segunda-feira, fevereiro 01, 2010

MONSIEUR HULOT NA ATLÂNTIDA






izer, simplesmente, que qualquer bagunça é uma chanchada é voltar no tempo, nessa fantástica máquina, à disposição de quantos a queriam usar, e que mistura memória (máquina, às vezes, falha – se não me falha, agora, a própria memória) e imaginação – e esta, por vezes, quanto mais “quebrada” a máquina (da memória), melhor funciona, até só funcionando, em alguns, assim. Mas, voltar assim no tempo é dar de cara com uma (e foram tantas) chanchada que, bagunça produzida, era produzida, seguindo-se uma ordem, não livre de eventuais bagunças, sem que se pudesse então destas se dizer que era uma chanchada, embora, aparentemente, dizer isso seja o mesmo que desdizer (d)aquilo, porém, como ninguém se lembra mais do que eu acabei de dizer, menos ainda do que já havia dito antes, antes de dizer o que, dito há pouco, não é mais lembrado, pouca diferença faz...

Porque minha máquina, a que deve funcionar bem para bem funcionar, já vai ficando para trás: e ainda que isso seja pertinente a ela, à memória, o que quero dizer é que, um dia, tão azeitada que mal fazia ruídos, a cada lembrança, hoje, faz barulho, a cada esquecimento: que zoeira! Compensando, o que para muitos há de parecer só um prejuízo a mais, a outra peça dessa mesma máquina, a fantasia que lhe empresta aparência (de) fantástica, mais e mais, vem-se mostrando, sem pudor de aparecer, com suas armas: ora exibindo suas garras (que qualquer monstro fantástico, ou mesmo um fantástico objeto de nossos desejos, não deve prescindir de garra(s)), ora surgindo sem garras, sem dedos, sem mãos, sem braços e, para encurtar essa amputação progressiva, sem nada, sendo isso o que a faz, especialmente, tão fantástica.

Baguncei o coreto?! Talvez tenha feito uma chanchada, sem, no entanto, ter a graça desta, sem a musicalidade daquele, por mais bagunçado que pareça esse pequeno coro, antigo centro das atenções em uma pública praça, agora, nostalgia que só quem dela (dele) sente saudade é quem, assobiando, ao acaso, uma canção, relembra de um passado carnaval nas cenas de uma chanchada.

Contar piada eu não sei. Paródias eu já faço, de mim mesmo. Dar cambalhotas, hoje em dia, é-me muito arriscado: e quando não deveria ser, não me arrisquei a dá-las. O que (me) falta é originalidade para dar nome a esse filme, mesmo chamando, em meu auxílio, o teatro, o musical, que alimentou tantas chanchadas em revistas.

A sutileza morreu – e como era sutil, ninguém percebeu, a ponto de ainda dela se falar, sem sutilezas, como se viva estivesse. Sobrevive a bagunça, mesmo que já não seja adequado, para não dar muito na cara o tempo que passou, mesmo que a (minha) fantástica máquina tenha chegado, retroativamente, até aqueles dias, chamar a tudo isso de...chanchada. É bagunça – e ponto final: hoje, tudo tão sem graça!...





sexta-feira, janeiro 01, 2010

AFAGOS ÀS FADAS








ó não começo com o clássico “era uma vez...” porque isso poderia parecer conversa para boi dormir ou um conto de fadas para ninar um pirralho que ainda não conhece o sistema decimal para contar nos dedos de suas mãos uns tantos carneirinhos até seu sono chegar e, assim, interromper seus cálculos noturnos. Mas, há ainda uma outra razão: é que a fórmula, como um soco na cara, apesar do apelo quase caricioso de palavras tão nostálgicas, justamente por o serem, lançaria esta história para lá, no tempo, num lá demasiado lá atrás para que a contemporaneidade de exemplos, à mão cheia, permita ir adiante, interceptando a narrativa com o apelo – menos súplica e bem mais uma velada ordem, com verbo, excepcionalmente, conjugado, à perfeição, no imperativo afirmativo – a uma inspiração mais reconhecível nessas nossas modernas tramas em que homens não faltam, carecendo, no entanto, de feitos que nos redesenhem, apagando a desculpa de o sermos (tão humanos) para nossos erros, acentuando traços heróicos que talvez existissem, na origem, e que se perderam pelo mergulho mundano nas águas demasiado humanas.

Como, então, começar? Ora, de fato, já comecei: e isso me libera de começos mais solenes e, já estando próximo do meio, sem um cálculo preciso de onde esta história vai dar, posso fazer de conta, sem me voltar aos contos de fadas para bois dormirem, de que fiz o que devia fazer, prosseguindo com isto (aqui), com a consciência tranqüila de que não queimei etapas indispensáveis à compreensão do que se passa, aqui.

