
á tinha ouvido falar, embora jamais tenha presenciado cena assim – comovente para uns, para outros, apenas apelativa – das lágrimas de crocodilo, nunca me tendo atracado com um, mesmo que para um exótico abraço, pressionando, por fora, aquelas suas glândulas que, como mecanismo precisamente acionado durante a comilança sem requintes de civilidade, fazem-nos, a indivíduos desse gênero (para não dizer a gente dessa raça), verter lágrimas: o que, a nossos olhos tão dados a paixões exacerbadas, parece um chororô sofrido, que nos toca profundamente, quase a nos levar a uma carícia na cabeça do bicho, sem, então tomados pela emoção, atentarmos para o risco, ali, tão próximos como já nos achamos de suas instintivas presas, presos nós por alguma culpa sem nome, predador esse crocodilo que, numa experiência sensacional, vai ao pranto justamente por estar gozando do alimento necessário – já que, em se tratando de ser que não homem, dizer do alimento que é o “desejado”, é já apelar para uma prosopopéia.
Vá lá: jacaré! isso ainda passa, ainda que eu não seja daqueles que, para demonstrar, publicamente, uma coragem que na verdade não tem, faça qualquer questão de passar por perto de um. Mas, uma águia...isso já é demais para nossas assentadas noções de altivez. Afinal, onde foi parar aquele olhar arguto, que sobrevoa (a) tudo, mesmo quando (esse) tudo não passa do nível mais rasteiro, aqueles olhos que enxergam longe, aquelas presas retráteis – recuam, talvez para não mostrar, de cara, do que são capazes, e avançam na hora certa –, aquele bico que, se nariz, bem poderia ser um sinal de astúcia, e, enfim, toda aquela sua pose imperial(ista): onde foi parar?
Não me venham, agora, rastejante jacaré, sem sequer ser tratado por um Crocodilo, querer que eu chore por causa de uma atitude piegas, indigna de uma ave tão sagaz, dessa águia. Choro, antes, consumidor de folhetim barato, por gêmeos, por gêmeas que, sem que se espere por isso (como nos bons folhetins que nos pegam de surpresa, forçando lágrimas imprevistas no meio de um sorriso de vitória), sendo destruídos(das) pela força, maligna mas inteligente, de um vilão, oculto nas sombras, deixando-nos a impressão de que é feio, conduzidos que somos, pela mão manipuladora de um bom novelista, a acreditar que é justamente para se vingar do mundo, por causa de sua feiúra (que culpa temos nós?), que se atirou assim sobre as pobres gêmeas – embora, saibamos, pela história, que são meninas ricas e, como águias, tantas vezes olhando tudo do alto.
Sinto por elas, por essas gêmeas, construídas pelas mãos experientes de um demagogo para serem firmes torres de uma história edificante, até, pelo menos, que um crítico, como se fosse um perito em obras desse gênero, achasse, trazendo isso a público, os buracos comprometedores. Mas, a essa altura, quem lê e gosta do que lê, pouco se importará que os tais buracos se revelem crateras para as quais não se pode fechar os olhos, porque há delícia em, junto com as gêmeas, ir tão alto, mesmo que nunca saiamos do nosso nível tão terreno (e daí para baixo), delícia semelhante a de ir ao chão, quando – coitadas das gêmeas – elas caem.
Todo folhetim que se preze, para prender o leitor, faz o mocinho, a mocinha, um deles, sofrer, página atrás de página, preparando a grande revanche, quando o vilão, afinal, terá sua face (monstruosa) exibida em cadeia internacional. Mas, e isso é outro truque dos manipuladores, o mal pode, ao contrário do que tanto gosta nossas aspirações cristãs, ter uma face bela – e há cristãos que vêem nisso o reforço de sua crença, argumentando que o mal sempre se apresenta assim, belo, para seduzir os que insistem no “terreno”. Em caso assim, lamentar as gêmeas? saudar o mal? achar, subitamente, buracos onde tudo parecia uma estrada celestial? ou, simplesmente, chorar de raiva por ter-se deixado levar, como se diante da mais terrível realidade, por uma ficção digna de uma águia dos folhetins?
