sexta-feira, novembro 01, 2013

O REAL VALOR DE UM BERRO








anhar no grito, acreditem (ACREDITEM!!!), já foi, um dia, civilizado. Aliás, aí está o começo da (nossa) civilização política. Naquela Grécia, menos berço da democracia do que manjedoura, em que pese a contradição pagã, da nossa fantasia de igualdade, de povo, de poder, naquela mesma Grécia em que democracia não era para o povo, sendo, antes, para os melhores, numa aristocracia, ou para alguns poucos, numa oligarquia, ou para os que podiam pagar (por ela), numa plutocracia, aprendia-se, desde cedo, sob a orientação de um legítimo cidadão, ainda efebo então (e deixaremos de lado outras “orientações”, por mais historicamente pertinentes), a arte da oratória, da retórica, a arte de se sofismar, a arte, enfim, de ser fazer ouvido, quando as questões centrais eram discutidas na Ágora, com todos querendo falar, quando se podia ganhar (ou perder) no grito.

Hoje, tão mais civilizados, ainda lutando com uma democracia que insiste em não se levantar do berço, ora preferindo os braços polpudos dos plutocratas, ora os afagos poucos, mas concentrados, dos oligarcas, ou a glória de ser embalada pelos (melhores) aristocratas, vencer “no berro” é lançar mão, rápido no gatilho, de uma arma cada vez mais perigosa, e não por um aumento no seu poder de fogo, mas por estarem nas mãos de poucos, espécie de oligarcas que não aspiram a ser os melhores, embora isso possa fazer bem a sua vaidade, mas preferem ser plutocratas, porque sabem, como se herdeiros da mais genuína lógica formal (também nascida na Grécia), que com dinheiro podem passar pelos melhores, comprando votos, se preciso for, ou forçando a venda da aceitação alheia, no berro e no grito, não se sabendo, a essa altura, o que mais intimida, se o “berro” em silêncio, ou se um grito de verdade, mesmo que o “berro” seja de mentirinha.

Naquela Grécia, vivia-se como civilizado(s), ainda que esse conceito de civilização, hoje, nos surja tão elitista (termo tão caro aos democratas que se creem melhores só por se juntarem, circunstancialmente, ao povo), vencendo no grito. Agora, no berro, sequer se pode morrer assim, civilizadamente: e talvez esteja aí nossa mais profunda experiência democrática, na medida em que, morrendo-se assim, junta-se, na mesma vala-comum (ressalvado o velório diferenciado), o democrata genuíno, o plutocrata descuidado, o aristocrata que, pela primeira vez, vai conhecer o pior dos mundos, e o oligarca que, de tão assim, sempre andando com poucos, viu-se encurralado numa luta numericamente desigual.

Agora, a Ágora é um lugar distante, sempre muito longe, por mais que, no mapa, esteja nas proximidades. O lugar das decisões é projetado com isolamento acústico para que só se escutem os “berros” de dentro, onde não entram os gritos de fora: e quando, por descuido da segurança, entra, aí, um “berro” que não seja de um dos de dentro, o alarme soa, como um grito geral, mas, como sabe todo aquele que, um dia, já se espantou com o soar repentino de um alarme, crendo na promessa de sua duração, ele, uma hora, e isso costuma ser logo, cessa, calando os gritos de fora, voltando tudo aos mornos berros de dentro, que sequer são filosóficos, não passando, na maioria (e a minoria não faz diferente), de uns artistas que torcem e retorcem a lógica, como se construíssem, assim, uma nova civilização em que o povo é somente um aspecto formal, sem o qual sua teoria ideal não se sustenta.















terça-feira, outubro 01, 2013

O QUE SE PASSA COM ESSA CABEÇA?




Falar disso é uma maneira, menos incômoda, de trazer o assunto à (minha) cabeça; mas se, ao contrário da expectativa que mantenho, começar a me sentir desconfortável nessa situação - e o sinal pode ser uma coceira repentina -, paro, na hora, e nunca mais volto a pensar em...piolhos.

Houve tempo (que ainda resiste em certas lembranças: diretamente, pela lembrança de uma experiência vivida, mesmo que, então, não se fosse seu protagonista, um herói covardemente atacado por um bando de minúsculos, mas asquerosos, inimigos, ou através de lembranças indiretas, podendo ser estas apenas um testemunhar, como simples espectador, sabe-se lá se se identificando com as agruras do herói ou com uma experiência já bastante diluída para que ainda se a tenha como própria) em que se "catava" piolhos na cabeça das crianças, e nesse mesmo tempo, imagina-se que fora eles, elas, as crianças, não tinham mesmo nada "ali", o que, por extensão, nos leva à moralista conclusão de que nada de mal existe na cabeça de uma criança; e as teorias vigentes de que a coisa, para o bem ou para o mal de todos nós (que, afinal, fomos uma delas), não é bem assim, que toda criança, além dos piolhos, já naquela época, tinha (n)o que pensar, tanto que davam no que pensar, e ainda que, mesmo sem moralizar o ato, houvesse os piolhos, um mal que as atacava, havia, por outro lado, tão "à mão", quem os catasse, com bravura materna de quem, para salvar o filho, não descansa enquanto não esmagar cada inimigo, um a um, lutando até o fim, com unhas, sobretudo com elas, e dentes rangendo num misto de raiva pelos piolhos escapados e prazer pelos que são subtraídos sob o peso de sua unha.