Alexandre (e se dele disser O Grande, isso seria como o soco que tentei, a todo custo, evitar), aquele que, como epônimo das coisas grandiosas de que um homem é capaz (aparentemente, só porque a história é curta demais para a interminável lista de anônimos necessários às conquistas), empresta, ainda hoje, em quem o traz na lembrança de uma epopeia que, lida, parece-nos inverossímil, seu nome ao “quase impossível”, recebeu, certa vez, uma carta, sem autor declarado, que o avisava do suposto suborno a que seu medido particular, Filipe, deixara-se submeter para, muito bem pago, envenená-lo, misturando, como remédio, uma droga letal a sua bebida. Cortar-lhe a cabeça soa previsível, se a história fosse de uma Rainha de Copas e não à virilidade de um homem dessa (sua) cepa. Enfim, não a cortou, pessoalmente, e como não era dos que mandam recado, também não mandou que a cortassem.

O que fez? Esperou – que talvez seja uma das maiores virtudes, e uma das mais desprezadas, dos grandes homens – receber, diretamente, das mãos de Filipe a tal bebida, suposto veneno, e, sem hesitar, sem que olhos que testemunhavam a cena presenciassem qualquer mínimo tremor em seus dedos, inquietação em seus olhos, palpitações anormais em seu peito, tomou a taça e, enquanto bebia todo seu conteúdo, fez seu medido, a seu lado, ler a tal carta que o acusava de ser autor dessa tentativa de assassinato.

Somos, é bem possível, acostumados às fadas (que renegamos, com o tempo) ou com as ruminações bovinas em cardápios pastoris (por nos sentirmos, vaidosamente, vã vaidade, urbanos demais para essas conversas fiadas), ávidos por uma (boa) moral, tomando até como mal contada uma história cuja moral não se extrai sem esforço, estando, então, tão á superfície dos fatos como desejamos encontrá-la, a ponto de ser suficiente os olhos para pescá-la, sem fazermos nisso tudo intervir a mão, porque os bons peixes, às vezes, vêm de águas perigosas, arriscadas demais para aí se meter o bedelho.

Essa história, de Alexandre, tem lá a sua moral, mas, provavelmente, a moral pertence mais ao próprio Grande do que, propriamente, à (sua) história, a essa que o tem por personagem, protagonista de um capítulo a mais em sua longa lista de desafios vencidos, durante uma vida tão curta. Alexandre, diga-se, não morreu naquele momento, porque sua bebida não estava envenenada, como afirmava o covarde remetente do aviso anônimo. Disse Alexandre – e quantos de nós podem(os) dizer o mesmo, com sinceridade, sem termos à mão um antídoto com efeito imediato? – que preferia morrer, mesmo tendo sido avisado dessa possibilidade traiçoeira, a duvidar dos seus amigos, como era Filipe.

Podem dizer, com risinhos covardes nos cantos dos lábios, essa é uma história para boi dormir. História como essa, verdadeiro sedativo para bois insones, há em todo campo, embora haja técnicas mais modernas de se encher os ouvidos de um rebanho (de insones), talvez rememorando fatos (muito) passados. Há contos, mesmo quando as fadas já não resistem à precoce destruição das fantasias infantis. Exemplos, hoje, carecem de heróis verossímeis, quem sabe se por não ser crível que haja heróis, simplesmente, essas figuras, agora, tão risíveis, quanto as fadas, e tão desconhecidas, quanto os bois para os olhinhos irrecuperavelmente urbanos.

Eis as palavras, num modelo que se assemelha a uma carta, ainda que lhe faltem certas características que torne o reconhecimento mais imediato como uma clássica epístola – e não é anônima, caso isso ainda não esteja claro: coisa só de mais algumas linhas, o que, por si, não me livra de ser chamado, a qualquer momento, de covarde. As (minhas) palavras são a bebida – quem sabe, uma “droga” (de palavras), talvez seja um remédio, ou um antídoto contra envenenamentos do olvido. Ardiloso, não te dei a escolha de ler, enquanto bebias, porque para lê-la(s) – carta, palavras – tiveste de bebê-las, uma a uma, todas as palavras, ainda que algumas tenham sido engolidas em seco, na pressa para acabar com isso.

Não prefiro, pequeno homem como sou, a morte a ter de esquecer os amigos – o que já revela mais um traço da minha covardia. Porém, se os esqueço, como se não houvesse escolha, isso é a morte de tudo aquilo que pode, ainda, fazer-me grande, ao menos, aos meus próprios olhos, nem que seja por uma data certa, e logo esquecida.

