sexta-feira, fevereiro 01, 2013

QUEM MATOU O MITO?














e fato, o mito existe. E se existe, nunca foi, “verdadeiramente”, um mito: isso diria alguém que sempre desconfiou (e, agora, mais do que nunca, e mais do que desconfiança, tem já certeza) de que mitos não existem. Mas, como não me acho entre estes, fico como o fato – o que, enfim, quer dizer, que optei pelo mito, pelo menos por “este”.

Quem já viu – e há tanto deixou de ser visto, que é bem capaz de, por mais que se prove com fatos sua existência, crer-se que não passa de mais um mito – um certo filme de John Ford (O Homem que Matou o Facínora), há de se lembrar, talvez com uma memória que corrija da minha a ausência de alguns fotogramas, e até, pois tenho de isso admitir, diante do fato incontestável que são meus lapsos, de sequências inteiras, e não apenas de um filme que, apesar do material altamente perecível que é o celulóide, pode ser reconstituído pela memória dos “bem-pensantes”, mas também de trechos completos de uma história que depende (quase) exclusivamente de mim, em muitas de suas sequências, como fonte primária para qualquer reconstituição de época(s), há de não ter esquecido, como dizia – e quase me esqueço do que estava a dizer –, de James Stewart, um provinciano homem da lei que faz carreira política na esteira de um acaso que o faz capturar o homem (o facínora) mais procurado do oeste americano, provavelmente, embora facínora nunca tenha sido “privilégio” dos americanos, adquirindo, assim, súbita reputação à custa de Liberty Valence: que nome para um facínora!

De volta a sua província, talvez, porque já não me lembro muito bem, querendo expiar uma culpa, a de ter-se valido de uma notoriedade espúria, tão contemporânea. Um editor de jornal, provinciano este, provinciano aquele, embora já bastante cosmopolita por seu entendimento do “valor” da imprensa, assegura ao senador, como se, então, mirasse um jornalismo-de-resultados, se resultados não tenha sempre sido o objetivo do jornalismo, em graus variados, de acordo com a proximidade ou afastamento do poder, porque este(s) sempre há - poder, provincianos, cosmopolitas, facínoras, senadores, jornalistas e leitores –, que quando o mito supera os fatos, deve-se imprimir o mito.

Uma imprensa de fato, de fatos, exclusivamente (e como ela adora uma exclusividade, seja fato ou seja mito), será que não é o mais bem forjado dos mitos, desses que, de tão fortes, imprimem-se como verdade a ferro e fogo, embora, na verdade, haja, na imprensa, tantos mitos: provincianos querendo se passar por cosmopolitas, cosmopolitas desejando retornar à província (preferencialmente, recebidos como um James Stewart), provincianos tentando convencer de que apenas se passam por um, porque, assim, acreditam, podem chegar mais rapidamente aos (seus) resultados, além de uma boa gama de combinações que a imprensa permite, mais ou menos, a depender do quanto se esteja no círculo mais próximo ao centro do poder.

Se, um dia, virem um filme como esse (e filme em preto-e-branco existiu mesmo, ou é só um mito do cinema?), hão de, em vez de se acharem antiquados em sua política de fato(s), ter certeza de que essa é uma obra que não se baseia em fatos; que jornalismo, de verdade, não é isso; que imprensa é aquilo; e que o que se vê na "tela" (um quase anacronismo, um quase mito) é só mais um mito da indústria do cinema para - coisa feia, dizem alguns – alcançar seus pretendidos resultados.




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