sexta-feira, julho 04, 2008
CHOREI, CHORARE
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quinta-feira, junho 12, 2008
UD END DAS LOVE HISTÓRIAS
oda história de amor termina numa tragédia. E tragédia é um desses substantivos – e estes são poucos – que parecem rejeitar adjetivo como companhia, especialmente se for “grande”, não sendo diferente quando “pequena”, porque essa dimensão do trágico só é mesmo possível ao espectador da tragédia, capaz, por mecanismo de comparação em que pode entrar sua própria experiência pessoal, de mensurá-la, luxo(?) a que não podem se dar os que, metidos nessa, mal conseguem entender o que (lhes) está acontecendo.Dito assim, sem o romantismo que se associa, comumente, a histórias desse gênero, isso é como desfazer uma fantasia, a que envolve o Amor, suas histórias, algo que soa a crueldade sem razão, considerando que já há tão pouco para se fantasiar, com o real insistindo em se sobrepor, chegando mesmo a se fazer passar, fantasiado disso, por ilusão fantástica. E onde, afinal, encontra-se a tragédia de uma história de amor? Parece-me tão à mostra! Se não em algum trecho entre o começo da história e o fim do amor, certamente, no simples fato de que, em algum momento, o amor vai terminar, levando consigo a história, mesmo que deixe lembranças – e, por vezes, são estas que fazem com que sintamos uma tragédia grande ou pequena.
Talvez, agindo aí a razão, mesmo que contrariando a lógica, no sentido de achar alguma saída, diga-se que nem toda história de amor termina, só acabando (e isso não é terminar?) quando, havendo ainda história e amor, seus personagens é que se findam. E dizem ainda, transgredindo um pensar mais rigoroso, que o sabor de uma história dessas está, justamente, na presunção de que, algum dia, há-de acabar, percebendo-se, neste caso, que, querendo-se dizer o contrário, terminou-se por concordar com o fim a que estão destinadas as histórias de amor, dando, no entanto, como se, teimosamente, não se quisesse dar a mão à palmatória, a impressão de que seu fim é o preço – até baixo – que uma história cobra pelo benefício do amor.
Quanto às histórias de amor, trágicas em si, pela natureza que lhes é própria, essas mesmas que terminam (e não custa repetir: o fim é sua tragédia essencial) de forma trágica, sendo uma tragédia o que determina a outra, são tão trágicas, que, como dois inimigos que se separam, consensualmente (não sem muita briga), indo cada qual para um lado diferente, com o intuito de evitar um confronto fatal para ambos, e acabam, completando um círculo, dando de cara, novamente, um com o outro, chega a ser risível: trágica como é toda alegria que não alcança o mínimo para, ao menos, simular um desenho sorridente a repuxar para cima o canto dos lábios; dolorosamente engraçada como é toda tragédia que, pesada demais a mão do autor da história, indo além do humanamente suportável, anestesia a própria dor que causa, matando a si mesma, já que o trágico se vale da dor para se expressar.
É por isso que os que sofrem calados suas próprias tragédias, negando essa cena aos espectadores do trágico alheio, são incapazes de, sabendo do fim iminente da história, embora desconheçam quando, corajosamente, acreditarem no amor: tragédia aos olhos dos que ainda crêem no amor, dolorosa piada aos olhos dos que, semelhantes, igualmente se calam.
sábado, maio 03, 2008
A MÃE DE TODAS AS COLAS

ão é nenhuma coca-cola: e não era mesmo para ser. E se a coisa esquentar, se for preciso dar um refresco para retomar o gás, antes, uma pepsi – com bastante gelo e limão, este, não muito.Alguns auto-outorgados, outros feitos assim à própria revelia e pelo reconhecimento alheio de sua importante participação nesse ato de criação, embora não estejamos, rigorosamente, falando de teatro, há vários presumidos pais para o cinema: desde Thomas Edson (quem há-de negar que foi mesmo ele quem nos deu, a todos, a luz?), uma espécie de pai intelectual, mesmo antes de surgirem as primeiras teorias sobre o cinema, até, deixado, o cinema ainda em seu alvorecer, esse Alva, outros, como Méliès, os irmãos Lumière (numa experiência, avant-la-lettre, de paternidade compartilhada), sem nos esquecermos, nessa enumeração, daqueles que, vindo depois, tudo ainda carente de idiossincrasia, deram ao cinema um sobrenome: Griffith, Einstein, Ford, Wilder...
