sábado, agosto 01, 2009

ARROZ (branco) E FEIJÃO (preto): ADIVINHEM QUEM VEM PARA JANTAR!





alar em aristocracia soa tão anacrônico e, para os que gostam de se perfumar com o tão pirateado (e, por isso, já enjoativo) aroma de uma democracia que, um dia, já foi um cheiro mais original, igualmente imperdoável quanto abrir a boca e dela deixar escapar um “castelo”, chegando-se mesmo a se confundir os aristocratas – apenas na ponta da “língua” os melhores – com uma nobreza perdida no tempo ou com endinheirados contemporâneos saudosos de um tempo pré-Liberté, Égalité, Fraternité, ainda que, necessariamente, o pós-isso não tenha alterado, irremediavelmente, toda aquela pré...história.

A democracia, talvez por uma irresponsável “democratização” do nome, permitindo, como justificativa plausível, que se encobrissem suas versões em cópias mal-feitas com o argumento filosófico, vazado em certa teologia (ou o contrário), de que os homens nascem iguais e livres – livres, inclusive, alardeiam os democratas sem noção do que são, para desejarem ser iguais aos...melhores, evitando, porém, por mais que a língua coce para assim dizer, pronunciar a mal-afamada “aristocracia”, a democracia, enfim, se espalhou pelo mundo.

Já a arte foi-se tornando um domínio distante do que é popular, mesmo aquela que, em sua origem, foi concebida como tal, quando tomada por olhos que sempre enxergam algo “por trás”, desconsiderando uma obra, se ela parece dizer tudo, ou pelo menos o que há de mais relevante, logo de cara, tomando-se o poder de comunicação mais imediata de uma obra como defeito congênito.

E uma das formas, segundo princípio tão democratizado, ainda que bem pouco popular, de se reconhecer uma verdadeira obra de arte (as imitações vão-se tornando um empecilho cada vez maior para os olhos apurados), além de sua universalidade, é seu caráter atemporal. Concebida pelo homem, a partir de si mesmo (dos seus discursos externamente democráticos e de suas íntimas aspirações aristocráticas, porque a contradição parece ser um traço comum nessa série de criatura fabricadas na linha de produção de uma divindade (mais popular) ou de uma evolução (mais elitistas, já que sobrevivem os que, mais fortes, são, de alguma forma, os melhores), por universal entende-se uma obra que alcance, apesar de todas as idiossincrasias do artista, todos os seres, ou assim potencialmente. Por atemporal, quer-se entender a arte como capaz de “falar”, com seu jeito próprio de dizer, a qualquer momento, mesmo que entre um momento e outro se tenha passado tempo suficiente para que democracias se virassem em aristocracia envergonhadas; para que revoluções tenham dado um passo atrás; para que aristocratas tenham confundido o povo com a roupa que usam num baile à fantasia, esquecendo-se de tirar a máscara após a festa.

“Aberto” sempre é mais democrático. “Fechado” é mais aristocrático. E quantos populares não anseiam migrar da aberta para a fechada, já tendo feito isso se a assinatura do serviço não fosse tão cara, sonhando com uma taxa mais “democrática”, ainda que tudo isso seja só de fachada, uma em que a TV assume o papel de cartão de visitas!

Surpreendentemente, na madrugada (será elitismo?) da aberta, uma obra, uma are que fala a qualquer um que queira escutar e que despreza o tempo, tomado este como uma pesada cadeia que nos ata a um momento, mal permitindo que nos arrastemos pelo presente: “Adivinhe quem vem para jantar”!

Alguns podem considerar uma contradição – o que prova que sou, apesar dos meus devaneios eventuais de “ser melhor”, que saí da mesma linha de produção que qualquer popular –, que se se lembre, de um filme, sucessão movimentada de imagens, mesmo que não se trate de um filme de ação, justamente...palavras. Dr. John (Sidney Poitier) falando ao pai, num momento de especial tensão entre ambos: “o senhor pensa em si como um negro, eu penso em mim como um homem”.

Demagogia (que é uma forma degenerada de ser democrata) ou lucidez (que pode ser o paroxismo da loucura)?

Hoje, discutem-se as cotas (para os mais elitistas, sempre citando um latim de almanaque: quotas), sentimo-nos inclinados a reconhecer que a diferenciação é a maneira mais justa de uma exigida reparação. Mas, como não ver aí, entremeada, a noção de que não somos homens simplesmente, e sim que continuamos, em que pesem todas as revoluções, a nos enxergar a partir da (sapiência?) de uma caixa de lápis de cor?

A solução? Daqui, ficam as questões, porque não vou tirar qualquer conclusão.




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