Sem mais, e não tendo coragem suficiente para me esconder no anonimato...






terça-feira, dezembro 01, 2009

CHICO, THE KID















uando eu era garoto – e minha infância não daria um filme, já que suas brincadeiras, então minhas, eram das mais banais, e até meus dramas, de uma vulgaridade sem qualquer toque original –, mendigos tinham lá, nessa utopia chamada de passado, sua posição social, se se puder falar assim de um subdegrau, espécie de vão, um socavão, improvisado em um, aparentemente, inútil espaço da escada. De fato, eram conhecidos, um por um, e mesmo eram reconhecidos, como se um ou outro, mesmo que desejasse isso para si, não tivesse o legítimo direito e usurpar o lugar já conquistado pelos mendigos estabelecidos. E vagabundos também, embora, fora do seu próprio ambiente familiar, poucos – e mesmo assim, a distância deles – se atrevessem a fazer soar, próxima a seus ouvidos, essa vagabundagem de que todos sabiam: e como um mendigo, sempre em busca do que comer, e os vagabundos, diga-se, não o são, necessariamente, também gozava, nesse espaço muito bem demarcado, de um lugar ao sol, ainda que, como convém a sua natureza vagabunda, preferencialmente, à sombra de uma árvore generosa e, ainda melhor, perto de um rio, tão próximo, que baste apenas esticar, sem tanto esforço, o braço, para alcançar a água fresca.

Vagabundos já foram heróis, e não porque fizessem de uma incompatibilidade pessoal, ou estrutural, da própria sociedade, para com o trabalho – esse argumento, em nome da dignidade individual, para o enriquecimento de poucos – sua bandeira, anárquica, sedutora, mas tão-somente por encarnarem uma personagem lírica, livre das convenções, a ponto de poder adentrar elegantes salões com os mesmos trajes, em frangalhos, com que buscava, dia a dia, seu sustento em migalhas esparsas. Não que víssemos poesia em ser pobre, em depender da generosidade, nem sempre sincera, dos outros, às vezes, apenas uma maneira de se livrar do incômodo de mão estendida, mas, em algum lugar, nessa utopia que somos todos nós, mesmo que tenhamos endereço fixo (o que não impede a vagabundagem doméstica), alimentávamos a fantasia de só precisarmos de um único traje, simples e elegante, mutável, a depender da ocasião; de só precisarmos de alimento na hora em que a fisiologia desse seu nada discreto alarme; de não nutrirmos paixão pelo passado, nem adorar, como a um ídolo divino, um futuro sempre incerto; enfim, a fantasia de, como um pássaro qualquer, vivermos, em totalidade, a vida, seja isso muitos dias, seja coisa de dia para a noite.

Hoje, vagabundos primam por um guarda-roupa eclético, recusam o nome que lhes é tão próprio, chamando a isso de incorreção política, preferindo ser tratado por um eufemismo, e até mesmo por, simplesmente, “eufemismo”, que pouca diferença faz, já que não são tantos, mesmo entre os não-vagabundos, que sabem o que isso é, havendo os que acham pura vagabundagem isso de buscar nomes diferentes para uma coisa já tão conhecida. Heróis, propriamente, não são, mas perseguem a idolatria para, depois, fugirem, na dela, mas da perseguição dos que passaram a idolatrá-lo, numa insincera corrida, só para potencializar a perseguição, desejando, ardentemente, que, no meio do caminho, a multidão aumente, pouco importando que esse exército, assim formado, seja composto de vagabundos em geral.

Cartolas caíram de moda (e no seu rastro, quase também rosas que não falam, mundos que são moinhos), bengalas se tornaram anacrônicas, salvo quando o corpo, cansado de vagabundear, ou por não o ter feito no tempo certo, agora, requer essa ajuda sobressalente. Aparecer sempre com o mesmo fato, é como não ter outras histórias para contar, como, por exemplo, alimentar suas história com a quantidade de fatos que abriga em seu guarda-roupa. Andares podem ser aprendidos, dissimulando-se um jogo de pernas engraçado, espaçado, recurvo, por um caminhar reto, coluna ereta, olhos sempre para adiante, e um aspecto de que nada ao seu redor lhe diz respeito.

Mesmo assim, pode haver alguma poesia, algo concreta (por mais anacrônica que essa poesia possa ter ficado) nessa nova maneira de ser vagabundo. Mas, aos meus olhos, sempre mais encantados com a mudez do que com o cinema tagarelado, vida feliz é sair por aí, garoto, quebrando vidraças (coisa que nunca fiz), não tanto por um prazer sonoro nesse estilhaçamento, e mais para alimentar um negócio que vem no rastro: um vagabundo que, em dia de trabalho, oferece, prestimoso e pontual, seu serviço de vidraceiro.