Mas, tomando como base a (nossa) experiência humana (e o cinema é uma, mesmo quando se diverte, e a nós, com desenhos animados, mesmo quando se desvia, desviando nossa atenção das coisas deste mundo, para as ficções além-humanidade: seja como for, sempre nos reconhecemos nele), com pais de sobra, esse filho-da-mãe, por mais pudico e moralista que possa ser um cinema, é mesmo filho de quem? Qual o nome da mãe?
De saída, é difícil se estabelecer uma maternidade. Com o tempo, surgiram nomes (e sobrenomes) que não deixam nada a desejar, ainda que, também atrizes, possam, essas mães, ser (ainda) muito desejadas.
Joan Crowford, pelo que eu sei, não é uma dessas, ainda que tenha ajudado muito para que o cinema mostre-se com pose, posando de “grande”. Embora tenha sido – e não buscou, jamais, esconder isso em uma biografia fictícia, tão ao gosto de sua época – uma “mulher qualquer” em certa fase, acabou subindo na vida. E se não foi mãe do cinema, este lhe deve, eternamente, alguns dos seus melhores momentos de vida.
Mãe (de “verdade”), dentro de uma história mais estritamente humana, adotada sua Christina, viu-se, atriz das melhores, personagem de um livro de memórias: em que pesem uma ou outra passagem assim-assim (e quem liga para passagens assim?!), o que prende mesmo o leitor (e espectador?) são as passagens em que a mãe surge, como num drama verdadeiro, má: até a podemos ver, com seu rosto anguloso, comprido, olhos inequívocos (sem dúvida), e sobrancelhas desenhadas, num arqueado que lhe empresta, sem favor, um ar de quem está, mesmo quando no lar, eternamente, num set, pairando acima de todas as outras estrelas.
A essa altura, um refrigerante talvez se faça necessário, seca como já se deve estar com a boca, de tanto me “ouvir” falar: e é aí que entra a Pepsi (& Co.), herança do marido milionário: Crowford, tantas vezes poderosa de mentirinha, agora, de verdade, é dona do poder. Como, no entanto, ensina-nos qualquer reles refrigerante gaseificado, o que não é consumido em seu próprio tempo, na crença de uma vida eterna (as estrelas caem nessa armadilha), há-de, mais cedo ou, impontuais essas atrizes, um pouco mais tarde, perder o gás.
Então, a vida passa a ser não mais do que uma água com açúcar, enjoativa, mesmo quando se tem de lidar com uma filha daquelas, e os filmes, perdido seu efeito efervescente, têm-se de contentar, e nós com eles, com uma xaropada só. E se for um desses filmes sobre a relação mãe-e-filho(s), as verdades parecem inverossímeis, uma coisa que, temem os produtores, o público (mães e filhos) não hão-de engolir, para sorte do vendedor de pepsi ou de uma coca, colal qualquer. Nesse caso, restam os roteiros inspirados em qualquer coisa, nada originais, com relatos de filhos a respeito de seus pais: pura inverossimilhança para um leitor, porém, visto na adaptação para o cinema, apesar do exagero que lhe é próprio, em closes antinaturais, parecem (ser) a vida real.
E, tecnicamente, uma ilusão, todo cinema será sempre (de) ficção. Naturalmente, boas, como as quer certa ficção com ares de aprofundada pesquisa acadêmica ou filosofia imparcial, tomando, claramente, as dores das mães, estas, indo ao cinema, identificam-se, de imediato, com qualquer mentira que se conte a seu respeito, numa generalização em que se sentem, quase nominalmente, apontadas, chegando a rir, no escuro da sala, algo envergonhadas, como se todos os espectadores, vendo o filme, reconhecessem-nas como a dona daquela história. No entanto, mesmo que digam que existem “mães assim”, deparando-se com dramas de uma verdade que não dá refresco, nem alivia a barra (da saia) das mães, fazem-se, repentinamente, filósofas revolucionárias ou acadêmicas aguerridas, na defesa do que dizem ser a boa reputação das mães, defendendo, no íntimo, a manutenção da imagem que, mães em geral, fazem de si mesmas.
