se queira condescender com criaturas assim, saídas, provavelmente, à mesma imaginação que nos gerou - o que poderia explicar a inclinação de alguns de nós para o acúmulo de detalhes, a sobreposição de acessórios, tudo isso encobrindo o que deveria permanecer o principal, escondendo, então, o anjo que (se) é em nome de uma visibilidade tão ao nosso gosto.
Alvas, fora nas “tribos” próprias, caíram de moda, embora, a meu ver, ainda cause efeito vê-las desabando, delicadamente, até os pés. Cintos, não! Recriados a cada estação, fora os que são clássicos, e que sempre dão no couro, a qualquer tempo, são sempre um acessório que se deve ter à mão: e todo “anjinho” que conheceu, em idade para isso, suas quedas, sabe o que é ver um homem, espécie de Deus, pelo tamanho que tem, com um cinto na mão, pronto a, sem ser artista, lhe dar novas funções, criando se não uma gritaria geral, uma, em particular. Mas, cintos de ouro é exposição demais, até para quem tem poder, até para quem pode se evadir rapidamente, recorrendo não aos próprios pés, mas às asas, ou ao poder de surgir e de desaparecer, por mais que permanecem na (nossa) imaginação. Até aí, passa. O que dizer, no entanto, de estrelas verdes, como uma ideia, até boa, mas que se expôs antes de se a ter amadurecido o bastante, desperdiçando uma imagem que, completa, poderia encantar, e que, às pressas, deixam a sensação de que algo, nesse figurino, não combina. Varinha à mão, seja qual for ela, faz de um anjo uma fada, comprometendo-lhe a reputação, por mais que se insista em dizer que anjos não têm sexo - mas devem ter lá a sua vergonha! Do selo, experiente em cartões-postais, prefiro passar ao largo; não por eles em si, apesar de não ser um colecionador dessas estampas, mas pelo nome que encerram - agir diferente, seria brincar com fogo, mesmo que esse elemento pertença, na nossa imaginação dada a tons avermelhados, a outro “elemento”.
PRINCIPADOS
ARCANJOS
ANJOS
vestes de soldado, cintos de ouro, dardos na mão
Pelos cintos, passo batido, para não apanhar ainda mais. Pelas vestes, preferindo escapar a esses soldados, cujo poder desconheço, e não quero experimentar em minha própria pele, como cobaia de guerra, passo, perto o bastante para sentir-lhe o perfume, muito embora, imagina-se, o cheiro de soldados, ao menos quando vindos da batalha, não deva ser semelhante ao de um ramalhete oloroso de angélicas, com suas alvas flores mínimas encimando logos talos verdes - e, felizmente, estes aqui não carregam aquelas estrelas. Paro, contudo, diante da impressão que causam os dardos.
Minha imaginação, demasiadamente terrena, cheia de histórias de guerras, não pode perceber a agudeza de espírito de quem pôs nas mãos desses anjos essas setas, mas, como se sentisse, em algum indefinível ponto de mim, a estocada da curiosidade, pergunto-me quem são os alvos para esses dardos. Serão os inimigos dos homens (e reconheceriam eles, num seu semelhante, já caído, mas esperto o suficiente para exercer seu poder mesmo assim, um alvo para seus dardos)? Serão, esses alvos, os próprios homens, espécie de caídos por herança? Serão os alvos? Serão os escuros? Serão os que ficam sempre no meio do caminho, num cinza que nunca se compromete, por covardia de assumir a sua verdadeira cor?
Eis a grande questão que deveria preocupar a humanidade: e não é a contabilidade dos arsenais de dardos em mãos de anjos expatriados e dos que controlam, com mão-de-ferro ou com ela cheia de ouro, as pátrias, a sua e aquelas onde há mãos estendidas mais para saciar a fome do que para serem civilizadas, porque é difícil, além do que se pode esperar dos instintos de um humano primário (nenhum homem assume ser secundário, mesmo que tantos já se creiam superiores), ser apenas gentil, quando, incontido, a barriga, sem a discrição que se toma por adequada, grita suas carências. Não sendo isso, é, até onde me cabe contar, contador que sou dos poderes que não tenho, o que deveria nos preocupar a todos, não tirando da cabeça os dardos, seus alvos.
E isso poderia começar pelo inventário, na nossa cabeça, dos nossos próprios dardos ali entocados, ali estocados, ali, constantemente, afiados para que suas pontas não percam o poder de estocar, mesmo quem, então, se ache devidamente entocado, para fugir a (nossas) setas; a seguir, mesmo que não cheguemos a uma conclusão definitiva a respeito do número exato deles, para quem eles se dirigem: e não são menos letais os (nossos) dardos teleguiados, ou seja, aqueles que lançamos a distância, mentalmente, sem senti-los, palpáveis, na mão, atirando-os em imaginação, pois quando o alvo é bem calculado, o dardo cumpre seu objetivo. E nós, passeando paz, pacíficos-de-passeata, vestidos de alvo, com carinha de anjo!
(TETRAMORFOS)
anjos de seis asas que associam os símbolos dos
quatro evangelistas:
o anjo, a águia, o leão e o boi
Não vou chover no molhado. Nem vou gastar minha saliva. E não porque já tenha dado muita asa para anjos demasiado “apenados”, apenas porque, como não fazem parte da hierarquia oficial, mesmo que possam ter algum poder, prefiro voltar minha mira, fazendo-os meus alvos, para os poderosos já estabelecidos, com nome na praça, com reputação que ultrapassa os limites desta terra e repercute até nos céus, sobretudo neles, que é o espaço em que transitam costumeiramente, embora haja os que montam guarda por aqui, sempre no nosso pé, embora ingênuas pinturas os ponham, velando-nos, atrás da cama, que também é o lugar preferido dos alcoviteiros, alcovas que são, hoje, quase tão “imaginárias” como são anjos com tantas especificidades: um para cada dia, um para cada cor, um para cada intenção, quase um para cada imaginação - sorte (nossa) é que nem todos os homens, e nisso eu dou uma ajuda inestimável, têm imaginação suficiente para inventar anjos para todas as (suas) necessidades, até porque, se a tivessem, voltaríamos a ponto de partido, ou seja, necessidade que todos temos (de anjos), ao...TRONO.