E a vitória seja dada às mães! E louvadas sejam suas mãos! Relíquias sejam considerados seus dedos milagrosos! E não duvido de que uma lasca dessas suas unhas, sujas desse trabalho de morte, ainda faça o milagre de que um filho extraviado, tendo deixado tanta coisa lhe passar pela cabeça, sinta-se, pela lembrança rediviva, talvez reanimado por uma coceira repentina na cabeça, experimente, ao longe, onde estiver, essa volta ao lar - e se o "motivo" não parece dos mais elevados, os resultados desse regresso o legitimam, até porque é muita falta de originalidade, com tantas lembranças na (nossa) cabeça, recorrer sempre a uma "madaleine" (coisa da cabeça de Proust: mas isso já é uma outra leitura).

Se era assim, hoje, como piolhos, crianças que foram, há os que, "tachados" de maus, de cara, sem que se ocupe com o que lhes vai pela cabeça (embora seja um recurso demasiado fácil, e nem sempre justificável, buscar no "mau" de cada homem uma criança vilipendiada, seja por um ataque indesejável de piolhos, seja, com sua própria defesa, pela falta de mão de mãe sobre sua cabeça: nunca se fala do poder da unção paterna), catam crianças.

E catam-nas pelos precipícios que não faltam, pois é mesmo da natureza de toda criança sentir-se atraída por essas visões perigosamente sedutoras; sejam tais precipícios naturalmente desenhados, um relevo que ali está, perigoso, sedutor, talvez originalmente apenas uma notação topogeológica num cume de um nada, sem maior "moralidade" e que, com o desbastar provocado pelo tempo, ficou assim, assemelhando-se a um abismo.

Seria precipitado - e já não somos crianças para abusar disso -, chamando-os, esses catadores de crianças, de piolhos da sociedade, querermos, atirando no abismo voraz todo o conhecimento que muito custou a tantas cabeças, a custa de muitas coceiras, retóricas ou não, esmagá-los, um a um (porque se multiplica, assim, o deleite com esse espetáculo), com as mães na linha-de-frente, já que elas sempre fazem boa figura, mesmo que jamais se tenham (pre)ocupado com o que se passava na cabeça de suas crianças, mal sabendo a origem das coceiras próprias, eu.

Não! não nos esqueçamos, deixados de lado outrora, ocupados com inimigos maiores para darmos atenção a simples piolhos, ( "raspem a cabeça desse moleque, e pronto!"), dos pais, dos homens nessa história toda.

Declarada a guerra, com as mães levando os estandartes, que elas dizem ter tecido, ainda que não saibam segurar uma agulha (e isso não é uma alfinetada misógina), com o lema "salvem nossas crianças", "morte aos piolhos (da sociedade)", seguem-se, seguindo-as, os pais, os homens honrados que, aliás, estão ali justamente para emprestar a essa guerra sua honradez, da qual se crêem fiéis e exclusivos depositários: quantos já se aproximaram de precipícios? Quantos, vendo a coceira na cabeça de uma criança, ocuparam-se dela? quantos, simplesmente, cortaram-lhes a cabeça? Quantos sabem o que se passa na sua própria? Quantos não se "precipitarão"?

A morte, pura e simples, dos piolhos acabará com o mal? Isso não sei: nem sou pai! e homem, não conheço todos os meus precipícios - embora muitos nem me passem pela cabeça.




domingo, setembro 01, 2013

MARAVILHA CURATIVA







Por mais que se queira contestar as coisas do mundo, deste, porque partir para o outro, além de não ser algo que se se disponha a fazer, por vontade própria, ainda que se leve a maior fé nele, é entrar no campo das especulações, nessas plantações de ideias sem compromisso, necessariamente, com a verdade, valendo-se do legítimo direito de pensar o que se quiser, não se pode negar – embora isso seja plantar uma semente no mesmo terreno fértil das especulações –, contrariando os mais “revoltosos”, há, sim, uma ordem natural para as coisas.

O morde-e-assopra, por exemplo, mesmo que isso pareça, tendo-se falado em especulações, o que nos remete a pensamentos mais criteriosamente elaborados, já flertando com a filosofia (talvez com a Filosofia, já que se há, hoje, um campo que faz florescer qualquer pensamentozinho, é esse, gerando safras portentosas de filosofias em sacos), um exemplo aquém das expectativas. É essa sua ordem: primeiro, morde-se; depois é que vem o sopro, como uma lufada de analgésico que atua no mecanismo psíquico, já que, na carne, a mordida continua a doer – a arder, é melhor dizer.