E vai que entre tais mães surge uma filha – “de verdade” ou “de mentira” – e, num relato, em escrita suspeita, provavelmente fantasma, com assustadoras passagens, expõe, longe da beleza mítica dessa materna figura, os bastidores da família: a mãe afunda em si, desaparecendo em sua vergonha; a filha, se bem vendidos os (seus) direitos, afunda numa boa grana (e talvez, depois, adoce a boca da mãe); e nós, consumidores de tudo, pagamos o pato.
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quinta-feira, abril 03, 2008
EU ERA DA INOCÊNCIA

assemos longe de um duelo. É passado já o tempo dos duelos, ao menos, daqueles cheio de rituais, aos quais se ia, padrinhos e assistentes, vestidos a caráter, e duelistas trajando seu próprio caráter, discutível sob um ponto de vista anacronicamente, do nosso ponto de observação, contemporâneo, pacifista, com o argumento moderno, mas pouco levado a sério, de que a palavra, que é também uma arma, e das mais poderosas, é capaz de resolver as querelas, sem se disparar um só tiro, sem uma só estocada de florete – como se uma palavra “corretamente” disparada não pudesse ferir, profundamente, mesmo ferir de morte, ressalvado o poder ressuscitador dessa mesma metáfora; como se uma palavra manejada com talento de esgrimista, mesmo que por um diletante nesse esporte, mesmo que um aprendiz ainda, desde que aplicado, nessa arte, não pudesse, atingindo – touché! – um ponto vital, não fosse capaz de provocar danos irreversíveis, mesmo sem o risco de morte, sendo que a cicatriz disso, inapagável, seria justamente o portar a marca de uma ferida da qual não se morreu, carregando consigo esse desonroso diadema de uma palavra que se teve de engolir, não se sendo forte o bastante para retrucar com outra, se não mais forte, garantindo assim, para si, a vitória, pelo menos uma palavra em pé de igualdade, fazendo com que a ferida, e a vergonha, seja(m) partilhada(s).Com essa época que se foi, quase digo que se foi embora, juntamente, a era da inocência: isso, porém, seria uma demonstração pueril de uma inocência que já não me é permitida, na medida em que inocência nenhuma era alguma conheceu, de verdade, só assim se dizendo numa comparação, indevida, de uma era, que tem suas próprias características, com outra, com suas próprias idiossincrasias. Fato, no entanto, é que, tenha sido predicado de outra era, com mais tempo para mesuras, com menos competição entre gêneros (é verdade que isso escorado na prevalência de um gênero sobre o outro), o cavalheiro cedia sua vez, seu lugar (sem, contudo, abandonar sua posição inabalável de gênero prevalente) à dama, até, diante de uma argumentação dela (tacitamente, os cavalheiros não admitiam que elas pudessem tecer argumentos, o que já demonstra que inocentes eles nunca foram), admitindo, da boca para fora, seu próprio erro, em favor da dama, ainda que isso o fizesse, num reverso da face pública do seu ato, gozar, intimamente, da situação, acentuando, só para si, o erro da mulher: também, haveriam de dizer (se não hão ainda de falar assim), o que se poderia esperar de uma...dama?!
Não cedo. É tarde para isso. Numa competição, numa espécie de esconde-esconde no mato, sem que isso signifique, na moita, um jogo de lasciva ludicidade entre gêneros diferentes, em que se sagrará vencedor o bicho que melhor se esconde nesse mato (cutucando bem, desse mato até que pode sair cachorro), sou o ganhador, de cara – embora a vitória seja dada justamente a quem menos exibe a sua.
Serei um inocente perdido em meu próprio tempo, um viajante extraviado de outra era, ou serei, entre todos os cavalheiros, o mais ladino, aquele que, demonstrando uma fraqueza atávica para armas de fogo, atira palavras, com mira de impressionar num canhoto desajeitado, o mesmo que, sem talento para manejar uma faca, que dirá uma espada, arrisca-se com o lápis, examinando, num golpe de olhos, o adversário (porque, para um cavalheiro, é duro admitir que seu contendor é de outro gênero), e, com precisão quase cirúrgica, riscando, ali, a palavra exata?
O que sou, não sei. O que sei é que tudo isto soa a mais um tiro que saiu pela culatra. Também, quem mandou eu não me empenhar mais nas aulas de tiro ao alvo, preferindo dar mais atenção à elegante dança da esgrima de palavras?!
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