E quem dera um Carlitos para t(r)ocar meu telhado de vidro!



domingo, novembro 01, 2009

A FÁBULA DO (REI) LEONE
















ra uma vez...uma fábula. E não vou, aqui, contar nenhuma fábula, porque sei que ninguém mais dá ouvidos para isso. Houve, porém, um tempo – e o tempo, especialmente, o que já foi, é matéria-prima das boas fábulas, mesmo que, um dia, esse tempo, tomado, hoje, como passado, tenha sido tão presente – em fábulas eram favas contadas, podendo, por certas semelhanças, ao menos, a olhos mais ligeiros, mais interessados na “estória” do que, propriamente, em seus aspectos mais formais, ser tomadas por contos de fadas. Não que nesses dias não houvesse o peso, que sempre existiu, da realidade; do seu império, algo arbitrário, sobre o sonho. O que, então, sobrevivia era a admissão da fábula, como um aspecto da própria realidade, por mais que – realidades, cada qual a sua maneira – entrassem em conflito. Passados esses heroicos tempos, quem ainda se dispõe a ouvir um Era uma vez..., já se mostrando entediado ao escutar as três palavras, exasperando-se, sobremodo, com as reticências a segui-las, enxergando nisso uma história sem fim, diante de suas premências, sejam estas urgências reais ou não passem de uma fantasia escamoteada: porque não nos deixemos, assim, tão facilmente, nos ludibriar, por vezes, a fantasia é, no que tem de mais saboroso, mas sem um sabor que possa ser aprisionado e repetido, segundo critérios mais concretos, mais dura de se suportar do que a mais insípida das realidades sem graça.

Fábulas, em geral, não necessitam, como um requisito básico para sua existência (real?), de um lugar bem definido, interessando mais à fantasia que esse detalhe permaneça em branco, oferecendo assim essa lacuna como um espaço a mais para se fantasiar. Isso de precisão geográfica é coisa de quem faz História, que se vê enredado por documentos, e até documentos que provem a veracidade de outros (documentos), criando, desse jeito, uma teia de registros que mira o incontestável, como um alimento, reconhecidamente, saudável, mas que carece de cheiro, de gosto, de uma textura que desperta olhos, língua, tato, potencializando, para além da sua ingestão, o prazer de comer.

A América – esse remédio genérico para similares mais pobres –, como se saída de uma fábula, já foi vista, e ainda há muitos olhos abertos para isso, como um lugar de riquezas fabulosas: uma gruta repleta de sonhos, mas que exige, idealmente, com muito trabalho, que se conquiste a palavra mágica. E mesmo que o tempo tenha cuidado, como um predador que não cuida de preservar alguma coisa para garantir seu futuro, atendo, tão-somente, a suas próprias necessidades do momento, de desfazer algumas fantasias, outros sonhos sobrevieram, realimentando fábulas, agora, sem paciência pela duração, que não se sabe bem de quanto é, de algum Era uma vez...

Riquezas se renovam: um dia, terra; outro, a conquista do céu – até mesmo, com um tino invejável para os negócios, fazendo da necessidade, nem sempre admitida, de fantasias, uma fonte de riqueza que se alimenta justamente de fábulas: e ainda o são, mesmo quando se mostram com uma dura cara de realidade. No entanto, ávido pelo banquete de agora, acreditando que outros virão, naturalmente, ou crendo, simplesmente, que (nos) basta cuidar do dia de hoje, porque ninguém sabe o (dia) de amanhã, deixou-se de regar as fábulas, as fantasias, os sonhos, tornando-os, até em palavras, uma interferência indevida, e que por isso deve ser afastada, para a renovação das riquezas, sem se dar conta de que, assim, faminto pela coxa da galinha, empenham-se mesmo os ovos de ouro que sequer saíram, sem palavra mágica, senão, talvez, uma onomatopéia dolorida, da gruta da ave.

O sul que somos, fabuloso em ouro, um dia, é quase, hoje, só uma dourada alegoria carnavalesca. O norte, por exaustão, dá sinais de cansaço. O leste – essa fonte de tantas fábulas –, num pragmatismo capitaneado pelo tiranismo da Realidade, derruba suas grutas de sonhos para, no lugar, erguer, em nome da riqueza – essa palavrinha mágica –, grutas, com outros nomes. E o oeste – ah! o oeste de tantos sonhos, tanto para quem, historicamente, lá semeou suas fantasias de ouro, quanto para quem, assistindo a tudo, de cadeira, sem correr o risco de ser ferido por uma das (tantas) balas perdidas, nesse faroeste emocionante, entretinha sua realidade com pepitas faltas, mas convincentes –, por mais que se tente renová-lo, parece, como filão, favas contadas, salvo de alguma fada, extraviada de um conto sem pátria, desejando reviver seus dias de glória, mesmo que nunca fossem as protagonistas, servindo de escada para cinderelas descalças, resolve, com sua varinha, interferir nessa realidade.