
De um ponto de vista pragmático, só há vendedores, do que quer que seja, inclusive de ilusões, se há mercado, portanto, compradores, mesmo que saibamos que este mundo, com sua diversidade, comporta também vendedores que mais se parecem com compradores de ilusões, considerando a mercadoria que vendem, verdadeiros sonhos, ainda que os mais espertos vejam, aí, uma contradição: ou é sonho ou é verdade, não cabendo em sua cabeça que ambos, verdade e sonho, possam conviver, ora com harmonia, ora em conflito.
Mas, a lógica do mercado não é nenhuma verdade revelada que, dependendo, exclusivamente, da fé – da boa – dos consumidores (do que quer que seja), baste-se a si mesma, legitimando, assim, o que se vende, jogando sobre as costas, nem sempre muito largas, dos compradores a responsabilidade por esse seu ato de vontade. Então, não é suficiente que haja quem queira – ou seja levado a isso – comprar para justificar a existência dos vendedores, havendo a necessidade, dentro dos padrões civilizados que parecem partir do princípio de que não o somos, primordialmente, de acordos suplementares que garantam certos direitos à parte mais fraca, ou seja, os consumidores, como se vendedores, uma ou outra hora, não o fossem também, e só pudessem ser vendedores, como um vilão que está impedido de ter bons sentimentos, ou um herói romântico que é incapaz de alimentar (os) maus – ainda que dar de comer aos maus aumente ainda mais seu caráter, tanto de herói, quanto de romântico.
Conhecendo, intimamente, as técnicas de venda, e ainda mais, especificamente, a mercadoria que vendem, os vendedores de ilusões são tidos como muito espertos, chegando mesmo a se convencerem de que o são, verdadeiramente, e, assim, estariam inumes a tais técnicas, percebendo, no ato (da compra e venda), o quanto, querendo comprar, estariam sendo ingênuos: são, sim, espertos, ao acreditarem que as ilusões são um produto como outro qualquer, ressalvadas certas peculiaridades que lhes são próprias, como, de resto, toda mercadorias possui suas especificidades, mas também não passam de uns ingênuos, até, eventualmente, mais do que seus compradores mais habituais (aqueles que sempre compra (suas) ilusões, e, apesar da repetição desse ato, jamais percebem se há ou não algum engodo nesse comércio), quando creem que enganam seus fregueses, dando-lhes (na verdade, vendendo-lhes) gato por lebre, certos de que eles, recebendo gato, acreditam que põem a mão numa lebre, não atentando para o fato de que há consumidores para gatos, para lebres e – eis o pulo-do-gato! – consumidores que precisam, como de um bem primário, comprar gato por lebre, ludibriando, assim, às vezes, à própria revelia, inconscientemente, portanto, o tal vendedor que, não tendo dúvida de que faz um ótimo negócio, ao vender isso por aquilo, até baixa o preço, para se livrar da mercadoria, quando é justamente isso de que o comprador precisa, ou seja, (d)isso por aquilo.