Se, querendo-se andar contra o vento, para exibir sua força, isto é, a própria, e não a do vento, contestando, por extensão, a lei da gravitação universal, num ato de revolto fadado ao fracasso, parte para, antes, soprar, como se assim se oferecesse, de início, o alívio para uma dor ainda não experimentada, e só então é que se chega com a mordida, de nada valeu o esforço em tanto se soprar (sabe-se que alguns analgésicos atuam melhor em dosagem certa, além da qual, mais do que provocar um alívio maior, pode causar um mal a mais), porque, vinda em sua esteira, a mordida não modera seus dentes, não condescende com seu cravar, não recua diante do sopro que, a essa altura, de ar como é feito, já se desfez em si mesmo.

Por outro lado, ainda rolando entre os dedos a mesma moeda, se se morde, mas recusa-se o sopro na sequência, exercita-se, no máximo, um sadismo qualquer, a não ser que se seja criança, considerando-se que seus dentes em leite a chamam para essa experiência, não fechando nossos olhos para uma vingança infante; ou, se só se sopra, sem ter havido, anteriormente, uma mordida que justifique esses sopros, isso não alcança mais do que um fugaz refrigério – e a depender do hálito, prefere-se conviver com o calor.

Longe de mim cortar a cabeça dos contestadores: de algumas, saíram boas coisas; em outros, o melhor que fizeram na vida foi justamente perder a cabeça, mesmo que tenham preferido(?) perdê-la desse jeito, acreditando na possibilidade, cada vez mais remota, de se tornar um herói, tendo aberto mão de maneiras mais prazerosas de, igualmente, ao sabor dessa decapitada metáfora, se perder a cabeça, até porque, com a minha mediocremente no lugar, pouco dada até mesmo às revoluções que lhe são permitidas pelo eixo do pescoço, sublimo nesses revoltosos sem causa a minha falta de traquejo para segurar mastros, levantar bandeiras, expor um estandarte de novas ideias.




quinta-feira, agosto 01, 2013

ALICIAMENTO REAL PARA A FÁBRICA DE FANTASIA





Só se sabe que uma terra é das maravilhas, quando se veio da realidade: só esta é capaz de emprestar àquela a fantasia que nos enche, quase a nos esquecer de que, uma hora, a fantasia acaba (e o tempo é uma realidade que, enganosamente, apresenta-se como fantasia).

Viver sempre, e simplesmente, com todas as complexidades que lhe são inerentes, na vida real, além de ser um atraso de vida, tendo de contar os minutos para escapar de uma impontualidade, é desconhecer o outro lado, talvez com receio de, indo lá, de lá não mais se retorne, percebendo, intuitivamente – porque, no íntimo, acreditamos que a fantasia é mais saborosa que uma realidade, por mais saborosa que esta, circunstancialmente, como é do caráter de todo real, apresente-se – que o fantástico é um país ao qual se pode ir, depois de uma longa temporada na pátria (do) real, mas cujo (real?) valor só é possível de ser mensurado, se não se fica lá, eternamente, pois, assim, o que era fantasia, contrastando com o real, tornou-se, agora, nossa própria realidade, e, por ironia, passaremos a querer voltar à (nossa) antiga realidade, que tomamos ora como ansiada fantasia, já não suportando o peso de viver na própria fantasia, transformada em cotidiano, com todo o peso de uma rotina real.

Em tudo isso há um grande mistério: saber quanto tempo se pode permanecer na realidade, e quando se deve deixá-la, indo, como se este fosse mesmo nosso destino, mais cedo ou mais tarde, rumo à fantasia mais desregrada; saber quanto tempo se deve ficar na fantasia (embora tanto o tempo quanto o “dever” não façam, na nossa fantasia, parte de um mundo que não seja a nossa realidade), e quando se deve dar adeus a toda essa ilusão, retornando a casa, uma casa que, sendo real, tem cara de casa, e não, como acontece na fantasia, pode ter cara de tudo, até mesmo de casa, desde que essa seja uma “casa de fantasia”.

Se eu conhecesse esse segredo, não creio que pudesse ficar rico, mesmo que isso seja uma fantasia que nos “assalte”, corriqueiramente, em meio aos tropeços de nossa realidade esburacada: e não poderia porque fantasia não é algo que se compre, ainda que haja que se disponha a vendê-la, já que, ao se a comprar, estar-se-á introduzindo o real na fantasia, e isso seria como comprar gato por lebre – personagens, aliás, de uma boa fantasia.

Caso eu conhecesse a solução para tal enigma, daria, a quem quisesse receber, gratuitamente, porque esse doar, de graça, também faz parte, envolvidos num toma-lá-dá-cá diário e cruel, das nossas fantasia, especialmente aquela de, tendo ido desta realidade, possamos ir para uma melhor.

Enquanto só podemos ir á fantasia de quando em vez, vamos lá! Não nos apeguemos demasiado à realidade, da mesma forma que, seduzidos por um gato fantasiado de lebre, evitemos, pondo os pés nessa terra irreal, afundarmos também a cabeça, ainda que muitos crêem, e também eu, que não vale a pena entrar numa fantasia se não for por inteiro – e este pode ser mais outro mistério da nossa vida real.